Entrevista | Cineasta Elder Fraga fala sobre carreira e primeiro longa

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Elder Fraga, 43 anos, nasceu em Santa Catarina por “acidente”, é carioca, mas em seu primeiro longa-metragem coloca o dedo nas feridas e, ao mesmo tempo, homenageia a maior capital do país.

SP: Crônicas de Uma Cidade Real, que terá pré-estreia durante o 3º Santos Film Fest – Festival Internacional de Filmes de Santos, é uma coleção de cinco histórias: O resgate de um policial, a punição de um assassino, um sádico que estuda o limite entre o belo e o grotesco, a busca pela memória perdida e a descoberta de que a justiça e a lei podem ser coisas diferentes.

O grande elenco reúne Luciano Chirolli (Bruna Surfistinha, Getúlio e novela Haja Coração), Júlio Rocha (novela Fina Estampa), Rubens Caribé (novelas Uma Rosa com Amor, Malhação), Rui Ricardo Diaz, Ricardo Gelli, Nicolas Trevijano, Carlos Morelli, Joaz Campos, Gustavo Haddad, Alexandre Barros, Gabriela Wazlawick, Luciano Gatti, Camila dos Anjos, Ando Camargo, Patrícia Vilela, Beno Bider, Marcelo Rafael, Rogerio Brito, Sandrão RZO, Nego Jam, João Miller e Pablo Ginevro.

A relação do diretor com a cidade do litoral paulista não para por aí. A trilha original é do santista  UMANTO. Um dos episódios apresentados no filme teve participação, inclusive, da Orquestra Municipal de Santos. Em 2017, na segunda edição do evento, Fraga esteve na abertura quando apresentou o curta-metragem Os Bons Parceiros, exibido em Cannes e estrelado pelo santista Luciano Quirino, então homenageado do festival.

Na entrevista a seguir conhecemos mais sobre sua trajetória, que incluir diversos prêmios por vários curtas, o processo de produção do primeiro longa-metragem, feito de maneira completamente independente, e os próximos projetos.

Equipe e elenco de SP: Crônicas de Uma Cidade Real.
Equipe e elenco de SP: Crônicas de Uma Cidade Real.

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Conte um pouco sobre sua história até chegar ao seu primeiro longa-metragem.

Minha estreia no cinema foi em 2004, como ator no curta-metragem 90 Milhões em Ação de Thiago Leão, um grande amigo, com quem trabalho até hoje. Atualmente ele é 1º assistente de direção dos projetos 3%, da Netflix e Carcereiros, da Globo. O Thiago é um cara importante na minha formação, ele fez 1ª assistência de direção na minha estreia como diretor no curta O Último Dia, e também em curta mais premiado lá fora, Nóia – Um Dia no Limite.

Como ator fiz mais de 30 curtas-metragens, e foi aí que resolvi produzir e atuar nos curtas: Casa em Ruínas, com roteiro do saudoso Marcos Cesana, e o 1×1, de Alexandre Ingrevallo. Os filmes foram muito bem recebidos tanto nos festivais internacionais como no Brasil.

Nesse mesmo período vinha trabalhando como ator em longas, fiz 14 filmes, três ainda inéditos e esporadicamente, ainda faço um ou outro filme, pois os amigos ainda me convidam muito e atuar é uma coisa que está no meu sangue, não tenho como e nem quero parar (risos).

Quanto à direção, fiz sete curtas para entender o mecanismo do cinema, pois a minha escola era o teatro. Fiz o Ser ou não ser, de 2017 (vencedor de 1 prêmio de direção), Bloody Boomerang, 2016, todo falado em inglês, Noia um dia no Limite, de 2015 (vencedor de nove prêmios), Os Bons Parceiros, de 2014, Boca Fechada, de 2013 (vencedor de nove prêmios), Nigéria Fim da Linha, de 2011 (vencedor de seis prêmios), O Último Dia (vencedor de quatro prêmios).

Alexandre Barros e Luciano Gatti em cena do filme.
Alexandre Barros e Luciano Gatti em cena do filme.

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Seu curta Os Bons Parceiros foi exibido em Cannes. Como foi a experiência e o que ela mudou ou então em sua carreira?
Foi uma experiência incrível participar de um dos maiores festivais de cinema do mundo em 2014. Quando cheguei em Cannes com Os Bons Parceiros comecei a entender um pouco mais sobre o mecanismo da indústria do cinema mundial, vivi duas semanas intensas lá, respirando e vendo filmes todos os dias, trocando com cineastas do mundo todo. Estive na pré-estreia mundial do filme argentino Relatos Selvagens, minha filha tinha na época 11 meses e estava lá comigo e minha esposa. Em 2015 outro curta meu foi selecionado, o Nóia – Um Dia no Limite. Espero voltar agora com um longa, pois infelizmente o SP: Crônicas de Uma Cidade Real não ficou pronto a tempo de enviar.

