Oscar 2018 | Representatividade em cena

Guillermo Del Toro brincou com Warren Beatty ao receber a estatueta de melhor filme por A Forma da Água (Foto: site oficial do Oscar/Getty Images).
Guillermo Del Toro brincou com Warren Beatty ao receber a estatueta de melhor filme por A Forma da Água (Foto: site oficial do Oscar/Getty Images).

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Há algumas formas de encarar a 90ª edição dos Academy Awards. Com o cinismo habitual: a Academia foi politicamente correta e dividiu as estatuetas de forma a agradar gregos e troianos. Ou com esperança: Hollywood finalmente presta atenção na diversidade, na representatividade, nos imigrantes que fazem a máquina girar e gerar bilhões anualmente.

Acredito em ambas as maneiras. Tendo mais à segunda, é verdade. Mais uma vez a indústria cinematográfica dos EUA firma posição anti-Trump. Ao mesmo tempo, após um dos momentos mais delicados de sua história e a avalanche de denúncias de assédios que resultou no movimento #TimesUp, distribuir o carequinha dourado para profissionais de diferentes etnias ameniza a tensão e gera certa perspectiva positiva. Uma coisa não elimina a outra. É o mesmo que discutir se Pantera Negra pode ser político ou não por ser blockbuster. Mas isso é outra discussão. Alguém poderá dizer: que chato misturar cinema e política. Os EUA, desde sempre, usam os filmes para divulgar o american way of life. Existem casos mais abjetos: o nazismo utilizou o cinema para disseminar o ódio aos judeus. Cada um encara os filmes de maneira particular. Mas em épocas como essa, de intolerância e discursos de ódio espalhados mundo afora, impossível ignorar os fatos. Neste sentido, o Oscar 2018 ressaltou a representatividade e precisa ser destacado. Resta saber: tal reflexão terá sequência?

Encontro de mexicanos premiados. Guillermo Del Toro recebe o carinho de Alejandro Iñárritu, vencedor do Oscar de direção por Birdman e O Regresso (Foto: site oficial do Oscar/Getty Images).
Encontro de mexicanos premiados. O grande vencedor da noite, Guillermo Del Toro, recebe o carinho de Alejandro Iñárritu, vencedor do Oscar de direção por Birdman e O Regresso (Foto: site oficial do Oscar/Getty Images).

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O mestre de cerimônias Jimmy Kimmel cutucou o presidente bufão. Reconheceu o sucesso de Mulher-Maravilha, Pantera Negra, os filmes de super-heróis. Estava mais que na hora. Se Hollywood sobrevive aos trancos e barrancos é, em boa parte, por causa do Marvel Studios, da Fox, da Warner e seus personagens superpoderosos. Logan é o primeiro longa-metragem baseado em heróis de quadrinhos indicado à Roteiro Adaptado.

Tabus foram quebrados. Um dos prêmios mais legais da noite: Jordan Peele, primeiro negro vencedor em roteiro original pelo magnífico Corra!.  Dee Rees, diretora de Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississipi tornou-se a primeira mulher negra indicada a roteiro adaptado. Rachel Morrison, a primeira mulher indicada à melhor fotografia. Já a diva Mary J. Blige simplesmente virou a primeira profissional concorrente a duas estatuetas: atriz coadjuvante e canção (Mighty River). Conhecemos, ainda, a primeira cineasta transgênero concorrente, Yance Ford (do documentário Strong Island). Me Chame Pelo Seu Nome, drama sobre o primeiro amor de um adolescente gay, levou roteiro adaptado. The Silent Child, sobre garota deficiente auditiva, recebeu o prêmio de documentário de curta-metragem. Três mulheres assediadas por Harvey Weinstein subiram ao palco: Ashley Judd, Salma Hayek e Annabella Sciorra.

Jordan Pelle, melhor roteiro original por Corra! (Foto: site oficial do Oscar/Getty Images).
Jordan Pelle, melhor roteiro original por Corra! (Foto: site oficial do Oscar/Getty Images).

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Vimos imigrantes apresentadores e premiados. Chile (melhor filme em língua estrangeira, Uma Mulher Fantástica), Quênia, Paquistão, México. Trump revirou-se onde estava. Por sinal, o país vizinho, aquele cuja população o mandatário quer do outro lado de um muro, surgiu representada na vitória de Viva – A Vida é uma Festa, linda animação da Pixar e, principalmente, na merecida vitória de Guillermo Del Toro em direção e melhor filme para o lindo A Forma da Água, o grande vencedor da noite com quatro estatuetas.

Entre os atores o óbvio adiantado aqui: Frances MdDormand (atriz por Três Anúncios Para um Crime) celebrando o feminismo e convidando todas as mulheres indicadas a levantarem, Gary Oldman (ator por O Destino de Uma Nação), Sam Rockwell e Allison Janney, os melhores coadjuvantes respectivamente por Três Anúncios e Eu, Tonya.

Gostei de Dunkirk (três prêmios) e Blade Runner 2049 (dois) serem lembrados. São dois dos grandes lançamentos de 2017. Christopher Nolan, do primeiro, merece há tempos a consagração. Pelo segundo, o veterano Roger Deakins, após 14 indicações, finalmente venceu fotografia.

Ao convidarem Faye Dunaway e Warren Beatty para apresentarem melhor filme, os organizadores fizeram o mea culpa em relação à edição anterior: que revelou o preconceito contra idosos de muitas pessoas apressadas em criticar a dupla de Bonnie & Clyde, quando o verdadeiro responsável pela troca de envelopes naquela edição era o auditor nos bastidores.

Frances McDormand, melhor atriz por Três Anúncios Para Um Crime (Foto: site oficial do Oscar/Getty Images).
Frances McDormand, melhor atriz por Três Anúncios Para Um Crime (Foto: site oficial do Oscar/Getty Images).

 

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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