Thundercats me dêem a visão além do óbvio…

Episódio Retorno à Thundera.
Episódio Retorno à Thundera.

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Se eu pudesse escolher entre dezenas de desenhos animados que assisti na primeira década de vida, com certeza Thundercats figura como o número um da minha lista de preferidos. Quando eu era criança em 1986, assisti Thundercats pela primeira vez e fui fisgado pela abertura explosiva, pelas cores, pela coreografia de luta dos heróis ao som do ritmo alucinante das melhores guitarras e sintetizadores que os anos 80 poderiam oferecer, e obviamente, pelo enredo.

Thundercats fala sobre uma raça de homens-gato que vive no planeta Thundera, que está prestes a explodir, tal qual Krypton de Superman. Em razão disso, enquanto o planeta arde em chamas, várias naves espaciais tentam sair do planeta, em especial a nave com o príncipe Lion-o, o filho do Rei de Thundera: Claudius, além do capitão da guarda Jaga, que pilota a nave, e representantes nobres da cada casta: o engenheiro Tygra, o mecânico Panthro, a sensitiva Cheetara, os juvenis Willykit e Wllykat, e Snarf, o gato babá de Lion-o e o único alívio cômico da série, que é uma história de aventura, com um pitadas de drama.

Lion-o, até então uma criança de 10 anos, é colocado em animação suspensa com os outros Thundercats para suportar o tempo gasto na viagem até um planeta habitável, o 3º mundo (seria a Terra?) de outro sistema solar, enquanto Jaga pilotava a nave, até morrer de velhice. Por um defeito da cápsula de animação suspensa do protagonista, após caírem no planeta, o jovem príncipe emerge com um corpo de homem adulto, e salva os dormentes Thundercats do ataque dos seus inimigos de longa data, pois ele consegue empunhar a herança de seu pai, a Espada Justiceira. O artefato detém uma parcela da magia e poder dos Thundercats, que era o que os vilões queriam, afinal de contas. Ao se estabelecerem no 3º Mundo, Lion assume a sua missão de reconstruir um lar para seus compatriotas sob seu reinado hereditário.

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Ao longo de 130 episódios muitas histórias foram contadas, mas numa linha amarrada e crescente, onde depois de chegarem ao 3º Mundo, construírem a Toca dos Gatos, serem apresentados a amigos locais e inimigos diversos, temos vários episódios na linha do perigo da semana, finalizando uma temporada com a coroação de Lion-o como legítimo rei dos Thundercats.

Na sequência vemos o surgimento de três desgarrados do êxodo de Thundera, que são resgatados e nomeados novos Thundercats (Lynx, Pumyra e Bengali, e Snarfinho, o sobrinho de Snarf que já tinha aparecido na temporada anterior). Os novatos passam a habitar a segunda base, a Torre da Justiça, e lutam contra os novos imimigos, os Lunatacks.

Na penúltima temporada descobre-se que Thundera foi destruída por magia, e que era possível restaurar o planeta, como de fato conseguiram. Emendando com a quarta e última temporada, os Thundercats têm como objetivo: derrotar e prender dos os inimigos no 3º Mundo e, a partir daí, levar todos os Thunderianos espalhados pelo universo de volta à Thundera restaurada.  No meio do caminho surgiram os artefatos mágicos de Thundera que deveriam ser reunidos para acessar o Livro da Justiça e, com seus poderes, manter a paz, justiça e longevidade do planeta restaurado. Um final que deixou em aberto a possibilidade de uma nova temporada, pois não chegamos a ver Lion-o exercendo seu reinado com todos os Thunderianos que voltaram do êxodo, quase um Moisés reencarnado, mas foi um final satisfatório.

