Crítica | Cobra Kai (2018)

Johnny e Daniel se reencontram.
Johnny e Daniel se reencontram.

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Que Stranger Things, que nada. A grande homenagem aos anos 80 é Cobra Kai, série do YouTube Red, plataforma de conteúdo original do YouTube, cujos dez episódios com quase meia hora de duração, em média, estão disponibilizados desde quarta-feira, 2 de maio. Os dois primeiros foram liberados gratuitamente. Os demais custam, cada um, R$ 3,90.

Não aguentei e comprei todos. Virei a madrugada, fiz maratona. Não me arrependi. Para muitos, aliás, o lançamento mais aguardado de 2019 não era Vingadores: Guerra Infinita – até por que vimos os heróis recentemente várias vezes e os veremos novamente num futuro próximo. A ansiedade existia por esse projeto que dá continuidade aos acontecimentos da franquia original Karatê Kid, especialmente o filme de 1984 intitulado, no Brasil, A Hora da Verdade, e a cena inicial do seguinte, A Hora da Verdade Continua (1986).

Há quem questione os revivals do tipo. A exemplo de Creed, sequência da trajetória de Rocky Balboa (Sylvester Stallone), agora treinador de Adonis Creed (Michael B. Jordan). No fim do ano chega aos cinemas Creed 2. Justificam esses lançamentos como fruto da falta de criatividade dos roteiristas. Não sei se é o caso. Desde sempre autores criam personagens. Entra ano, sai ano. Poucos, no entanto, sobrevivem e perduram.

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Para um Mickey Mouse quantos outros, da mesma época, ficaram para trás? Recentemente vimos novas figuras conquistarem o gosto popular. Por aqui, Capitão Nascimento, fruto da literatura mas popularizado pelos filmes Tropa de Elite. Entre outros. Certas histórias e personagens capturam a essência de sua época. Karatê Kid é assim.

Conforme escrevi, neste espaço, duas semanas atrás, durante os anos 80 eu e muitos colegas nos espelhávamos em Daniel Larusso (Ralph Macchio). “Todos queriam ser o sujeito desacreditado que era provocado pelos valentões, dava uma surra neles e ficava com a garota dos sonhos no final”. Levamos Daniel para a vida e gostaríamos de saber o que teria acontecido a ele após O Desafio Final (1986).

Cobra Kai nos dá a resposta e também revela a trajetória de Johnny Lawrence (William Zabka), o algoz de Daniel no primeiro longa-metragem. Passaram-se 34 anos. O destino não foi muito bom para Johnny: o cara bebe pacas, trabalha consertando coisas e logo é demitido. Mal tem contato com o filho. Prefere viver isolado. Até ver luz para rendição ao ajudar um garoto, Miguel (Xolo Maridueña), vítima de bullers.

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Johnny nunca foi propriamente um vilão: há, inclusive, “teóricos” que defendem essa ideia, até na série How I Met Your Mother. Era vítima do então sensei John Kreeze (Martin Kove). Descobrimos, aqui, mais sobre seu passado. No fim das contas, veremos que ele e Daniel, agora marido, pai de família e empresário bem sucedido, não são tão diferentes assim.

Os roteiristas Josh Heald (A Ressaca 2), Jon Hurwitz e Hayden Schlossberg (ambos de American Pie: o Reencontro) parecem ser grandes fãs da saga Karatê Kid e histórias sobre e para adolescentes: deu para lembrar de A Vingança dos Nerds (1984), American Pie (1999), Meninas Malvadas (2004). Há carinho na maneira como reapresentam velhos conhecidos do público.

Quem estava receoso de que veríamos humor besteirol, pode ficar tranquilo. Johnny e Daniel ressurgem até mais complexos, repletos de nuances. Ralph Macchio e William Zabka, de carreiras que nunca deslancharam igual às de colegas contemporâneos, revelam-se grandes atores. Tanto para os momentos de humor como para os dramáticos. Os novos atores também são escolhas certeiras. Will Smith, que produziu o remake de 2010 estrelado pelo próprio filho, também assina a produção.

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Não faltam referências aos três filmes originais e também à Rocky III – ambas as franquias nasceram do diretor John G. Avildsen (1935-2017) e tinham trilhas compostas por Bill Conti. O trabalho do compositor em Karatê Kid volta em momentos oportunos. Revisitamos lugares, personagens coadjuvantes. Não faltam flashbacks. Minha empolgação é tanta que a vontade de contar spoilers é gigante. O que dá para escrever: Cobra kai é um produto feito com amor para nós, crianças dos anos 80. Mas dialoga com a geração atual de adolescentes.

Frases célebres são recolocadas, até em títulos de episódios. No entanto, os caminhos da trama surpreendem. Não é como se o filme original fosse atualizado, recontado, tal qual ocorreu em Superman, o Retorno (2006) ou Star Wars: O Despertar da Força (2015).

Há histórias que precisam ser contadas e pegam pela mão pais e filhos. O seriado é sobre isso: paternidade, família, amizade, diferenças geracionais, preconceito e, essencialmente, sobre acharmos equilíbrio na vida, a principal lição de Mr. Miyagi (Pat Morita), homenageado de maneira sensível no quinto episódio. Ah, fica a deixa para uma segunda temporada.

Cobra Kai
Cobra Kai.
EUA. 2018.
Com Ralph Macchio, William Zabka, Xolo Maridueña, Tanner Buchanan, Courtney Henggeler, Mary Mouser, Nichole Brown, Connor Murdock, Griffin Santopietro.
10 episódios.
30 minutos, em média. 


 

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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