Crítica | Deadpool 2 (2018)

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Enquanto escrevo a crítica, a classificação indicativa de Deadpool 2 no Brasil “baixou” de 18 para 16 anos. Nas próximas horas podem acontecer mudanças. Os defensores da moral e dos bons costumes estão vencendo.

Breve digressão: diariamente, em horário nobre, há violência, sexo, crime, etc, etc. Vivemos no país que aceita, nas novelas, reality shows, telejornais, pessoas matando, manipulando, prejudicando deliberadamente o próximo, mas surta quando duas mulheres ou dois homens se beijam nas telinhas ou telonas.

Deadpool 2 não tem, por exemplo, nada que De Volta ao Jogo (2014), estrelado por Keanu Reeves como John Wick, e Atômica (2017), com Charlize Theron,  os longas anteriores do diretor David Leitch, não tivessem: violência gráfica ininterrupta e sexo. Ambos, no entanto, tinham recebido classificação 16 anos. Vai ver são sinais dos tempos, dos retrocessos, da hipocrisia quase geral.

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Dois anos atrás, Deadpool chegava aos cinemas sem grandes pretensões. Orçado em US$ 50 milhões, pouco para os padrões dos filmes baseados em quadrinhos de super-heróis, arrebatou mais de US$ 700 milhões mundialmente.

Foi a vitória de Ryan Reynolds. Ele, tal qual Christopher Reeve e Superman, Hugh Jackman e Wolverine, Robert Downey Jr. e Homem de Ferro, tornou-se o próprio personagem. Foi o maior lucro da Fox, que detém os direitos dos personagens mutantes da editora Marvel Comics (até a recente compra do estúdio pela Disney).

O mercenário tagarela, como é conhecido pelos fãs, nunca foi do primeiro time nos gibis. Mas ganhou novos fãs. Virou pop. A continuação era bastante aguardada e entrega tudo o que o anterior possuía, em doses muito mais cavalares.

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Após uma tragédia pessoal, Deadpool tenta se matar, entra em depressão, mas se redescobre ao identificar-se com um garoto de 14 anos, vítima de tortura numa clínica para mutantes. Sem encaixar-se nos X-Men, decide formar sua própria força-tarefa para libertar o adolescente. Pelo caminho, precisará enfrentar Cable (Josh Brolin), que vem do futuro para mudar o presente e salvar a esposa e a filha. Revelar mais estraga algumas surpresas nem tão surpreendentes assim para os leitores das HQs.

Na verdade, não há uma trama verdadeiramente dita. Tudo basicamente é desculpa para o protagonista destilar ironia, veneno e absurdos. O exercício de metalinguagem é mantido e expandido. Não há pausa. Lembram na escola da turma do fundão e dos mais quietinhos. A primeira atormentava os últimos. Deadpool é aquele colega que não se enquadrava em nenhuma panelinha e atormentava principalmente os bullers. Existe coração em meio aos caos.

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Do elenco destacam-se, além de Reynolds, Zazie Beetz na pele de Domino, cujo superpoder é ter muita sorte, e Josh Brolin, que tem mais oportunidades ao encarnar Cable em relação Thanos de CGI de Vingadores: Guerra Infinita. A brasileira Morena Baccarin volta a viver a namorada Vanessa.

As referências passam pela Marvel, a DC, canções bregas, musicais, Exterminador do Futuro, histórias em quadrinhos e muito mais. Surgem participações especiais. Algumas são bem rápidas. E a cena pós-créditos é a melhor dos cinema baseado em heróis.

Obviamente não dá para levar uma criança de 8, 10, 12 anos. Mas proibir o filme para menores de 18 soa exagero. Até por que, vamos combinar, outro dia o primeiro longa passou em TV aberta. Por mais que surja um nu aqui ou ali, os palavrões corram soltos e exista uma cena de fazer jus à Scarface (aquele com Al Pacino), Deadpool 2 é, como diz o personagem, um “filme família”. Não a família perfeita ou pré-determinada. Mas a união de pessoas que se curtem, amam, completam.

Deadpool 2
Deadpool 2
EUA. 2018.
Direção: David Leitch.
Com Ryan Reynolds, Morena Baccarin, Zazie Beetz, Josh Brolin, T.J. Miller, Brianna Hildebrand, Karan Soni, Julian Dennison.
119 minutos.


 

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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