Crítica | Três Anúncios Para Um Crime (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, 2017)

Woody Harrelson e Frances McDornand.

Woody Harrelson e Frances McDornand.

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Não é o típico thriller investigativo como Se7en: Os Sete Crimes Capitais (1995), Memórias de um Assassino (2003) ou Zodíaco (2007). O diretor e roteirista Martin McDonagh mostra a busca de Mildred (Frances McDornand) por justiça, ou o que pode ser considerado justiça, para a filha estuprada e assassinada. Mas investe nos dramas e nas relações humanas. Não é o desfecho da investigação que interessa. E sim os caminhos tortuosos desbravados pelos personagens ante a situação central da história.

Vencedor do Oscar de curta-metragem por O Revolver de Seis Tiros (2004), o cineasta foi indicado a roteiro original pelo ótimo Na Mira do Chefe (2008).  Em Sete Psicopatas e um Shih Tzu (2012) dirigiu Woody Harrelson, Abbie Cornish e Sam Rockwell. Os três últimos são reunidos outra vez, respectivamente como o xerife, a esposa e um policial intolerante.

O elenco excepcional traz Lucas Hedges (Manchester à Beira-Mar Lady Bird), filho de Mildred. Caleb Landry Jones (Projeto Flórida, Corra!) vive o vendedor de espaços publicitários nos outdoors. Peter Dinklage, em pequena e marcante participação, sempre, chama constantemente a protagonista para jantar.

Frances McDornand vive Mildred.

Frances McDornand vive Mildred.

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Frances McDornand encontrou um dos melhores papeis de sua carreira e representa todas as mulheres oprimidas que têm gritado contra os abusos, o machismo, a misoginia. Harrelson dá dignidade ao xerife Willoughby. Faz o possível com poucos recursos e enfrenta uma luta pessoal. Cornish é Anne, a esposa que tenta segurar a barra. Já o policial amargurado e revoltado de Sam Rockwell – igualmente no grande momento da carreira – não é necessariamente o que aparenta. São figuras trágicas, vítimas das situações e que buscam, cada uma à sua maneira, seguir a vida. Não à toa o time de atores ganhou o prêmio de melhor elenco no SAG, o Sindicato dos Atores.

Três Anúncios Para um Crime traz diversos conflitos internos e entre pessoas. Indignada com a falta de maiores descobertas do paradeiro do criminoso, Mildred, ao melhor estilo punk “do it yourself” (faça você mesmo), decide ilustrar três outdoors na entrada da típica cidadezinha dos EUA: onde todos falam sobre todos e a hipocrisia reina. Sofre por ser mulher, por ousar colocar o dedo na ferida e cobrar os “homens de bem”. O roteiro aborda outros tipos de intolerância: o racismo, a homofobia. E mira na hipocrisia. Em determinado momento, Mildred chega em casa e se depara com o padre do município, sentado e tomando chá. Típica situação de cidade pequena, de onde todo mundo dá palpite na vida alheia. O sujeito está lá para dizer que a Igreja apoia a mãe, seu sofrimento, mas não apoia os anúncios. Nas entrelinhas: ela foi longe demais, está prejudicando pais de família, os homens, heterossexuais, que comandam a sociedade. Traduzindo: perder a filha para um homem, pode, questionar um homem, não pode. É aí que sai um dos monólogos mais inspirados do cinema. Que põe não um, mas todos os dedos na ferida. Só os hipócritas de plantão se incomodarão. Eu achei o máximo e achei legal reproduzi-lo aqui. Serve não apenas para desmascarar os carolos e carolas, porém todos aqueles que, na superfície, ditam regras e por dentro são seres abjetos.

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“Sabe o que eu estava pensando hoje?

Eu estava pensando sobre aquelas gangues em Los Angeles: os Crips e os Bloods. Estava pensando nas novas leis que criaram, nos anos 80.Acho que era para combater os Crips e os Bloods. E se bem me lembro essas novas leis diziam que, se você se juntar a uma dessas gangues, e você está com eles, e descendo a rua em uma noite, sem você saber, a gangue mata alguém… Mesmo que você não soubesse nada sobre isso. Mesmo que você estivesse na esquina cuidando da sua vida. O que essas novas leis diziam é que você ainda era culpado. Você ainda é culpado por se unir aos Crips e aos Bloods, em primeiro lugar.

O que me fez pensar padre: esse tipo de situação é um pouco semelhante a vocês da igreja, não é? Vocês têm suas cores, têm o seu clube de encontro. Vocês são, por falta de uma palavra melhor, uma gangue. E se você está no andar de cima fumando um cachimbo e lendo sua bíblia e um dos seus manos está no andar debaixo abusando de um coroinha, padre, assim como os Crips e os Bloods, você é culpado.

Por que você se juntou à gangue, cara. Não me importo se você nunca fez ou viu alguma merda. Você se juntou à gangue e você é culpado. E quando uma pessoa é culpada de abusar coroinhas, ou qualquer garoto, por que sei que para vocês realmente não faz diferença, então você meio que perde o direito de vir aqui e dizer alguma palavra sobre mim, ou minha vida, ou minha filha ou os meus outdoors. Então por que você não termina seu chá, padre, e sai da porra da minha cozinha?”.

Três Anúncios Para Um Crime 
Three Billboards Outside Ebbing, Missouri
EUA. 2017. 
Direção: Martin McDonagh. 
Com Frances McDornand, Woody Harrelson, Abbie Cornish, Sam Rockwell, Peter Dinklage, Lucas Hedges, Caleb Landry Jones. 
1h55min. 


 

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André Azenha
André Azenha

Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.