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Após esse resumo ligeiro, cabe um depoimento pessoal e importante para entender as minhas motivações ao escrever esse texto. Em 1986 eu tinha 10 anos de idade, ao assistir o episódio 20 – Retorno à Thundera – da série original, onde Lion-o encontra uma cápsula, que misteriosamente o envia para o último dia de Thundera antes de explodir, e lá ele encontra a si mesmo e os demais Thundercats embarcando na nave para o êxodo, e encontra Gaylor, o animal de estimação de seu pai, o que o leva a Rei Claudius, que mesmo cego estava lutando contra os inimigos para proteger os segredos de Thundera, e Lion, após rápida intervenção, livra seu pai dos mutantes, e o questiona porque se mantém no planeta, mesmo em vias de explodir. Claudius explica que a nave com seu filho precisa ser controlada remotamente por ele na base de comando, única chance dos Thundercats sobreviverem. Lion-o, pasmo ao descobrir o derradeiro sacrifício de seu pai, tenta convencê-lo a partir junto com ele, mas o pai nega pois tem que concluir a missão. Ao final, após retornar ao tempo atual, Lion-o olha para o céu, e vê a imagem de seu pai, e faz uma bela declaração de amor fraternal. É um sentimento de carinho muito forte, de dedicação, de interesse pela figura do outro, gerando sentimentos positivos e construtivos, podendo até em certos momentos, levar o indivíduo a fazer grandes sacrifícios. É desse tipo de temática e ensinamentos que a série tratava na sua essência.

Revi o capítulo novamente mais duas outras vezes. Em 1989 meu pai faleceu, e como o desenho ainda passava na TV aberta, reassisti numa reprise, e mais do que nunca entendi a mensagem daquele capítulo em especial, do amor fraternal entre pai e filho. Eu me senti o próprio Lion-o: uma criança órfã que teve que assumir a responsabilidade de um adulto, e honrar a memória daquele que me ensinou os princípios morais que carrego até hoje, sobre sacrifícios por quem se ama, em especial, a família, e saber aceitar que a vida é finita, com dignidade, e o peso da responsabilidade que isso acarreta.

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A figura de Claudius se assemelhava muito a meu pai: forte, decidido, totalmente dedicado à família, e dono de uma nobreza ímpar, tanto que é celebrado por amigos até hoje, 30 anos após sua morte.

Eu revi os 130 capítulos de Thundercats recentemente, e o desenho não envelheceu, pelo contrário. Confirmei, em especial com o episódio 20, que ainda sigo os princípios do código de Thundera – “justiça, verdade honra e lealdade” – ensinados por meu pai através de exemplos, antes mesmo de Lion-o ter falado isso a primeira vez. E só contei isso para explicar porque Thundercats é tão importante para mim, e não He-Man, Transformers, ou Super Sentai, embora todos tenham seu lugar na minha memoria afetiva, e compartilhem de alguns princípios éticos básicos.

Eis que estamos numa era onde tais princípios não são mais valorizados e, por consequência, não são abordados em obras ficcionais como algo interessante, ou pelo como deveriam ser, chegamos ao ponto em que tais valores, em detrimento de uma suposta modernidade cínica, são considerados por formadores de opinião da minha geração, como algo antiquado, desnecessário.

O Superman de Christopher Reeve: valores morais inabaláveis.
O Superman de Christopher Reeve: valores morais inabaláveis.

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Este tipo de pensamento é disseminado até por quem viveu outras épocas e tem condição de estabelecer comparativos positivos, mas abdica disso em prol de ficar bem com a opinião pública atual, em busca da polêmica pelo contraditório fácil, em busca de aceitação, social ou comercial, afinal, quem escreve profissionalmente busca aprovação coletiva, e tem uma parcela de pretensos jornalistas/colunistas  que não costuma lá ter muita sinceridade nos seus textos. Não é uma crítica, e sim uma constatação dos tempos atuais, uma tendência que torna difícil achar um texto honesto em detrimento do click bait, vejo queixas de jornalistas sérios sobre esta tendência.

Tal cenário dissemina que o Superman de Chris Reeve é antiquado e não é mais o Superman possível, embora eu acredite que ainda seja o Superman necessário, e que o de Henry Cavill flertou em 2013, mas mudou de pegada para se adequar às demandas do público atual em Batman V. Superman: A Origem da Justiça (2016), e novamente voltou a flertar com o do amor fraterno em Liga da Justiça (2017), mas ainda de maneira indecisa.

Por outro lado, os formadores de opinião não enxergam as virtudes de Lion-o em  heróis como Jon Snow, o protagonista da melhor série dos últimos 10 anos, Game of Thrones, ironizando sua ingenuidade ao preservar valores como amizade, ética, amor romântico e dedicação à família, preferindo tergiversar sobre as polêmicas sexistas da série em seus outros protagonistas, ou seja, quando não acham adequadas as virtudes de um herói, preferem ignorá-las.