Como surgiu a ideia para o filme?
A ideia surgir de uma forma muito maluca. Já tinha um longa aprovado na Ancine para captar e estava nesse processo. Aí fui passar um final de semana casa da minha irmã que mora em um condomínio na cidade de Arujá (40 minutos de São Paulo) e minha filha, hoje com quase cinco anos. Assim que chegamos em casa, me perguntou: “…Papai por que a gente não mora em uma casa sem portões? Queria morar em um lugar onde não tivesse morador de rua…. Tentamos explicar para ela que as pessoas que estão em situação de rua, não estão ali por que querem, nem por que são pessoas más, mas ainda é muito difícil para ela entender essas questões. Então fiquei com isso na cabeça durante semanas. Comecei a ver esses programas policiais e vi que todas as matérias eram sobre o problema da violência urbana que não para de crescer. Aí pensei: “É isso!!! Quero falar sobre essa violência que estamos vivendo e que parece não ter fim, sobre a nossa privação de segurança, sobre como nós é que estamos presos atrás de grades e portões com cercas elétricas. Convidei três roteiristas para escrever as cinco histórias do filme: James Salinas, escreveu as três primeiras (Extração, Uma Lata de Atum e Teu Dia Chegará), Sérgio Minehira, escreveu a partir do conto original da Anita Deak o roteiro Vênus ao Espelho e o Leonardo Granado é o autor de Folha em Branco. E foi assim que nasceu o filme.

Gabriela Wazlawick.
Gabriela Wazlawick.

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Você nasceu em Santa Catarina, mas foi de passagem (risos). Cresceu no Rio e fez um filme sobre São Paulo. Por que São Paulo?
Boa!!! (risos). Minha vida foi muito maluca na infância e adolescência, pois meu pai, Gerson Almeida, trabalhava em uma grande construtora civil e a gente não parava em lugar nenhum. Em algumas escolas que estudei achavam que eu era filho de cigano (risos)! Moramos em quase todos os estados das regiões Sul e Sudeste, mas eu sempre voltava para o Rio, que era minha base.
Mas em 1997, meu pai veio para São Paulo tocar uma obra grande e me chamou para vir para cá, decidi arriscar e nunca mais saí de São Paulo. Tenho paixão por essa cidade que me adotou!

SP: Crônicas de Uma Cidade Real apresenta cinco histórias densas, de perspectivas nada otimistas. São Paulo é uma cidade opressora ou há beleza em meio ao caos?
Amo essa cidade, mas, como toda grande metrópole tem as coisas boas e as ruins. Sabemos que o nosso país atravessa um período conturbado, politicamente falando, e ficamos sempre na torcida, fazendo a nossa parte, para que melhore o mais rápido possível. São Paulo é uma das, se não a mais importante cidade do país, por isso a trama se passa aqui. O filme toca em pontos críticos, de uma sociedade carente de respostas, a segurança pública piora a cada dia, e não só aqui, no Brasil todo, como exemplo claro, o Rio de Janeiro, que hoje vive um cenário de guerra. Onde estão os políticos sérios, que realmente querem fazer alguma coisa por nós? Somos atacados de todos os lados, e não nunca temos respostas dos nossos governantes. Isso é muito triste.
Quis fazer esse filme para questionar isso mesmo… para aonde vamos? Onde chegaremos? Quantas pessoas ainda precisam morrer para que alguém realmente faça algo para mudar a situação atual? O povo brasileiro quer um país sem corrupção, onde sua voz seja ouvida. Se o dinheiro destinado a segurança, educação e saúde chegasse para o que foi destinado, teríamos segurança, educação e saúde… é para isso precisamos de políticos sérios e honestos. Pagamos muitos impostos e não temos nada em troca, isso vai minando a nossa fé.

Rubens Caribé.
Rubens Caribé.

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Fale como foi o processo de realização do filme. Como foi custeado?

Tentei fazer o filme pelos moldes normais, que seriam através das leis de incentivo e editais, mas tomei vários “nãos”. Resolvi então fazer o filme com recursos próprios. Eu vinha de sete curtas muito bem recebidos em festivais, foram 29 prêmios e mais de 30 indicações. Como disse antes venho do teatro, onde sou diretor de produção há mais de 15 anos, então resolvi trabalhar com os meus amigos atores e a equipe que vem trabalhando comigo nos curtas. Consegui montar um grande elenco. Para minha sorte as minhas primeiras opções fecharam de cara, mesmo sabendo que o filme era totalmente independente. Tínhamos uma reserva no banco e então resolvi apostar nesse projeto. Essa turma que trabalhou praticamente de graça, mas com um amor e dedicação como se o filme tivesse um grande orçamento – nunca tinha visto isso!!! Cheguei a ter um set com quase 100 pessoas, entre equipe e elenco. Esse sempre vai ser um projeto muito especial na minha vida, independente do seu resultado final com a crítica e o público. Percebi que quando vários artistas se juntam com um propósito claro que é fazer sua arte, para mim isso é o que importa. Sofri muito sem grana, mas a felicidade de ter conseguido fazer o que fizemos, não tem preço, e é por isso que serei eternamente grato à minha equipe e meu elenco. Obrigado!

