Entrevista | Cinema nacional independente: diretor fala sobre a produção do longa Os Caubóis do Apocalipse

Diego da Costa.
Diego da Costa.

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Produzir cinema do zero, sem orçamento, fora dos editais e leis de incentivo, no Brasil, é tarefa ingrata. Quem alcança o sonho de colocar na praça um longa-metragem pode ser considerado herói. O paulistano Diego da Costa, 35 anos, faz parte deste pequeno grupo de realizadores. Tem no currículo o documentário de longa-metragem A Plebe é Rude (2016), sobre a famosa banda de rock brasiliense e co-dirigido com o amigo de infância, Hiro Ishikawa. Para 2018, prepara o lançamento da ficção Os Caubóis do Apocalipse.

O filme é caso raro na filmografia brasileira: mira os adolescentes. Poucas produções abordam essa fase da vida. Entre elas, estão As Melhores Coisas do Mundo (2010), de Laís Bodanzky e o pop Meus 15 Anos (2017), com Larissa Manoela. A obra de Diego, no entanto, volta-se para o interior do país e chega carregada de referências: de John Hughes (Clube dos Cinco, Curtindo a Vida Adoidado) a Scott Pilgrin Contra o Mundo e os musicais urbanos do irlandês John Carney (Apenas uma Vez, Mesmo se Nada Der Certo, Sing Street). Detalhe: as canções que permeiam a trilha sonora são originais.

Acompanhamos a jornada de Tom, adolescente passando pelos clássicos dilemas dessa fase e que sonha fazer carreira no mundo da música. Sem perspectiva de cursar faculdade e movido pelo desejo de sair da pequena cidade, o protagonista decide retomar sua banda de rock da infância e que dá título à trama.  Inspirado por Chicão, o caseiro do sítio de sua família, Tom acredita que a ideia de produzir um videoclipe com seus melhores amigos, Nanda e Dedão, será o impulso para a carreira do antigo grupo. O único problema que pode atrapalhar é o fato de que Nanda e Dedão estão brigados com ele por conta de velha desavença. Percebendo que não será nada fácil convencer os amigos a participar do projeto, o fim de semana inicialmente tranquilo trará grandes surpresas.

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Exibido e premiado em alguns festivais, Os Caubóis do Apocalipse encontrou todas as dificuldades que produções indies precisam superar para chegar ao público. Principalmente a distribuição. Desde 15 de março está em cartaz no Cine Cavalieri Orlandi, um belo cinema de rua da cidade de Socorro, onde fica até o próximo dia 21. “Abrimos seis sessões da Kinorama para o dia 4 de abril em São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. A sessão do Espaço Itaú Augusta atingiu a meta mínima de público em menos de um dia, o que é impressionante”, ressalta o diretor. Interessados em colaborar podem acessar: https://kinorama.co/. Para saber mais: https://www.facebook.com/oscauboisdoapocalipse/.

Diego participou do 2º Santos Film Fest – Festival de Filmes de Santos, quando apresentou A Plebe é Rude e conversou com a plateia após a exibição. Na terceira edição do evento ele marcará presença com Os Caubóis do Apocalipse e participará de um debate sobre cinema nacional independente, no fim de agosto.

Abaixo, Diego fala sobre sua trajetória profissional, a produção do filme e próximos projetos.

Conte sua história, como enveredou-se pelo cinema até chegar ao Caubóis?
Acho que os caubóis me conduziram ao cinema e o cinema aos caubóis. Quando adolescente, no interior de São Paulo, comecei a tocar guitarra e a formar bandas de rock. E isso contribuiu para a minha formação artística e a de meus amigos, ainda que de forma limitada. Mas naquela época, eu não sabia o que queria fazer da vida. Eu queria que as coisas ficassem como estavam, que os amigos continuassem se encontrando para tocar e se divertir. Ao mesmo tempo que eu tinha um enorme desejo de sair de minha cidade e conhecer o mundo, eu me auto sabotava e possuía uma resistência enorme em sair de lá. E quando finalmente fui à faculdade, estimulado por Hiro, baterista da minha banda naquela época e meu amigo até hoje, descobrimos que não estávamos fazendo o que queríamos. Ele havia entrado em Filosofia e eu em Letras. Engraçado que, mesmo tendo a paixão e dedicação à música, nenhum de nós seguiu o caminho de estudos acadêmicos nesse sentido. Mas quando descobrimos que estávamos no curso errado, decidimos andar pelo Campus da cidade universitária e descobrir se havia algo que realmente queríamos fazer. Foi quando descobrimos o audiovisual. Desde então, me dediquei incessantemente a estudar e praticar para me tornar um diretor de filmes. Hiro também. E uma grande coincidência é que hoje cada um de nós tem uma banda. A criação musical não deixou de fazer parte de nosso cotidiano.