Dito isso, devidamente contextualizado o momento em que vivemos na cultura pop, e minhas predileções devidamente justificadas, podemos agora ir ao ponto que deu origem a este texto.

Como alguns sabem, a Cartoon Network apresentou um teaser de Thundercats Roar! A animação estreia em 2019 e é produzida pela Warner Bros. Animation. Os novos personagens têm traços bem diferentes e bem mais infantis do que os do desenho original. Segue a nova tendência usada em Teen Titans Go,! uma mudança bem radical já que a proposta é totalmente cômica e nonsense. Poderíamos tranquilamente classificar como uma paródia, mas os fãs estão chamando de “reboot” para o público da primeira infância, e isso causou uma cisão entre os fãs de longa data da franquia Thundercats, mas antes é preciso esclarecer algumas coisas.

Existe diferença entre paródia e reboot. O primeiro é a recriação de uma obra já existente, a partir de um ponto de vista predominantemente cômico. A paródia serve também como uma homenagem, voltada a satirizar o cânone de personagens conhecidos e aceitos pelo grande público, para agradar os fãs de longa data, como por exemplo o clássico Flinstones (1960-1966) e a paródia Flinstones Kids (1986-1988), onde o clássico ( que nunca parou de ser exibido nos 80 ) pode conviver com a paródia, onde a essência dos personagens estava bem preservada em suas versões kids e, apesar de ser uma forma de atrair novos fãs, quem vocês acham que acompanhou a animação até o seu final? Os fãs que cresceram assistindo as reprises do clássico.

Já o reboot é uma atualização para apresentar os personagens para quem os desconhece totalmente ou ache muito complicado pegar o bonde andando, porém, não é usual uma mudança de tom, de drama para comédia, no máximo uma mudança de aspecto visual. Nos quadrinhos de super-heróis, um reboot serve para atrair novas gerações de fãs. A partir deles, dá-se uma aliviada na cronologia histórica dos eventos para que os novos leitores possam entender as novas histórias sem precisar ter tido nenhum contato com as fases anteriores de cada editora. É um recurso arriscado, pois nos quadrinhos de super-heróis, quem tem sustentado o mercado são os leitores antigos, fiéis, e um pouco resistentes a reboots, principalmente os que têm pouco planejamento e atingem todos os personagens, como é o caso dos Novos 52 da DC Comics, que já foi rejeitado após alguns poucos anos de existência. Cabe lembrar que existe o reboot como o universo Ultimate da Marvel, com as versões clássica e reboot convivendo mutuamente, até o ponto em que a revisão também se torna clássica, e é preciso optar qual é a linha narrativa mais importante. Ou seja, reboots nos quadrinhos são complicados.

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Eis que após extensa explicação, voltemos aos Thundercats. Não creio que a versão 2019 estrague a infância da minha geração, mas a decisão é o no mínimo temerosa, pois em sua rápida fala, o criador de Thundercats Roar parece ainda ter se decidido se é um reboot ou uma paródia, ou misto.

Me aparenta apenas uma paródia sem o contraponto do clássico nas mentes dos mais jovens. É para novos fãs e ponto, uma quebra total com o passado, mas ainda assim é paródia, e não simplesmente um reboot, e este nós tivemos em 2011, que apesar de bom, acabou prematuramente e não despertou o interesse ao clássico para os novos fãs.

Aliás, entre os fãs antigos temos vários entusiastas desta versão, então creio que não exista rejeição para qualquer inovação apresentada. Cada caso é um caso. E verdades tem que ser ditas sobre esta nova proposta de animação, mesmo que os defensores acusem os críticos de estarem tomados pela paixão infantil, e como foi explicado, não é o caso, afinal, muitos fãs que cresceram com Superamigos (1973-1985) jamais abraçariam, já adultos, a versão Liga da Justiça sem Limites (2001-2006) como a melhor versão dos personagens.

Outro aspecto curioso: a proposta da nova série Thundercats parece mais em função do produtor Victor Courtright, de deixá-lo brincar com algo antigo e disponível, mesmo que o mesmo não tenha afinidade ou uma visão adequada dos personagens, do que fazer algo novo em função da própria franquia. Se o produtor escolhesse outra franquia do baú da Warner, o resultado poderia ser o mesmo.

