Crítica | O Estrangeiro (2018)

Jackie Chan em "O Estrangeiro".
Jackie Chan em “O Estrangeiro”.

 

A sensação ao conferir O Estrangeiro é acompanhar uma história de outra época. Começando pelos dois protagonistas.

 

Jackie Chan, astro das aventuras de artes marciais, interpreta Quan: pacato dono de restaurante chinês em Londres, ele vê a filha Fan – Katie Leung, a Cho Chang da saga Harry Potter – morrer vítima de atentado terrorista. E decide vingá-la. Jornada típica de Busca Implacável, com Liam Neeson, e tantos outros.

 

Pierce Brosnan, ex-James Bond e galã, é Liam Hennessy, o político de passado obscuro e à frente da investigação. O grupo responsável pelo crime é ligado ao Exército Republicano Irlandês, o Ira, do qual ele fez parte no passado. Não tardará até as trajetórias de ambos se encontrarem.

 

Baseado no romance “The Chinaman” (1992), de Stephen Leather, o longa tem direção de Martin Campbell. O cineasta já dirigiu Brosnan em “007 Contra GoldenEye” (1995) e revitalizou a franquia no excelente “Cassino Royale” (2006), estreia de Daniel Craig na pele do agente com permissão para matar.

 

Assim, não faltam boas cenas de ação. Especialmente as estreladas por Jackie Chan. Apesar de envelhecido, o ator mantém o carisma e, diferente das acrobacias em tom de comédia da sua juventude, tem sequências mais violentas, filmadas de perto, sangrando e sentindo dor. Bate e apanha muito também.

 

Sua atuação, no entanto, vale mais pelos momentos dramáticos. Seu personagem perdeu a família de maneira trágica igualmente ao Mr. Han, que ele viveu no remake de “Karate Kid”, em 2010.  E é imigrante assim como o Steelhead de “Massacre no Bairro Chinês” (2009). Precisa enfrentar os olhares tortos, a desconfiança, o preconceito.

 

Chan trabalhou em mais de cem filmes. A grande maioria em sua terra natal. Há tempos demonstra ser ator versátil. Soube se reinventar. Faz tão bem drama quanto aventura, ação, comédia. É sempre um prazer vê-lo. Mesmo quando os filmes não são lá essas coisas. Não é o caso deste.

 

Mais limitado, Pierce Brosnan está ok no papel controverso do sujeito que não sabemos bem as intenções. Sua falta de expressividade é perfeita para essas situações. Mais ou menos como acontecia com Arnold  Schwarzenegger em “Conan”, “Exterminador do Futuro”, etc. Guardadas as devidas proporções, claro. Brosnan possui um pouco mais de simpatia, virou um tiozão legal.

 

Thriller típico dos anos 80, 90, protagonizado por dois astros daquelas épocas, cheio de clichês, “O Estrangeiro” está deslocado no cinemão atual, quando vemos quantidades intermináveis de superproduções com super-heróis, baseadas em quadrinhos ou não. 

É tão fora de época, por sinal (e aqui pode ser spoiler), que pune apenas as personagens femininas, retratadas como traidoras. Isso quando o cinema discute o tratamento dado às mulheres na indústria.

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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