50 anos de 2001: Uma Odisseia no Espaço

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As histórias por trás da história são várias. Chegam a ser tão fantásticas quanto o objeto resultante. Tanto que renderam o livro biográfico 2001: Uma Odisseia no Espaço – Stanley Kubrick, Arthur C. Clarke e a Criação de Uma Obra-Prima, de Michael Benson, publicado no Brasil pela editora Todavia no Brasil na segunda-feira, 2 de abril. Na mesma data, o longa-metragem completou 50 anos da première em Washington D.C. – por aqui o lançamento ocorreria 27 dias depois.

Em 1964, Kubrick e Clarke reuniram-se para, nas palavras do cineasta, “fazer o primeiro filme de ficção científica que não seja considerado lixo”. Até então, ficções científicas eram passatempos – exceto um ou outro lançamento, especialmente o expressionista Metrópolis (1927), do austríaco Fritz Lang. Se Solaris (1972), Blade Runner (1982), Matrix (1999) e A Chegada (2016), para citar poucos exemplos, são considerados arte, muito dessa percepção é graças à 2001.

À época, críticos torceram o nariz. Mas “o tempo é o senhor da razão”, diz o ditado popular. No documentário A Life in Pictures (2001), narrado por Tom Cruise, Woody Allen ressalta: Kubrick estava muito à frente do tempo. Vários de seus filmes foram inicialmente recebidos de maneira negativa. Público e crítica não estavam preparados para tamanho grau de sofisticação, de inteligência, de capacidade técnica. Durante os anos, revistos, esses filmes ganhavam status de obras primas.

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Sempre fiquei encantado com o poder das imagens criadas pelo diretor. Fossem o poder visual, arrebatador, ou o choque. Não o choque pelo choque. Mas a intensidade, a capacidade de nos fazer pensar, refletir, questionar a própria existência. Entre os méritos da produção, reside o fato de, apesar de baseada em livro, as imagens ganham alma própria. Assim é o grande cinema. Todos os seus trabalhos possuem desses momentos antológicos.

Em 2001 eles surgem incessantemente. Sejam os 25 minutos da abertura e os outros 23 do final, sem diálogos, hipnotizantes. Sejam os homens-macacos que se confrontam. Quando um deles descobre como fazer do osso, uma arma. E, desse osso, atirado ao alto, somos presenteados com o salto temporal mais memorável da história do cinema, nos levando à nave futurística que orbita a Terra. Milhões de anos reduzidos a segundos num retrato genial da evolução humana. O monólito presente em diferentes estágios da trajetória terrestre e partes do universo continua gerando perguntas, debates, sobre seu significado. Seria a presença de Deus, de algum criador?  Seria o olhar alienígena? Ou obra de seres humanos do futuro?

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E o que escrever da utilização da valsa Danúbio Azul e de Assim Falou Zaratustra, ambas composições de Johann Strauss e encaixadas perfeitamente às cenas? Já o computador HAL 900 tornou-se o exemplo perfeito de representação da inteligência artificial no audiovisual, sendo imitado à exaustão, até em Batman – A Série Animada, durante os episódios Coração de Aço, partes 1 e 2.

Reduzir 2001: Uma Odisseia no Espaço à mera sinopse é diminuir os significados da narrativa. Kubrick sempre chamou a atenção pela inventividade, pelo o que alcançava atrás das câmeras. Iniciou a carreira fotografando. Primava pela perfeição. Técnica eximia não significa propriamente arte. Grandes artistas nem sempre são tecnicamente impecáveis. Profissionais competentes nem sempre são artistas. Kubrick é um grande artista e faz, em 2001, uso de seu domínio técnico para entregar uma obra atemporal, que não envelheceu, continua encantando, incomodando. É o tipo de filme que não exige uma compreensão exata do espectador. O faz sim, sentir, guardar cada plano, cada sequência, cada enquadramento na mente, por muito tempo. E será assim por mais 50 anos e além…

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André Azenha
André Azenha

Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.