Pretende lançar o filme em circuito comercial? Quais os próximos passos após os festivais?
Sim, estou conversando com algumas distribuidoras aqui no Brasil e lá em Los Angeles. Até agora tivemos um retorno muito positivo do filme. A equipe está trabalhando muito nos festivais nacionais e internacionais – o trabalho está no começo.

Qual a expectativa para participar do Santos Film Fest?
Cara, estou muito animado, estive no ano passado com meu curta Os Bons Parceiros e a sessão estava lotada e era uma homenagem ao protagonista do filme o Luciano Quirino, com quem tenho vários projetos juntos. Agora, poder voltar com o meu primeiro longa em um cinema histórico de Santos vai ser “único”. O elenco está super animado para ver pela primeira vez na telona e trocar com o público! Estamos contando os dias.

Julio Rocha.
Julio Rocha.

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O longa tem participação do UMANTO e da Orquestra Municipal de Santos na trilha sonora. Como foi a experiência?
O UMANTO é um amigo de mais de 18 anos, fiz um curta como ator, que tinha a trilha dele. Somos grandes amigos e parceiros, mas mesmo assim não conseguimos trabalhar juntos nos meus curtas, mas no longa deu certo e, para minha felicidade, foi uma parceria certeira. Tivemos vários encontros, passei para ele minhas ideias, e ele transformou para melhor! Ele é um artista muito sensível e ligado em tudo que está acontecendo de melhor na música. Trabalhamos a trilha em vários ritmos e deixei ele bem livre para criar. Ele é natural de Santos e ficou muito feliz em mostrar o trabalho em sua cidade natal. Ele tem muitos amigos músicos em Santos e foi em uma dessas conversas que ele convidou a Orquestra Sinfônica Municipal de Santos para fazer a trilha completa do episódio Vênus ao Espelho. Nesse episódio falamos das artes plásticas e ele me disse que teria que ser com música clássica e fui na dele. Ficou lindo!!! Gravamos com a Orquestra no Teatro Coliseu.

A violência é tema recorrente em sua obra. Por que?
No Último Dia falo dos grupos de extermínio. No Nigéria Fim da Linha o mote é a máfia nigeriana em São Paulo. No Boca Fechada falamos da violência sem comunicação. Os Bons Parceiros critica esses bandidos que vão ceifando as vidas por alguns trocados. O Nóia: Uma Dia no Limite abre um diálogo sobre o uso cocaína e suas consequências. No Bloody Boomerang falamos de duas irmãs abusadas pelo pai. E o Ser ou Não Ser é sobre a vingança no clássico Hamlet de Shakespeare.
Estou gritando com a minha arte, abordando a violência de vários ângulos, continuo trabalhando os excluídos. Acho que ainda não esgotou isso dentro de mim. O artista tem que alertar e acho que é isso que eu faço com minha obra, quando falo que vou fazer uma comédia leve para os amigos, eles riem, mas, quem sabe do dia de amanhã, né?

Fale de suas influências. Há algo de Tarantino e também do cinema nacional, Cidade de Deus, Tropa de Elite?
Tarantino, Fernando Meireles e José Padilha trabalham muito a violência em suas obras, são diretores bem autorais e gosto muito disso. Sem dúvida são grandes referências, mas minhas influências são muitas… Lá fora acompanho os diretores Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Terry Gilliam, Alejandro Jodorowsky, David Fincher, Denis Villeneuve, entre outros. E, aqui no Brasil, gosto muito Laís Bodanzky, Tata Amaral, Caca Diegues, Walter Salles. Tem muita gente boa aqui também.

Quais seus próximos planos?
Tenho dois projetos lindos com o roteirista Zen Salles, Bicho Solto e A Extinção da Espécie. Com o roteirista Sérgio Roveri e o Leonardo Granado tenho Os que Nadam Contra a Maré e Vida de Lutador (nome provisório) do roteirista Leandro Franz. Estou muito apaixonado por esses projetos, querendo filmar logo.

Fique à vontade para deixar um recado aos leitores do site.
Aos leitores do site, quero convidar a todos para a pré-estreia do SP: Crônicas de uma Cidade Real. Estarei no 3º Santos Film Fest com todo o elenco par falar do filme a falar todos. Venham!


 

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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