Oscar 2018: além das premiações

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Filmes refletem o mundo, a sociedade, a história. Atualmente, na verdade há alguns anos, são debatidas questões sobre representatividade, diversidade, democracia, em vários países. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood tem acompanhado os fatos. E a seleção da 90ª edição da maior festa do cinema espelha esse momento.

Neste domingo, durante a cerimônia realizada no Teatro Dolby, em Los Angeles, provavelmente teremos mais do movimento #MeToo, que denuncia o assédio na indústria cinematográfica. Como aconteceu no Globo de Ouro e no BAFTA. Menos perceptível, ou não para os mais atentos e sensíveis, é a clara resposta ao governo Trump. Hollywood tende a ser democrata. O presidente dos EUA é republicano. Possui forte oposição dentro do próprio partido. Principalmente pelo jeitão chulo e declarações preconceituosas.

Outras nações elegeram sujeitos igualmente intolerantes. Hollywood não quer deixar passar barato. O recado é dado nas produções, nas histórias. Grande parte dos filmes indicados apresenta relações familiares. Não trata-se da família tradicional ou conservadora: papai, mamãe, homem e mulher, e os filhos. Mas pessoas que convivem, partilham do amor, da ajuda mútua, do companheirismo, independente do gênero, raça, classe social.

Frances McDornand vive Mildred.
Frances McDornand vive Mildred em Três Anúncios Para Um Crime.

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Líder com 13 indicações, A Forma da Água traz protagonista mulher, muda, cujos melhores amigos são o vizinho de meia idade gay e a colega de trabalho negra. Seu par romântico é misto de homem e peixe.  Deve levar o prêmio de direção, para Guillermo Del Toro, nascido no México, país vizinho que tira o sono de Trump. O longa está páreo a páreo na categoria Melhor Filme com Três Anúncios Para um Crime, sobre a mãe que busca justiça para a filha estuprada, queimada e assassinada. O primeiro levou os Sindicatos dos Diretores e Produtores. O segundo ganhou Melhor Elenco no Sindicato dos Atores.

Os Sindicados, ou Guildas, são os melhores termômetros do Oscar. Os atores formam a maior parte dos votantes da Academia. Nas duas últimas edições, o Oscar “dividiu” as premiações entre Filme e Direção – em 2017 ainda com o anúncio equivocado de  La La Land quando o real vencedor era Moonglith.  Com o movimento #MeToo, é provável que Três Anúncios leve a principal estatueta da noite. Por outro lado, é impossível ignorar a obra prima que é A Forma da Água, meu preferido entre todos e o mais plural ao abordar a representatividade e sem ignorar o movimento: o vilão é homem branco heterossexual disposto a intimidar e assediar mulheres.

As demais famílias do Oscar 2018 estão presentes: no tenso e surpreendente Corra!, sobre racismo; Lady Bird e Me Chame Pelo Seu Nome, sobre adolescentes, respectivamente uma garota hetero e um garoto gay, em momentos de descoberta e suas relações com os pais; nas relações entre marido e esposa de O Destino de uma Nação, e do artista com três mulheres, a mãe falecida, a irmã e a musa em Trama Fantasma; a herança do pai para a proprietária e a redação do jornal em The Post; ou uma nação inteira se juntando pela liberdade em Dunkirk. Fora dos nomeados à estatueta mais desejada da noite temos a mãe dominadora de Eu, Tonya, e as tradições da família mexicana na animação Viva: A Vida é uma Festa. E outros exemplos. São retratos do mundo contemporâneo, dos anseios da humanidade, das diferentes formas de amar, conviver, brigar e fazer as pazes, como toda família é.

Tom Hanks é o lendário editor-chefe do The Washington Post, Ben Bradlee.
Tom Hanks é o lendário editor-chefe do The Washington Post, Ben Bradlee.

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Quanto aos favoritos, Gary Oldman (O Destino de Uma Nação) e Frances McDornand são os prováveis vencedores para ator e atriz. Ainda que eu prefira Sally Hawkins em A Forma da Água. Sam Rockwell (Três Anúncios) e Allison Janney (Eu, Tonya) devem ser os coadjuvantes eleitos. Viva – A Vida é uma Festa será a melhor animação. Há dois brasileiros indicados: Carlos Saldanha, pela direção de O Touro Ferdinando, concorrente à melhor animação, e Rodrigo Teixeira, produtor de Me Chame Pelo Seu Nome, concorrendo a melhor filme. No entanto, acima dos prêmios, o Oscar 2018 poderá ser lembrado como aquele que deixou um legado na sociedade. A questão é: o #MeToo terá continuidade? Ou brevemente será esquecido como aconteceu com o #OscarSoWhite? O mundo não deixou de ser racista e não deixará de ter seus demais preconceitos de um ano para o outro.

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André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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