O legado de Batman: A Série Animada para a cultura pop

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Quando o primeiro episódio, Asas de Couro, de Batman: A Série Animada foi exibido em 6 de setembro de 1992 na Fox, com produção da Warner Bros. Animation, o parâmetro para desenhos animados baseados em heróis das histórias em quadrinhos era a série Superamigos, produzida pela Hanna-Barbera e exibida entre 1975 e 1983.

Superamigos mostrava Batman e Robin coloridos, sorridentes, piadistas, resquício da antiga série estrelada respectivamente por Adam West e Burt Ward entre 1966 e 1968 e que rendeu a primeira Batmania.

A Série Animada era diferente em estilo e conteúdo de tudo o que já havia sido feito nas animações de super-heróis. Tanto que, no Brasil, o SBT a exibia nas noites de sábado com o título O Novo Batman. Os traços e a ambientação remetem diretamente à série de curtas animados do Superman exibidos nas matinês cinematográficas dos EUA e produzida pelos irmãos Fleischer (responsáveis pelos nove primeiro episódios; os seis seguintes foram feitos pelo Famous Studios) entre 1941 e 1943.

Superman dos irmãos Fleischer, 1941.

Superman dos irmãos Fleischer, 1941.

Batman - A Série Animada, cena da abertura dos episódios, 1992.

Batman – A Série Animada, cena da abertura dos episódios, 1992.

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Os produtores Bruce Timm, Alan Burnett e Eric Radomski, auxiliados pela equipe de roteiristas encabeçada por Paul Dini, conceberam a animação repleta de elementos cinematográficos inerentes ao Expressionismo Alemão e ao Cinema Noir: a arquitetura da cidade Gotham City, local onde se passam as histórias, remete ao art deco, resultando num escuro esquema de cores o qual os realizadores batizaram de dark deco.

Planos-sequência, diferentes ângulos de câmera, a trilha sonora inspirada no trabalho do compositor Danny Elfman feito nos longas de Tim Burton, além de temas adultos como obsessão pela beleza, máfia, traumas psicológicos, relacionamentos abusivos, fizeram o programa ser reconhecido no Emmy Awards, o “Oscar da TV”, na categoria Outstanding Animated Program (For Programming One Hour or Less).

O esmero dos realizadores em sua concepção foi tal que, para escalar o elenco de dubladores, foi chamada Andrea Romano, veterana da Hanna-Barbera e da própria Warner. Foi dela a “descoberta” de Mark Hamill, o Luke Skywalker da franquia Star Wars, como dublador do Coringa, dando ao ator uma nova e bem sucedida carreira.

Com 85 episódios exibidos até 1995, a série foi eleita pelo site IGN como a segunda melhor animação de todos os tempos, e pela Wizard Magazine o primeiro entre os melhores shows animados da TV de todos os tempos.

Vale ressaltar: foi o seriado que deu início ao chamado Universo Animado DC, resultando em uma adaptação para o cinema, o longa- metragem Batman: A Máscara do Fantasma (o qual teve sua trilha sonora lançada em CD), e gerando spin-offs na televisão. No caso, as séries Batman do Futuro (1999- 2001), Superman: A Série Animada (1996-2000), Liga da Justiça (2001-2004) e Liga da Justiça Sem Limites (2004-2006), além de mais dois longas-metragens lançados direto em home vídeo: Batman & Mr. Freeze: Abaixo de Zero (1998) e Batman: O Mistério da Mulher-Morcego (2003). Três anos após seu encerramento, mais 24 episódios foram produzidos sob o título The New Batman Adventures (As Novas Aventuras do Batman, no Brasil), exibidos entre 13 de setembro de 1997 e 16 de janeiro de 1999, com foco no elenco coadjuvante do universo do herói.

Mesmo passados 25 anos, Batman: A Série Animada gera interesse no público: a Panini republicou, em 2017, Batman e Arlequina: Louco Amor, coletânea com formato luxo e capa dura de histórias em quadrinhos baseados na animação.

Na época de seu lançamento, Batman: A Série Animada era frequentemente considerada por fãs do personagem e críticos, como a melhor versão do homem-morcego para outra mídia fora dos quadrinhos, preferida até em relação aos filmes live action do cinema.