Como surgiu a ideia para filmar os Caubóis do Apocalipse?
A ideia dos Caubóis surgiu naturalmente desse momento juvenil que eu conheço bem e do qual ainda tenho lembranças. Ivan, o roteirista, nunca teve banda, mas ele entende bem como é ser desajustado na adolescência. Nós que tínhamos banda em Socorro, éramos os desajustados e não ter uma sensação de pertencimento traz muita inquietação. Hoje eu vejo como isso foi bom, pois nossos medos, a vergonha e esse não pertencimento do qual falei, nos fez buscar caminhos para nos expressarmos. Aliado a isso, notamos que não havia uma quantidade considerável de filmes para jovens no Brasil. Hoje mais filmes assim têm surgido, mas falta olhar para o jovem como alguém que pode ser representado na tela. Claro que um filme não pode dar conta da tamanha diversidade que há no Brasil, com todas as suas diferenças sociais, econômicas e políticas, mas existe um recorte em Os Caubóis do Apocalipse, em torno do jovem do interior que dificilmente vemos representado na telona.

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Você codirigiu o filme sobre a Plebe Rude. Quais as diferenças na produção entre um filme?
A Plebe é Rude foi um filme feito com uma equipe de até quatro pessoas. A maioria das diárias de entrevistas foram feitas com duas pessoas. Já o Caubóis, por tratar-se de uma ficção e de possuir certas demandas, tinha em torno de 27 pessoas entre equipe e elenco no set em dias que não tínhamos figuração. O planejamento, as estratégias de realização são completamente diferentes. Fica difícil comparar um processo ao outro. O que posso dizer que havia de semelhante em ambos é a minha inexperiência, que tornou difícil a resolução de certos problemas. E qualquer filme, em qualquer set, em meio a tantas relações e a tantas vontades diferentes, problemas sempre irão acontecer. Porém, só a experiência de fazer, fazer e fazer filmes é que dá ao diretor a manha para encontrar as melhores soluções rapidamente.

Quanto à Plebe Rude, tive dois problemas principais: o primeiro era conseguir lidar com todas as vontades que estavam em jogo e tudo torna-se muito complexo, pois quando há uma data para exibir o filme, ele precisa ficar pronto, ao mesmo tempo você não pode faltar com respeito com ninguém que esteja sendo retratado e a forma como as personagens de um documentário se veem na tela pode ser muito diferente da forma como você vê. Além disso, praticamente todo o material de arquivo de bandas dos anos 80 é de propriedade de emissoras de TV, o que encarece muito um projeto tornando-o quase inviável.

Quanto ao Caubóis, a dificuldade foi conseguir planejar um filme sem orçamento algum e com esse tamanho que queríamos para ele. Foi um planejamento lento e cuidadoso, baseado em muitos estudos de cineastas que se arriscaram a fazer seus primeiros filmes sem orçamento, além da tentativa de entender os diversos movimentos que acontecem atualmente com cineastas que se arriscam para conseguir um espaço e ter a oportunidade de realizar um filme. Aos poucos, com a história e com um bom planejamento, um a um, cada membro da equipe e elenco foi agregando ao projeto e deu no que deu. O filme se pagou – aliás os dois filmes ficaram no zero a zero – mas o Caubóis tem a chance de conseguir algo a mais com a bilheteria do cinema.

Como é fazer filme independente no Brasil, sem leis de incentivo, etc?
O meio audiovisual pode ser cruel quando você não tem um sobrenome “importante”, e todo o processo é tão custoso e com tantas dificuldades envolvidas, que muitos desistem. É claro que, graças às leis de incentivo que cresceram muito no período Lula-Dilma, muitas pessoas passaram a ter o acesso à realização cinematográfica que antes pertencia, com raras exceções, a uma elite muito restrita. E esse período, aliado ao desenvolvimento dos equipamentos digitais e a redução de custos, foi essencial para que novos realizadores começassem a arriscar-se. No entanto, ainda há uma concentração forte de renda que tira a possibilidade de muitos talentos surgirem, o que é uma pena, pois o Brasil é tão amplo e há tantas histórias a serem contadas, que concentrar renda na mão de poucos faz com que vejamos sempre as mesmas histórias. De qualquer forma, em algum momento eu pensei: “Ou arrisco tudo e pelo menos tentei, ou desisto e me frustro”. Decidi arriscar tudo. Aprendi a viver com muito pouco, a firmar os pés no chão e estudar com cuidado como cada passo do processo deveria ser executado e, pouco a pouco, pela insistência, esses projetos têm nascido.  A verdade é que esse processo é muito doloroso e são inúmeras as vezes que dá vontade de desistir de tudo. Afinal, a gente deve e merece ser pago por nosso trabalho, não é? Ao mesmo tempo, não me vejo fazendo outro trabalho. Se as leis de incentivo, apesar de importantes, não são ainda o suficiente para todos, acho importante  encontrar outros meios de produzir.

