30 anos de O Grande Dragão Branco

Jean-Claude Van Damme é Frank Dux.

Jean-Claude Van Damme é Frank Dux.

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Nos anos 80 era costume reprisarmos, nos intervalos das aulas, algumas cenas de filmes que amávamos. O preferido: Karate Kid: A Hora da Verdade (1984). Daniel nos representava. Sujeito inicialmente indefeso, sofria bullying. Dava a volta por cima, calava os valentões, ficava com a garota. Éramos apaixonados pela Ali (Elizabeth Shue). Mas talvez o que nos aproximasse mais do filme era o fato da história acontecer na escola. Nos espelhávamos neles. Éramos fãs de Rocky Balboa, mas não repetíamos tanto os socos trocados entre ele e Apollo, ou Clubber Lang, ou Drago. Porém, adorávamos representar os golpes dados por Frank Dux (Jean-Claude Van Damme) em O Grande Dragão Branco. Provavelmente ficámos encantados pelos chutes giratórios, as artes marciais. Em 26 de fevereiro serão completados 30 anos de seu lançamento, nos EUA. No Brasil, a estreia ocorreria em 9 de dezembro de 1988.

Os surreais anos 80

Para alguém de 8, 10, 12 anos, os defeitos de um filme tendem a passar despercebidos. Adorava Superman III (1983) e Superman IV: Em Busca da Paz (1987), Mestres do Universo (1987), American Ninja (1985), etc, etc. É preciso contextualizar. Estávamos longe de ter TV a cabo, internet. Globo e SBT, ou TVS para os mais antigos, davam destaque para os filmes exibidos “pela primeira vez na televisão”.

Noite de Tela Quente era evento familiar: todos reunidos em frente ao televisor. A concorrente fazia promoções durante as transmissões. Lembro que, a cada retorno de intervalo, e emissora colocava uma letra em algum canto da tela e o espectador precisava ficar atento para anotá-la. E depois enviar pelo correio a carta com as cinco letras mostradas e concorrer aos brindes.

Dos casos mais curiosos aconteceu com Rambo, A Globo anunciava Rambo II: A Missão (1985) e, para o mesmo horário, o SBT promovia Rambo: Programado Para Matar (1982), o primeiro da franquia, o original. Acontece que ambos estavam inéditos na televisão brasileira. A população, no entanto, já mergulhada no universo global, preferiu ver a continuação à primeira aparição do ex-boina verde vivido por Sylvester Stallone.

Leah Ayres vive o interesse romântico do protagonista.

Leah Ayres vive o interesse romântico do protagonista.

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Como a velocidade de informação era completamente diferente da atualidade e os filmes demoravam para chegar à TV, fomos acostumados a achar atores como Dolph Lundgren, Steven Siegel e Michael Dudikoff e, o próprio Jean-Claude Van Damme, grandes astros de Hollywood, do primeiro time. Nunca foram. Vieram todos no embalo dos sucessos de ação estrelados por gente supermusculosa – os exércitos de um homem só, com Stallone e Arnold Schwarzenegger à frente – e de artes marciais, levados ao grande público por Bruce Lee na década anterior.

A grande responsável por boa parte desses quase filmes B, apresentados no Brasil como grandes lançamentos, é a Cannon, retratada pelo diretor Mark Hatley no documentário Electric Boogaloo: The Wild, Untold Story of Cannon Films (2014), exibido à época no Festival do Rio. Comandada pelos irmãos Menahem e Yoram Globus, a produtora “presenteou” o público com tramas divertidas, nonsenses, estranhas e memoráveis para quem foi criança três décadas atrás. Para dar uma ideia, alguns dos lançamentos da empresa foram: Desejo de Matar II (1982), com Charles Bronson, O Último Americano Virgem (1982), As Minas do Rei Salomão (1985), Comando Delta (1986, com Chuck Norris), Cobra (1986, com Stallone), Capitão América (1990) – isso mesmo, o Sentinela da Liberdade enfrenta um Caveira Vermelha italiano! -, os citados American Ninja, Mestres do Universo, Superman IV: Em Busca da Paz e O Grande Dragão Branco.

Kumite

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O Grande Dragão Branco
pode ser considerado, exagerando talvez, o segundo grande papel de Jean-Claude Van Damme. O ator belga havia estrelado Retroceder Nunca, Render-se Jamais (1986). Na história mostrou seus dotes atléticos ao viver o algoz de Jason, jovem estudante de caratê que aproveita as lições com o espírito de Bruce Lee para encher de chutes e socos a máfia soviética. O longa passou longe do sucesso nas bilheterias, mas virou cult em vídeo. Dois anos depois, Van Damme interpretaria um de seus personagens mais marcantes, Frank Dux.

Com extensa carreira de diretor-assistente, inclusive de grandes produções como O Poderoso Chefão: Parte II (1974) e O Segredo do Abismo (1989), o californiano Newt Arnold (1922-2000) só havia dirigido dois longas de terror, Mentes Criminosas (1962) e Blood Thirst (1971) – curiosidade: fez ponta atuando no cult juvenil Os Goonies (1985).

Para O Grande Dragão Branco, junto aos roteiristas Sheldon Lettich (Rambo II e diversos longas com Van Damme), Christopher Cosby e Mel Friedman (assistente de edição da série Breaking Bad, entre outros trabalhos), pegou emprestadas e mesclou as lições aprendidas com Operação Dragão (1973), Rocky. Um Lutador (1976) e Karatê Kid (1984).

