The Handmaid’s Tale e La Casa de Papel

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Ano passado a revista francesa Cahiers du Cinéma, fundada por André Bazin, o pai da crítica de cinema mundial, e de onde saíram diversos cineastas da Nouvelle Vague –  Éric Rohmer, Jacques Rivette, Jean-Luc Godard, Claude Chabrol, François Truffaut – elegeu a série Twin Peaks o melhor filme do ano. A mesma ficou em segundo no top 10 cinematográfico da britânica Sight and Sound.

Provocação interessante. Com os novos e variados formatos de exibição, o que seria o cinema atualmente? A experiência de estar dentro da sala escura, imerso na telona? E os longas-metragens disponibilizados diretamente em serviços de streaming? Outrora os seriados televisivos tinham tramas bem divididas episódio a episódio. Alguns mantinham uma linha geral dos acontecimentos. Como ocorre até hoje com Law & Order: Special Victims Unit, por exemplo.

Porém, Netflix e companhia popularizaram as séries de seis, oito, dez, 13, 15 episódios. Muitas vezes disponibilizados de uma vez só. Possibilitando, assim, as “maratonas”. Não seriam filmes de 6, 8, 10, 13, 15 horas? E com a vantagem de desenvolverem mais seus personagens, suas histórias. Deixam o espectador envolvido de maneira mais profunda. O grau de sofisticação de roteiro, produção, estrutura, técnica, evoluiu tanto que muitas vezes nada deixam a desejar em relação aos filmes exibidos nas salas de projeção.

Escrevo isso para dizer que duas séries merecem nossa atenção. Me arrebataram completamente. São inteligentes, cativantes, repletas de personagens interessantes, complexos e nos tiram do lugar comum. Trazem grandes atuações. Refletem o mundo atual. A premiadíssima The Handmaid’s Tale, do serviço de streaming norte-americano Hulu, e a espanhola La Casa de Papel, do Netflix, têm em comum mulheres subjugadas, que precisam posicionar-se em meio a sujeitos machistas, à opressão.

A primeira, baseada no livro homônimo de 1985 e que rendeu o longa A Decadência de uma Espécie (1990) nos leva ao futuro próximo, quando religiosos radicais dominam os EUA, mudam o nome do país, e desenvolvem um regime extremamente repressor, classicista.

Neste universo, após muita poluição e outros malefícios ao planeta, as pessoas não conseguem mais reproduzir como antes, algo à la Filhos da Esperança (2006). As mulheres que podem engravidar viram cidadãs de segunda classe e são estupradas por homens ricos que desejam manter a “família”. Esses homens têm a ajuda das esposas. Acompanhamos a jornada de Offred (Elisabeth Moss), separada do marido e da filha e obrigada a ceder às “leis”. Repletos de metáforas à escravidão e mesmo a países que tratam as mulheres da pior forma possível atualmente, o projeto incomoda, deixa um nó na garganta. Pois não é algo longe de acontecer em escala global ou mesmo aqui. Principalmente com tantos políticos intolerantes sendo considerados “mitos”.

La Casa de Papel apresenta outras pessoas reféns das injustiças do mundo. É recheada de referências aos filmes de assalto, aos grandes casais do crime no cinema (Bonnie & Clyde à frente), Robin Hood. É cheia de citações, de Tarantino aos filmes de terror, de Elvis até o futebol e nossa seleção. Possui vários clichês, bem vindos no contexto. Um elenco carismático, de química reluzente. Uma reflexão interessante sobre os poderes, sobre quem são necessariamente os mocinhos e os vilões. Também tem mulheres que sofrem. Sejam a inspetora Raquel Murillo (Itziar Ituño), maltratada dentro da própria corporação, ou mesmo as assaltantes e as sequestradas, vítimas dentro de seus próprios universos. O tema de abertura, My Life is Going On, de Cecilia Krull, é uma beleza à parte. Professor, Nairóbi, Tóquio (a Nikita do século XXI), Berlim, Helsinque, Rio, Denver, Moscou e os demais juntaram-se a T’Chala, Okoye, Nakia e Shuri, de Pantera Negra, com os nomes de personagens que não saem da minha mente.

Duas séries para conferir numa tacada só. Mesmo se você não quer ficar ligado nas diversas camadas que oferecem, servem de entretenimento, trazem suspense, emoção. Não vejo a hora de conferir as novas temporadas.


 

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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