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Conte como foi o processo de filmagens, a escolha do elenco, locações.
Fizemos uma preparação bem extensa de acordo com o tempo de cada um. Quando decidimos que Socorro seria, de fato, a cidade do filme, passei a frequentá-la constantemente. Fui a reuniões de conselho de turismo e cultura, comecei a conversar com os donos de hotéis sobre possibilidade de hospedagem, com pessoas para possíveis locações e, aos poucos, a relação foi se construindo. Esse filme deve muito à cidade de Socorro e esperamos retribuir com uma boa divulgação, pois sem o comércio local que nos apoiou fortemente com infraestrutura e alimentação, a prefeitura e suas secretarias que nos apoiaram com transporte e todo tipo de infraestrutura local e amigos da cidade, esse filme não seria possível. Além disso, buscamos diversos apoios em locadoras de equipamentos enquanto estudávamos quais as possibilidades de câmera e lente seriam minimamente razoáveis para trazer uma qualidade de cinema profissional que buscamos. Nesse meio tempo eu já conhecia o Brás e o convidei para fazer o papel de Tom. Ele é o Tom, não poderia ser outra pessoa. Conheci Cacá, Dagoberto e Rafa. Rafa e Cacá mostraram que sabiam tocar um pouco de guitarra e bateria, mas eles entraram mesmo pelo nível de atuação exemplar. Nós queríamos um caseiro que tocasse viola caipira, mas que fosse um ator capaz de transformar-se no meio do filme. Dagoberto era esse ator e, por isso, alteramos para sanfona, o que na minha opinião trouxe uma das cenas mais bonitas do filme.

Uma das propostas e que foi cumprida era a de que a própria banda compusesse as músicas, e Brás o fez de forma magistral. Compôs as músicas dos Caubóis que foram produzidas por Rodrigo Monteiro e, dessa forma, tínhamos uma banda.

Nós sabíamos que, para fazer o filme, precisaríamos fazer no período em que a equipe técnica menos trabalhava, pois ninguém poderia perder um trabalho com salário para fazer o filme. Somos todos freelancers. Então apostei todas as fichas para rodar em janeiro, que é o mês em que ninguém quer fazer set para não perder diária por conta das chuvas. Quando a equipe me perguntava se chovia muito em Socorro em janeiro, eu dizia que não, que lá era diferente. E quando chegamos lá, por sorte, quase não choveu nas externas. Então a gente teve um misto de estudo, ousadia e sorte, porque, pra chuva não ter acabado com o filme, foi sorte mesmo.

Eu sabia que a gente teria pouco tempo para rodar o filme e calculei 18 diárias, de acordo com que o pessoal do cinema independente estava fazendo nos Estados Unidos, e me pareceu um bom número. Mas para o esmero que tivemos com questões técnicas, acabou que nossas diárias foram muito pesadas e ao final a equipe estava esgotada. No próximo filme farei diferente.

E a distribuição do filme?
Com o filme pronto, mostrei a diversas distribuidoras e poucas tiveram um real interesse. Mas quando trata-se de lançar em circuito comercial de cinema há diversas complicações e o que é gasto para lançar o filme é muito custoso. Nós acabaríamos pagando mais ainda pelo filme, sem ter retorno para pagar as dívidas, porque, apesar de fazer o filme sem orçamento, sempre há um orçamento e consideramos isso como investimento a médio prazo. Foi quando conhecemos o pessoal da Kinorama, plataforma que conecta público, produtor e exibidor de forma muito simples e nós mesmos decidimos distribuir o filme dessa maneira. Essa é uma forma realmente inovadora e que deveria chegar mais ao conhecimento do grande público e até das distribuidoras, pois, dessa forma, o público pode escolher o que assistir na sala de cinema, as sessões podem encher previamente e assim todos terão a certeza de que a exibição será para um número adequado de pessoas: o produtor lucra, o exibidor lucra e o público assiste o que quiser na tela do cinema.

