Crítica | Pantera Negra (Black Panther, 2018)

Chadwick Boseman é T'Chala, o Pantera Negra.

Chadwick Boseman é T’Chala, o Pantera Negra.

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Uma pequena história em quadrinhos chamou a atenção na web. Assinada por Lucas Silva,  Rennan Lemes (brainstorn) e Valdeci Crabi (desenho), a página mostra duas crianças brincando na rua, menino e menina brancos, fantasiados respectivamente de Superman e Mulher-Maravilha. Olhando a alegria dos coleguinhas e sentado no meio fio, um garotinho negro. É quando chega o Pantera Negra e diz: “Hey, garoto. O que está esperando?”. O garotinho então veste a máscara do Rei de Wakanda para se juntar às duas crianças. História curta, direta, reta, inteligente e que traduz o significado do filme recém-lançado.

O cinema tem pouco mais de 120 anos e, os blockbusters, cerca de 40. Fica escancarado o conservadorismo, o racismo da indústria. Não trata-se de vitimismo ou coisa parecida. Durante muito tempo, as produções cinematográficas não espelharam toda a diversidade do mundo. Os degraus são galgados lentamente.

Quadrinhos para ler antes de ver Pantera Negra

Pantera Negra, dirigido por Ryan Coogler, significa muito. Muito para garotos e garotas negros de todas as partes do mundo que, finalmente, podem se ver no primeiro blockbuster de equipe técnica e elenco formado, em sua grande maioria, por profissionais afrodescendentes. Representa muito para quem possui o mínimo de empatia e entende a importância da diversidade, de vermos retratados no entretenimento e na arte pessoas de todas as classes, origens, etnias.  É o que Mulher-Maravilha, de Patty Jenkins, significou para mulheres ao redor do mundo em 2017.

Pessoalmente, me sinto sortudo em ter pais que me ensinaram, desde pequeno, a respeitar as diferenças. Por mais que o mundo ao redor, na escola, na rua, tentasse ensinar o contrário.

Lupita Nyong'o vive ativista e interesse romântico.

Lupita Nyong’o vive ativista e interesse romântico.

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Adorava ver os filmes de Eddie Murphy, como Um Príncipe em Nova York (1988). Ou O Último Dragão (1985), trama de artes marciais estrelada por Leroy Green. São histórias povoadas por personagens negros. Mas era muito pouco ante o número de lançamentos ano a ano. Blade (1989) trazia Wesley Snipes, por pouco o primeiro Pantera Negra das telonas, como o caçador de vampiros dos gibis.

Pantera Negra, o longa, apresenta um elenco majoritariamente formado por atrizes e atores de descendência africana.  Primeira vez que isso acontece num filme com tamanho orçamento, tamanha repercussão, tal envergadura. Com assinatura do Marvel Studios, da Disney. Divisor de águas no quesito representatividade.

Alguém poderá dizer que seu significado, então, é apenas social (como se isso fosse algo menor). O filme é dos melhores baseados em quadrinhos. Coogler, 31 anos, cuja carreira meteórica tem o premiado em Cannes Fruitvale Station: A Última Parada (2013) e Creed (2015), responsável por ressuscitar a franquia Rocky, recebeu indicações a prêmios e foi sucesso de bilheteria. Praticamente contemporâneo de Damien Chazelle (La La Land). Os dois cineastas de pouco mais de 30 anos cada e sabem unir entretenimento e arte, emoção e ação. Divertem e nos fazem pensar.

Wakanda é um espetáculo à parte.

Wakanda é um espetáculo à parte.

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T’Chala/Pantera Negra apareceu em Capitão América: Guerra Civil (2016), quando perdeu o pai assassinado e herdou o trono. Agora, é declarado Rei de Wakanda. Nação fictícia localizada no interior da África, evoluída tecnologicamente, manteve-se isolada do mundo. No entanto, chega o momento em que o protagonista precisa decidir entre continuar o isolamento, preocupado como os demais países –-principalmente os de perfil colonizador – reagiriam ao descobrir os poderes de sua terra-natal, ou ajudar outros povos mais necessitados. Esta última opção é a bandeira defendida por Erik Killmonger (Michael B. Jordan). São dois personagens que se completam. Dois lados da mesma moeda. Como Martin Luther King e Malcolm X, Professor Xavier e Magneto. Os argumentos de ambos são plausíveis, compreensíveis. Difícil dizer quem está errado. São vítimas de um mundo dividido, opressivo, imoral. Os conflitos são vários. Internos e externos. Servem de metáfora desde pessoas e empresas que poderiam fazer mais pelos outros, até os próprios Estados Unidos, atualmente presidido por um intolerante de marca maior.

O elenco é excepcional. Boseman mescla força e sensibilidade. Traz dignidade ao herói. Jordan, astro nos dois primeiros filmes do diretor, é dor, sofrimento, vingança. Há ainda os vencedores do Oscar Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia), como o tio do Rei, e Lupita Nyong’o (12 Anos de Escravidão), ativista e interesse romântico. Letitia Wright vive a irmã mais nova, Shuri, a geek da família real, cuida da tecnologia, da medicina. Representa o que é Cisco na série The Flash, Felicity em Arrow, Winn em Supergirl. Carismática, divertida, ela rouba a cena diversas vezes. A veterana Angela Bassett faz a mãe, Ramonda. Danai Gurira é Okoye, chefe da guarda imperial, composta apenas por mulheres! Uma ode ao feminismo, ao girl power. O indicado ao Oscar deste ano (por Corra!), Daniel Kaluuya, interpreta W’Kabi, líder dos soldados que defendem as fronteiras. Há Andy Serkis, exagerado, como o vilão Ulysses Klaue, e Martin Freeman (O Hobbit) vive o agente Everett Ross. Timaço de atores e atrizes.

Já Wakanda é um espetáculo à parte. Desde os altos edifícios aos vilarejos, cataliza nossa atenção, é bela, envolvente, encantadora. As cenas das cataratas foram filmadas em Foz do Iguaçu.

Assisti à sessão junto a membros do Conselho da Comunidade Negra e a reação dos conselheiros resume bem a importância da obra: “Um filme político, mais sério, que usa a herança africana desde os elementos de tribo, religião, costumes, vestimentas e o poder feminino de guerreiras”.

Pantera Negra
Black Panther.
EUA. 2018.
Direção: Ryan Coogler.
Com Chadwick Boseman, Michael B. Jordan, Forest Whitaker, Lupita Nyong’o, Letitia Wright, Danai Gurira, Daniel Kaluuya, Andy Serkis, Martin Freeman.
134 minutos.


 

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André Azenha
André Azenha

Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.