Dois dos mais influentes críticos de cinema dos EUA, Robert Ebert (1942-2013), vencedor do Pulitzer e então único da profissão a receber uma Estrela na Calçada da Fama de Hollywood, e Gene Siskel (1946-1999), que juntos apresentavam um popular programa de televisão, elogiaram a versão longa-metragem da animação, exibida nos cinemas no Natal de 1993, A Máscara do Fantasma.

(…) Siskel (…) e Ebert (…) tinham apenas elogios efusivos para A Máscara do Fantasma, especialmente sua direção de arte claramente fenomenal – supervisionada pelos diretores Bruce Timm e Eric Radomski – e a história intrincada e de influência dark sobre um imitador letal de Batman, o Fantasma, que está causando problemas para o Cavaleiro das Trevas, enquanto um longo amor perdido retorna a Gotham para reabrir algumas feridas emocionais antigas por seu alter ego, Bruce Wayne. Apresentando uma magnífica interpretação vocal de Dana Delany como a antiga paixão de Batman, Andrea Beaumont, música variada e excitante da falecida Shirley Walker, e o excelente trabalho de dublagem, A Máscara do Fantasma continua a escolher alguns fãs como o melhor filme teatral de Batman já feito.” (KHOURI, 2013 – Tradução do autor)

Contexto

A existência da série aconteceu graças aos sucessos dos dois filmes de Batman dirigidos por Tim Burton em 1989 (Batman) e 1992 (Batman, o Retorno, este último lançado 16 de junho, três meses antes da então nova animação.

Em 1989 Batman completou 50 anos de sua primeira aparição nas histórias em quadrinhos (em Detective Comics 27). Um pouco antes, as HQs Batman: O Cavaleiro das Trevas (1986), de Frank Miller, Batman: A Piada Mortal, escrita por Alan Moore e desenhada por Brian Bolland, ajudaram – junto a Watchmen (1986), escrita por Moore e desenhada por Dave Gibbons – a elevar o patamar das histórias em quadrinhos. Se antes os gibis, como são conhecidos no Brasil, eram veículos de entretenimento voltados, em sua maioria, para o público infantil, na segunda metade dos anos 1980 passavam a ser respeitados por intelectuais. Somados aos sucessos de bilheteria dos dois Batman de Burton, surgiu a segunda Batmania.

Nestes filmes, Burton trouxe elementos estéticos do Expressionismo Alemão e sua herança nos EUA, o cinema Noir.

A influência do Expressionismo Alemão nos filmes Batman de Tim Burton são perceptíveis nos temas sombrios de suspense e mistério, personagens bizarros e assustadoras, distorções da imagem, excessiva dramaticidade na interpretação dos atores, tanto na atuação quanto na maquiagem, e cenografia fantástica. Principalmente em Batman, o Retorno, o Pinguim (Danny DeVito) e a Mulher-Gato (Michelle Pfeiffer) são figuras grotescas, deslocadas na sociedade. O tom obscuro dos longas deixa Gotham sombria e gótica. As ruas parecem ser muito frias, estão sempre sujas, escuras.

O Gabinete do Dr. Caligari, 1920.

O Gabinete do Dr. Caligari, 1920.

Batman, o Retorno (1992).

Batman, o Retorno (1992).

Batman: A Série Animada (1992).

Batman: A Série Animada (1992).

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Também é preciso compreender o momento histórico em que a série foi lançada. A segunda metade dos anos 1980 e o começo da década de 1990 foram períodos de momentos tensos para a humanidade e de descobertas tecnológicas que perduram até hoje? Guerra Fria (1945-1991); Guerra Afegã-Soviética (1979-1989); Guerra Irã-Iraque (1980-1988); Término da Guerra de fronteira sul-africana (1989); Buraco na camada de Ozônio; Catástrofe nuclear de Chernobil; Queda do Muro de Berlim; forte combate ao tráfico de drogas; foram desenvolvidos o IBM PC, Apple Macintosh, XFree86,Windows e o MasOs, CD, PCs (primitivos), walkmans e videocassetes; houve a descoberta da AIDS; surgiram a MTV, o Hip Hop e a Música Eletrônica; consolidação da democracia, globalização e capitalismo global; Guerra do Golfo; aumento do terrorismo; fim do apartheid na África do Sul (1990); popularização do computador pessoal e da internet.

