Crítica | Jogador N°1 (Ready Player One, 2018)

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Steven Spielberg, que tanto criticou os filmes de super-heróis recentes, dá uma piscadela e meio que abraça a causa em seu melhor trabalho nos últimos anos: Jogador N°1 é baseado no livro best-seller Ready Player One, de Ernest Cline.

Pioneiro dos blockbusters ao lado de George Lucas (Star Wars), entregou ao mundo Tubarão,  de Contatos Imediatos de 3º Grau, E.T., Indiana Jones, além de ter produzido franquias como Gremlins e De Volta Para o Futuro, foi geek muito antes do termo ganhar fama internacional. Junto ao veterano colega, talvez seja o diretor mais nerd de Hollywood. Geeks e nerds, apesar das diferenças (um Google ajuda), são lados da mesma moeda, compartilham o mesmo universo.

No longa, entrega ao espectador sua especialidade: uma fábula fantástica repleta de energia, ação, humor, doses de drama, romance. A diferença dentro de sua carreira? Tudo isso permeado por doses cavalares de referências pop: dos videogames, o cerne do roteiro, a super-heróis, quadrinhos, clássicos do cinema.

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2044. Wade Watts (Tye Sheridan) prefere a realidade virtual do jogo OASIS ao mundo real. Age igual a maior parte da humanidade, envolta em pobreza enquanto poucos vivem luxuosamente. Quando o excêntrico James Halliday (Mark Rylance) morre, os jogadores devem descobrir a chave de um quebra-cabeça para conquistar uma fortuna inestimável. O protagonista parte na jornada, mas precisará lidar com o interesse pelo avatar Samantha (Olivia Cooke) no mundo virtual, e enfrentar, na realidade e online, o inescrupuloso Sorrento (Ben Mendelsohn), da multinacional que pretende ganhar a competição e dominar ainda mais o planeta.

Não faltam clichês em Jogador N°1. São clichês bem vindos e dentro do contexto. Há a corporação dominante no futuro distópico vista em tantos filmes. Há a realidade virtual preferida pelas pessoas à realidade, tal qual A Origem (2010, de Christopher Nolan. E, claro, pessoas de verdade inseridas num jogo já foram vistas desde Tron a Jumanji. Se Tron era cult demais e Jumanji, especialmente o último, sucesso mundial, mirava a família inteira e crianças, Jogador N°1 acertará em cheio os corações dos marmanjos crescidos nos anos 80, e a atual molecada fissurada em produtos geeks.

O início traz informações desferidas quase à velocidade da luz e é preciso muita atenção para entender tudo. Quando for lançado em Blu-ray, DVD, VOD em streaming, a dica será pausar o player, voltar, rever, e compreender.

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Depois de alguns minutos, no entanto, a trama flui e vai num crescendo, destilando personagens e situações marcantes em nossas memórias. De Street Fighter a Overwatch. De King Kong a Godzilla. Dos tokusatsus japoneses ao Megazord de Power Rangers. De Speed Racer a Akira. Da série Batman dos anos 60, passando por Superman e chegando aos Vingadores. Os cinéfilos mais atentos perceberão alusão ao clássico A Felicidade Não Se Compra (1946), de Frank Capra. Mas o melhor momento mesmo é quando relembramos O Iluminado (1980), do maior de todos os cineastas, Stanley Kubrick. Tudo muito divertido. Algumas referências são mais sutis. Outras, escancaradas.

O elenco reforça a ode ao universo geek: Tye Sheridan é o atual Ciclope da franquia X-Men. Ben Mendelsohn fez os vilões de Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge e Rogue One: Uma História Star Wars. Olivia Cooke atuou na série Bates Motel (do universo de Psicose). Simon Pegg é da saga Star Trek. Mark Rylance está virando tradição nos filmes do diretor: atuou em Pontes dos Espiões (2015), pelo qual recebeu o Oscar de ator coadjuvante, e O Bom Gigante Amigo (2016).

Enfim, só não vai gostar quem vive completamente alheio à cultura pop. Mas até para essas pessoas, o longa traz importante mensagem e dialoga com o mundo atual: a necessidade em estarmos atentos aos monopólios, às ambições sem limites por parte de quem detém o poder.

Jogador N°1
Ready Player One.
EUA. 2018.
Direção: Steven Spielberg.
Com Tye Sheridan, Olivia Cooke, Ben Mendelsohn, Mark Rylance, Simon Pegg, Lena Waithe, T.J. Miller, Philip Zao, Win Morisaki.
140 minutos. 


 

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André Azenha
André Azenha

Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.