O cinema reflete o mundo: e qual mundo desejamos?

Malala Yousafzai em entrevista a David Letterman, no Netflix.

Malala Yousafzai em entrevista a David Letterman, no Netflix.

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Já escrevi aqui e repito o pensamento do cineasta francês Éric Rohmer, da Nouvelle Vague: os filmes são reflexos de seu tempo. Sejam dramas de época, cinebiografias, ficções científicas. O olhar do diretor, dos realizadores, sempre foi, é e será influenciado pelo momento do planeta, da sociedade. Exemplo recente: The Post, apesar da história situada décadas atrás, é a resposta de Steven Spielberg à truculência do presidente Donald Trump, a maneira como o político lida com a imprensa, com imigrantes.

Várias vezes, ou muitas, as obras audiovisuais chegam a antecipar os acontecimentos do planeta. Em 21 de outubro de 2016, entrava na Netflix o primeiro episódio da terceira temporada da série Black Mirror, chamado Nosedive. Bryce Dallas Howard é a protagonista, alguns anos à frente, onde as pessoas avaliam umas às outras, desde o bom dia até a postura no trabalho, etc. Neste universo, gente com média baixa vive à margem da sociedade. Nos últimos dias, circulou nas redes sociais a notícia: a partir de maio, chineses com pontuação baixa não poderão viajar de trem ou avião. Chocante, não? Aliás, uma das grandes qualidades dos roteiristas do seriado é cutucar algumas convenções da globalização, perceber certas tendências e nos fazer enxergar os absurdos disso tudo.

Em 9 de março, também no serviço de streaming, o público teve acesso ao terceiro programa O Próximo Convidado Dispensa Apresentação com David Letterman. Trata-se da vencedora do Nobel, Malala Yousafzai. Defensora da educação para as mulheres no Paquistão, aos 15 anos foi atingida com um tiro na cabeça, numa tentativa de assassinato, por um membro do Talibã. Sobreviveu. E segue defendendo os direitos humanos. Outra breve digressão: que grande acerto do Netflix! O projeto reuniu, em três meses, o veterano e carismático apresentador com ninguém menos que Obama e George Clooney. E as provocações à Trump não param. Cada entrevista vem carregada de informação, afeto, diversão e pensamento.

Bryce Dallas Howard em Nosedive, episódio de Black Mirror.

Bryce Dallas Howard em Nosedive, episódio de Black Mirror.

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Este último tema refletiu da pior maneira possível. Em 14 de março a vereadora carioca Marielle Franco foi assassinada ao voltar de um encontro de mulheres negras. Tal qual Malala, visava um mundo melhor, mais justo, que respeite as diferenças. Ambas, idealistas. Marielle não era da laia de políticos corruptos, da velha política, cujos patrimônios aumentam desenfreadamente, e nem cujos veículos aéreos carregam toneladas de drogas. Representava 50 mil seres humanos que sofrem o preconceito diariamente e sentiram-se órfãos. Malala está viva. Mas não pode voltar à terra natal, pois corre o risco de ter o mesmo fim da brasileira. A repercussão do crime despertou reações radicais na internet. Aproveitadores de plantão fizeram campanha para as eleições. Outros deflagram o ódio. São posturas tão absurdas quanto aquelas vistas em Black Mirror. O mais sensato, nessas horas, é focar na visão, opinião e solidariedade de gente séria, honesta, que acrescenta, exemplo de Viola Davis, que postou em seu Instagram uma homenagem à brasileira. A atriz ganhadora do Oscar e a cantora pop Katy Perry enxergaram o que muitos brasileiros não conseguiram.

O Oscar 2018, Hollywood, o Netflix, têm batido na tecla da representatividade, do combate ao preconceito, do respeito às diferenças. Grande parte dos produtores, dos cineastas, tomou posição. Daí tantas obras críticas, reflexivas. Algumas até otimistas, que tentam vislumbrar um futuro de luz quando, atualmente, só vemos trevas. Me perguntaram por que só tenho escrito sobre mulheres no cinema, na TV. O questionamento veio carregado de certa ironia. A resposta parece óbvia. Mas nem todo mundo enxerga além do próprio nariz. Malala, Marielle e tantas outras são exemplos de mulheres que enfrentam tudo. Por isso é importante noticiar, pensar, enxergar, escrever sobre produções como The Handmaid’s Tale, La Casa de Papel, Jessica Jones, a entrevista de Malala e, ainda, Maria Madalena e Tomb Raider: A Origem, dois filmes em cartaz protagonizados por mulheres igualmente fortes.

Elisabeth Moss e Úrsula Corberó, as protagonistas respectivamente de The Handmaid's Tale e La Casa de Papel. Ambas vestem vermelho e são oprimidas de diferentes formas.

Elisabeth Moss e Úrsula Corberó, as protagonistas respectivamente de The Handmaid’s Tale e La Casa de Papel. Ambas vestem vermelho e são oprimidas de diferentes formas.


 

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André Azenha
André Azenha

Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.