Todos eventos e acontecimentos noticiados incessantemente pela imprensa internacional e que, mesmo indiretamente, influenciaram os realizadores do seriado, que, tendo em vista todo o contexto do mundo, do personagem que tinham em mãos, do momento dos quadrinhos e da cultura pop, sentiram-se seguros em arriscar e realizar episódios de conteúdo complexo, adulto, de temas recorrentes à época.

Elemento natural de Gotham City

A priori, a influência expressionista foi mais temática no cinema americano. Todavia, nos anos 1940, o estilo visual contrastado e sombrio derivado da vanguarda atinge o cinema americano, reconfigurando as imagens em termos estéticos. Além dessa alteração imagética, os argumentos dos filmes também mudaram, inspirados basicamente em três escritores de romances policiais da época: Dashiell Hamett, Raymond Chandler e James Cain. Vale lembrar que os Estados Unidos sofreram uma grande crise econômica em 1929 e adentraram a II Guerra Mundial em 1941. Assim como o imaginário alemão estava dilacerado no período pós I Guerra, a moral estadunidense também sofreu abalos durante as décadas de 1930 e 1940.” (MURARI.2012)

 

Durante os 85 episódios da série, percebemos que Batman é um elemento da natureza de Gotham City. Sua existência está inserida na natureza da metrópole. Trata-se de um ícone, um ser superior, retratado sempre de maneira admirável, surpreendente, como pode ser visto logo na vinheta de abertura dos episódios, quando é mostrado inicialmente dentro das sombras, sem ser visto claramente, assim como os vilões a quem persegue.

A vinheta tem início com a logomarca da Warner Bros., que logo se transforma num dos dirigíveis que pairam sobre a cidade e cujos raios de luz são mostrados observando, vigiando Gotham City.

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Em seguida a câmera, num plano vertical, vai ao chão, e vemos os imponentes arranha-céus de baixo para cima, num contra-plongeé, mesmo ângulo ao qual veremos Batman ao término da abertura. Note-se que ele só é visto completo, nas cores de seu traje, quando um relâmpago rompe o céu. Até então sua sombra mistura-se às sombras da cidade, assim como as sombras dos vilões. É o mito juntando-se ao ambiente. Sua existência se dá por conta dos vilões e vice-versa. Como o Ying-Yang da cultura chinesa: a luz e a escuridão, forças opostas que se completam.

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E será assim ao longo de toda a série. Os vilões são figuras imageticamente grotescas, exageradas. No entanto, suas personalidades perturbadas são frutos de experiências vividas dentro do contexto: o Cara-de-Barro, apresentado nos episódios 21 e 22, era um ator que acabou desfigurado em um acidente de carro e, para tentar manter a bela aparência, passa a usar um produto fornecido por mafiosos que lhe recupera momentaneamente a face, porém o deixada cada vez mais deformado; o Duas-Caras era um promotor de justiça cujo rosto deformado, metade normal e metade queimado, o deixa com dupla personalidade; e assim por diante. Bem como Bruce Wayne passa a ser um vigilante noturno após perder os pais, assassinados num beco. Batman os persegue, ajuda a Polícia, vence (temporariamente) os bandidos, que voltam a atacar Gotham City, num ciclo vicioso.

Legado

Duas-Caras e seus capangas em Batman: A Série Animada. E imagens de filmes noir.

Duas-Caras e seus capangas em Batman: A Série Animada. E imagens de filmes noir.

Carros em Batman: Série Animada e carro dos anos 40.

Carros em Batman: Série Animada e carro dos anos 40.

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Batman: A Série Animada
 usa diversos elementos estéticos do Expressionismo Alemão e do Cinema Noir. Os carros, os figurinos da polícia, dos gângsteres, das mulheres remetem diretamente aos filmes dos anos 1940.

Ao mesmo tempo, Batman usa tecnologia inexistente no início dos anos 1990. Por outro lado, nos episódios 38 e 39 (intitulados Coração de Aço, partes 1 e 2) somos apresentados à inteligência artificial HARDAC, referência direta ao computador Hall 900 do clássico 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick. Segundo os produtores, o intuito era dar a ideia de que a série se passava em período não específico da história.

Computador na Batcaverna.

Computador na Batcaverna.

Hardac (episódios Coração de Aço partes 1 e 2 e Hall 900, de 2001: Uma Odisseia no Espaço, baseado na obra de Arthur C. Clarke.
Hardac (episódios Coração de Aço partes 1 e 2 e Hall 900, de 2001: Uma Odisseia no Espaço, baseado na obra de Arthur C. Clarke.