Thundercats Roar é comercialmente viável? Sim, muito. Mas não imaginem que isso vai revitalizar a franquia – tenho ressalvas quanto a isso. Diferente de outras franquias de sucesso, tudo relacionado a Thundercats é lento e temerário, não vejo projetos em paralelo para trazer o clássico de volta, ainda mais se a comédia estigmatizar a franquia.

Burt Ward e Adam West como Robin e Batman na série de 1966.
Burt Ward e Adam West como Robin e Batman na série de 1966.

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Como exemplo podemos citar a série do Batman de 66: era uma paródia, não era o Batman dos quadrinhos originais, que foi sucesso de vendas nos anos 30 e 40. Pode até ser parecido com o Batman dos quadrinhos a partir do Comics Code nos anos 50, mas era por razões de neurose alheia e não do que os fãs gostariam de ler. Enfim, a tônica da paródia virou a referência de uma geração, e admitam, não tem nada a ver com a proposta original, mas seguiu uma tendência Camp dos anos 60 e divertiu por um tempo, e pronto; Estigmatizou o personagem de tal maneira, que somente em 1989, mais de 20 anos depois, Tïm Burton ousou quebrar o estigma e trazer o personagem de volta à seriedade. E veio Joel Schumacher e aproximou de novo do tom de comédia/paródia em 1995 e 1997, e enterrou a franquia mais uma vez. Nós, fãs, tivemos que esperar mais 11 anos para Batman Begins de Christopher Nolan trazer o Cavaleiro das Trevas ao eixo novamente, e isso não foi pouco, e estamos falando de uma franquia que se manteve fiel aos quadrinhos e às animações. Percebem o problema em termos apenas projetos de paródia de personagens icônicos? O estigma, a falta de possibilidades de se levar a sério a franquia

Ao passo que vi como Cobra Kai, a série continuação direta da trilogia de filmes Karatê Kid, mostrou como se faz uma continuação, respeitando os fãs e atraindo novo público, quebrando o recorde das séries em formato streaming. A nostalgia foi a isca, mas a série não se escorou somente nisso, houve roteiro e sensibilidade para apresentar novas situações e dinâmicas, com os personagens clássicos e apresentando novos muito interessantes. Se conseguiram fazer isso com atores, que dá muito mais trabalho que uma animação, não podemos sonhar com algo decente para Thundercats?

Para finalizar, conceitos como nostalgia, respeito a essência dos personagens, resgatar boas histórias e protagonistas, atualizar apenas algumas linguagens sem sacrificar uma boa história, e agradar jovens e adultos não é o que está dando mais certo na cultura pop nos últimos 10 anos? Então a nostalgia não é mais comercial? Então o que estão fazendo as continuações de Star Wars, Karatê Kid, os remakes de Star Trek, Planeta dos Macacos (que na verdade se tornou uma prequel), a adaptação das histórias em quadrinhos dos heróis Marvel e do Batman do Nolan?

Engraçado que alguns formadores de opinião estão precisando da espada justiceira para enxergar além do alcance e ver o óbvio.

Não podemos simplesmente achar ruim a proposta de paródia, neste momento em que o clássico ainda não teve a sua grande chance de mostrar a que veio para as novas gerações, tal qual Star Wars está fazendo nos cinemas. É disso que se trata: o clássico e a essência vem em primeiro lugar. Não vamos inverter a ordem natural das coisas, e só dar chance à paródia.

Sonhar não custa, e acho muito chato não poder manifestar um pensamento crítico sobre os rumos de uma franquia que cultuamos, tendo que aturar reducionismos de discussões por formadores de opinião que adoram polemizar.

Justiça, verdade, honra e lealdade para todos. Hooooooooooooooo!


 

Santista de 1976, formado em Publicidade e em Direito, desenhista por hobby, escrevente judiciário por ocupação, e colecionador de quadrinhos compulsivo com mais de 20 mil quadrinhos no acervo.
Apaixonado por HQs desde os 10 anos, sempre se interessou pelos bastidores da produção da nona arte no Brasil e no mundo. Já brincou de fundar site, fórum de discussão e até editora de quadrinhos, mas atualmente se dedica exclusivamente a Santos Comic Expo, que é um evento que reúne artistas de quadrinhos e fãs de cultura pop em geral na Baixada Santista.

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