Crítica | Trama Fantasma (Phantom Thread, 2017)

Daniel Day-Lewis e Vicky Krieps, duas grandes atuações.
Daniel Day-Lewis e Vicky Krieps, duas grandes atuações.

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Guardadas as devidas proporções, podemos dizer que Paul Thomas Anderson é um artesão cinematográfico perfeccionista como o grande Stanley Kubrick. Este último costumava rodar quantas vezes precisasse a mesma cena. Até ela ficar do jeito que a imaginava. No documentário Imagens de uma Vida (2001), presente na caixa com diversos filmes do cineasta lançados em DVD no Brasil, Tom Cruise diverte-se ao lembrar os bastidores do último longa do diretor, De Olhos Bem Fechados (1999). Sydney Pollack, também diretor de cinema e ator naquela produção, sofreu na mão de Kubrick.

São alguns os paralelos entre Kubrick e Anderson. 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968) é quase um filme mudo. Em Sangue Negro, a melhor estreia de 2007 e incrivelmente preterido no Oscar do ano seguinte para o superestimado Onde Os Fracos Não Têm Vez, dos mais superestimados ainda irmãos Coen, praticamente não há diálogo durante os primeiros 15 minutos. São artistas que confiam na narrativa construída pelas imagens, composições, a fotografia, a trilha sonora ou falta dela e, invariavelmente, nas atuações.

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Ao ver e me encantar por Trama Fantasma, de Anderson, veio à mente Barry Lyndon, talvez o mais belo trabalho de Kubrick. Em ambos somos presenteados com fotografia, direção de arte, figurinos esplêndidos. São duas maravilhosas obras lapidadas por duas figuras obsessivas em criar o melhor, o mais impactante, encantador e envolvente cinema. Mas, se no filme de 1975, a concepção visual deixava as (boas) atuações em segundo plano, com Trama Fantasma temos ao menos três magistrais interpretações.

A maior delas é de alguém tão perfeccionista quanto os diretores aqui citados. O três vezes vencedor do Oscar Daniel Day-Lewis (por Meu Pé Esquerdo, Sangue Negro e Lincoln), naquele que diz ser seu último trabalho no cinema, vive o costureiro Reynolds Woodcock. Acostumado a criar os vestidos para a alta realeza e as altas rodas na Londres dos anos 50, trata-se de um sujeito tão perfeccionista e obsessivo quanto o ator que lhe empresta o corpo.

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Sua rotina é a mesma. Qualquer detalhe destoante lhe tira a concentração. Solteirão convicto, Reynolds lembra-se frequentemente da mãe. Sofre. A irmã mais velha serve de figura materna. Há um quê de Édipo ali. A vida do protagonista muda completamente ao conhecer Alma – a revelação Vicky Krieps, nascida em Luxemburgo e criada na Alemanha. O jeito espontâneo e a atitude da garçonete chamam a atenção de Reynolds. Vai morar com ele e sua irmã mais velha, Cyril (Lesley Manville). A jovem torna-se misto de assistente, secretária, musa, modelo, manequim. Precisa lidar com o temperamento do patrão e, depois, amante. Não se deixa amedrontar. O tempo passa e a relação entre ambos vira um jogo de dominação, que pende para os dois lados.

O desfecho da história é incerto. Não se trata do simples romance. Anderson não é adepto de roteiros previsíveis. Podemos achar estarmos diante de uma reflexão sobre o machismo, como as mulheres precisam aceitar os desmandos e caprichos do “homem da casa”. Mas logo somos surpreendidos com reviravoltas inteligentes. E sabe que tem grandes atores à mão. Por isso, sem pressa, deixa a câmera mirar os rostos de Lewis, Krieps e Manville. As duas merecem elogios. Afinal, é difícil, muito difícil, conseguir dividir a tela com um dos maiores atores de todos os tempos. E ambas conseguem. Não por que Lewis esteja abaixo da média. Pelo contrário. Faz um trabalho impressionante e está ladeado por colegas igualmente talentosas, fortes. A trilha sonora do guitarrista do Radiohead Jonny Greenwood, velho parceiro do diretor, dá o clima necessário para a evolução das situações. Mais um ponto positivo na carreira de um dos maiores cineastas contemporâneos que, mesmo quando não está no auge (Vício Inerente, O Mestre), ainda provoca, tira o espectador do lugar comum. Trama Fantasma é um de seus melhores trabalhos.

Curiosidade: os mais atentos perceberão, logo no início, a participação de Gina McKee vivendo a Condessa Henrietta Harding. A atriz britânica foi a cadeirante Bella de Um Lugar Chamado Notting Hill (1999).

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Trama Fantasma
Phantom Thread
EUA. 2017.
Direção: Paul Thomas Anderson.
Com Daniel Day-Lewis, Vicky Krieps, Lesley Manville.
130 minutos.


 

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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