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Por mais que sua estética tenha esses elementos de diferentes momentos da história do cinema, Batman: A Série Animada é fruto do momento em que foi concebida: aborda temas e situações vigentes da época. Só teve essa abordagem por que seus produtores cresceram e viveram naqueles determinados tempo e espaço.

Seu legado para a Cultura Pop está presente nos produtos gerados a partir dela: o Universo Animado DC, o CD de trilhas sonoras, os quadrinhos inspirados na animação e ao mostrar que uma série animada poderia apresentar temas adultos, sendo capaz de entreter o público infantil e levantar reflexões complexas.

Gotham City em Batman: A Série Animada.

Gotham City em Batman: A Série Animada.

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Batman: A Série Animada
Batman: The Animated Series 
EUA. 1992.1995. 
Criadores: Bruce Timm, Eric Radomski, Paul Dini, Bob Kane, Bill Finger. 
Elenco original de dubladores: Kevin Conroy (Batman), Loren Lester (Robin), Efrem Zimbalist Jr. (Alfred), Mark Hamill (Coringa), Richard Moll (Duas-Caras), Arleen Sorkin (Arlequina), Adrienne Barbeau (Mulher-Gato), Paul Williams (Pinguim). 
Episódios: Média de 23 minutos cada. 


Referências bibliográficas:

GUMBRECHT, Hans Ulrich. Atmosfera, Ambiência, Stimmung. Trad. Ana Isabel Soares. Rio de Janeiro: Contraponto, Ed. PUC, 2014

GUMBRECHT, Hans. Lendo para a Stimmung? Sobre a ontologia da literatura hoje. Revista Índice, 2009.

IMDB. Batman, A série Animada. Disponível em: http://www.imdb.com/title/tt0103359/?ref_=ttawd_awd_tt

IMDB, Disponível em: http://www.imdb.com/title/tt0103776/releaseinfo?ref_=tt_dt_dt IMDB. Disponível em: http://www.imdb.com/title/tt0103359/releaseinfo?ref_=tt_dt_dt

KHOURI, A. Siskel e Ebert`s rave review of Batman: Mask of The fanthom. 2013. Disponível em: http://comicsalliance.com/siskel-and-ebert-review-batman-mask- phantasm-video/

MENZES, J., et al. A influência expressionista no cinema de Tim Burton. Uma análise de Nosferatu e Batman: o Retorno. Verbo Digital. 2010. Disponível em:
http://fca.pucminas.br/verbo/2010/06/02/a-influencia-expressionista-no-cinema-de-tim-burton-uma-analise-de-nosferatu-e-batman-o-retorno/

MURARI, L., PINHEIRO, F., O Expressionismo Alemão e suas múltiplas derivações americanas. O Mosaico: Curitiba. 2012. Disponível em: http://periodicos.unespar.edu.br/index.php/mosaico/article/viewFile/72/pdf

MURARI, L., Do Expressionismo Alemão ao Expressionismo Americano. Revista Universitária de Audiovisual. 2012. Disponível em: http://www.rua.ufscar.br/do-expressionismo-alemao-ao-expressionismo-americano/

ROSSUM, Karl. Disponível em: https://batman.wikia.com/wiki/HARDAC

STEVE, Disponível em: https://inpopculturewetrust.wordpress.com/2012/08/23/dark- deco-a-look-at-batman-the-animated-series/

VILCHES, Lorenzo. A migração digital. Edições Loyola, 2003.


 

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

One thought on “O legado de Batman: A Série Animada para a cultura pop

  1. Excelente artigo André. Fiz meu TCC da graduação sobre o assunto,e, além de atestar tudo o que disse eu acresceria que esse universo de batman (criado por Bruce Timm, inspirado por Tim Burton) é um material muito mais rico do que o espectador comum possa imaginar. Não só influenciou uma nova safra no cinema e tv, como foi influenciado por incontáveis vanguardas artísticas, como o construtivismo russo, art deco, entre tantas. Seus argumentos (da série) foram ousadíssimos em suas abordagens adultas e atuais, vide ep. 12 ” Nunca é tarde demais.”
    Se algum dia for revisitar essa obra ficariam imensamente grato em contribuir.
    😉
    abraços amigo.

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