Além da distribuição em sala, no segundo semestre o filme será exibido no Canal Brasil e no Telecine. Então considero que o filme está cumprindo seu papel. Já ganhou prêmios em festivais, chegou ao cinema e vai para VOD e TV. As dívidas serão pagas e, com a ajuda do público, poderemos até nos estabilizar financeiramente.

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O filme já foi exibido onde? E espera atingir quantas pessoas com ele?
O filme começou a circular pelos festivais internacionais em setembro de 2016, quando foi um dos filmes pré-selecionados para os “Encontros com o Cinema Brasileiro com Sundance” e, em seguida, teve uma exibição no Market Screenings do Festival Internacional de Cine em Guadalajara 2017. Depois disso passou pela Rússia na Seleção Oficial: EFF BRICS e conquistou alguns prêmios nacionais: Melhor Filme: 8° CiviFilmes – 2017; Melhor Direção: 7° FestCine Maracanaú – 2017; Melhor Fotografia: 7° FestCine Maracanaú – 2017; Melhor Atriz: 7° FestCine Maracanaú – 2017. Agora, entrou em mais uma mostra competitiva que vai ocorrer de 26 a 29 de Abril: Seleção Oficial: TPCine – 2018.

Fizemos a pré-estreia de “Caubóis do Apocalipse” no Cine Cavalieri Orlandi, um belo cinema de rua da cidade de Socorro – agora o filme fica em Cartaz em Socorro até 21 de março, e hoje, abrimos seis sessões da Kinorama para o dia 4 de abril em São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. A sessão do Espaço Itaú Augusta atingiu a meta mínima de público em menos de um dia, o que é impressionante.

Tem em vista algum novo projeto?
Estou produzindo e dirigindo dois filmes. Selvagem é meu próximo longa-metragem de ficção, para o qual finalmente consegui um financiamento via edital. Não é muito, mas para quem faz com nada, será possível realizar um excelente filme. Ele tem como universo as ocupações dos Secundaristas de 2015 e será filmado em julho.

E, aos poucos, estou codirigindo um documentário sobre o escritor Luiz Alberto Mendes com meu amigo, Victor Canela. Luiz Alberto Mendes é um dos maiores escritores brasileiros da atualidade e tem uma história de luta e sobrevivência constante. Com uma vida dura, acabou entrando para o crime e foi inúmeras vezes preso, torturado pelos militares com apenas 14 anos de idade e passou a maior parte da vida na cadeia. Porém, no cárcere ele aprende a ler, escrever, faz faculdade e torna-se um grande escritor.

Qual dica você daria para quem quer produzir filme independente no Brasil?
A primeira coisa é: leia muito. Tudo o que for possível. Pois sem uma bagagem intelectual, sem conhecer histórias, sem conhecer visões de mundo, como poderemos criar a nossa sem ser cair em clichês ou sem se tornar enfadonho? A segunda coisa é: veja muitos filmes. Assista aos clássicos. Cineastas renomados de diversos períodos contribuíram para desenvolver o cinema e observando como eles fizeram, nós aprendemos.  Mas se você quer realmente aprender a dirigir um filme, a melhor aula que pode ter para fazer é fazer um filme. Não tem outro jeito. Fazendo e errando, compreendendo os erros e se adaptando é que aprendemos a fazer os filmes. Façam seus primeiros filmes com muito pouco. Planejem para que o orçamento seja pequeno, trabalhe para conseguir um dinheiro e invista nos primeiros filmes. Nossos primeiros filmes não serão muito bons. Porém, serão fundamentais para nosso aprendizado e, do meu ponto de vista, é pior ainda esperar anos para fazer da forma que acreditamos ser perfeita, pois dessa forma, não praticamos. Guarde suas histórias do coração e faça aquelas que são possíveis. Poucos atores, poucas locações. Diversos grandes cineastas fizeram seus primeiros com quase nenhum orçamento: Herzog, Linklater, Robert Rodriguez, Christopher Nolan, só para citar alguns, e é possível encontrar material sobre eles. Observando suas histórias, conhecendo suas ideias, vemos que os caminhos são os mais variados possíveis. Cabe a cada um encontrar o seu. Ah! E mais uma coisa: sejam gentis com sua equipe e seu elenco. Ninguém é gênio.
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André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

One thought on “Entrevista | Cinema nacional independente: diretor fala sobre a produção do longa Os Caubóis do Apocalipse

  1. Muito boa a matéria e bem clara. Foi ótimo conhecer um pouco desse grande diretor

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