O militar Frank Dux decide deixar o exército para lutar em HongKong, num torneio de artes marciais clandestino chamado Kumite. Lutadores de várias partes do mundo participam da competição, que pode levar à morte. Tipo um MMA mais hardcore. Dois agentes do serviço secreto (vividos por Norman Burton, 1923-2003, e um jovem e iniciante Forest Whitaker) dos EUA partem em seu encalço, já que o governo “investiu” em suas capacidades. Sua decisão em arriscar a vida na Ásia é para honrar seu shidoshi, que encontra-se doente, Senzo Tanaka (Roy Chiao, 1927-1999). Pelo caminho, o protagonista se envolverá com a intrépida repórter Janice Kent (Leah Ayres), capaz de quase tudo para conseguir a grande reportagem, e fará amizade com o conterrâneo fanfarrão Ray Jackson (Donald Gibb).

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Logo nos primeiros minutos nos deparamos com uma série de clichês: lutadores são mostrados da maneira mais caricata possível, racista, que hoje despertariam discussões acaloradas nas redes sociais. O africano tem “estilo” de luta imitando macaco, o brasileiro no meio da floresta, etc, etc. Tudo acompanhado pela trilha sonora exagerada e tipicamente oitentista de Paul Hertzog.

Conhecemos a trajetória de Dux em flashbacks, os primeiros contatos com as artes marciais. O Tanaka de Roy Chiao é um Mr. Miyagi mais sádico e sem o carisma de Pat Morita. Ele só poderia ensinar um descendente de sangue, mas rompe a tradição para lecionar um ocidental. O ator que faz Dux na infância, Pierre Rafini, é dos mais inexpressíveis da história. A repórter Janice Kent (seria o sobrenome referência ou homenagem ao Clark, de Superman?) é uma Lois Lane mais atrevida, disposta a conseguir informações mesmo que precise sair com um apostador. Com Dux é diferente, ela se apaixona. E o sentimento parece ser recíproco.

O Kumite é caso à parte. O torneio acontece dentro da Cidade Murada de Kowloon, emaranhado de prédios densamente povoado que virou antro de traficantes e bandidos de todos os tipos. Lembro que, em Santos, havia o Bar Anhembi, esquina do Canal 4 com a avenida da praia. Quando íamos ao banheiro do boteco, costumávamos dizer que o corredor lembrava o mesmo corredor para chegar ao Kumite, tamanha a sujeita, os cabos e fios expostos. Quando Frank, Jackson e alguns locais adentram a Cidade Murada temos uma das câmeras subjetivas (que nos torna a visão do personagem) mais confusas do cinema. Repare como pessoas simplesmente desaparecem.

Van Damme e a cena célebre, ou não, da cegueira durante a luta.

Van Damme e a cena célebre, ou não, da cegueira durante a luta.

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Treinando e lutando, Van Damme mostra todo o seu talento ou a falta dele: do espacate, movimento ginástico no qual abre as pernas formando 180 graus, aos chutes giratórios, até a cena em que Dux fica sem enxergar, um clássico da má atuação. Haverá momentos de hesitação e quase derrota à lá Rocky, tem a trapaça (herança de Karate Kid e outros) feita pelo oponente, aqui um coreano, Chong Li, interpretado por ninguém menos que o chinês Bolo Yeung. O vilão traz frases icônicas, chegando a repetir Bruce Lee, com quem trabalhou em Operação Dragão: “tijolo não revida”. Outra célebre: “Você quebrou meu recorde. Agora vou quebrar você igual quebrei o seu amigo”.

Durante os letreiros somos informados que a história é baseada na vida do verdadeiro Frank Dux. Soldado do exército americano, teria quebrado todos os principais recordes do Kumite. Ele serviu de consultor e treinou atores para o filme e, diz, é pioneiro ao desenvolver o Dux Ryu Boxe nos EUA. Acontece que jamais foi comprovada a existência do Kumite e há quem o ache um charlatão de marca maior. Afinal, como os organizadores conseguiam medir a velocidade de golpes, etc?

Muitos lutadores foram interpretados por profissionais da dança e o moçambicano Paulo Tocha, que faz o lutador brasileiro Paco (da troca de chutes no quadril com Van Damme em uma das principais lutas do filme), viraria lutador profissional e o primeiro estrangeiro a vencer um combate na China comunista.

Incrivelmente, O Grande Dragão Branco custou pouco além de US$ 1 milhão e rendeu dez vezes mais. Ganhou três continuações sem a presença de Van Damme, produzidas para o mercado de home vídeo e exibidas no Brasil pela Rede Bandeirantes.

Mas, como escrevi lá no início do texto, na infância temos dificuldade em diferenciar o bom do mal cinema e a memória afetiva nos faz crer, durante muito tempo, que vimos grandes filmes. As brincadeiras na escola, na rua, valem a lembrança. Van Damme viveu altos e baixos na carreira, usou drogas, ficou excitado ao vivo dançando com Gretchen no programa do Gugu, soube rir de si mesmo. Melhor exemplo é a série Jean-Claude Van Johnson (2017), paródia resumo dos filmes nos quais trabalhou.

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O Grande Dragão Branco
Bloodsport
EUA. 1988.
Direção: Newt Arnold.
Com Jean-Claude Van Damme, Donald Gibb, Bolo Yeung, Roy Chiao, Leah Ayres, Forest Whitaker, Norman Burton.
92 minutos.


 

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André Azenha
André Azenha

Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.