Crítica | Jumanji: Bem-vindo à Selva (2018)

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O primeiro Jumanji, estrelado por Robin Williams em 1995, virou espécie de clássico nas Sessões da Tarde. É curioso, portanto, que aquele filme vire uma franquia mais de duas décadas depois.

Se a trama é iniciada em 1996 e cortada diretamente para os tempos atuais, situações e personagens mostrados remetem aos anos 80. As primeiras cenas na escola, por exemplo, lembra O Clube dos Cinco, dirigido pelo mestre das histórias adolescentes, John Hughes. Quando cinco garotos vão para o castigo justamente por serem diferentes, não se encaixarem no status quo escolar. Em Jumanji: Bem-Vindo à Selva são quatro que acabam indo parar na correção. A pegada não é tão profunda quanto o cult oitentista, afinal o objetivo aqui é ser leve, divertir pais e filhos.

Conhecemos os quarteto protagonista, alunos da high school: o nerd Spencer (Alex Wolff), o atleta Fridge (Ser’Darius Blain), a patricinha Bettany (Madison Iseman) e a estudiosa e quieta Martha (Morgan Turner).

Acabam reunidos pelo diretor da escola e precisarão, como dívida pela punição, organizar uma papelada gigante. É quando descobrem o videogame antigo que, na verdade, os leva ao misterioso e fantástico mundo de Jumanji. Seus avatares são pessoas de físicos e mentalidades completamente diferentes da vida real, respectivamente interpretados por Dwayne Johnson, Kevin Hart, Jack Black e Karen Gillan.

O sobrenome do diretor Jake não esconde: é filho de Lawrence Kasdan, roteirista de filmes das sagas Star Wars e Indiana Jones, e de Meg, atriz de filmes escritos pelo marido nos anos 80. Daí as referências diretas e indiretas a histórias daquele período que se passam em florestas misteriosas e envolvem objetos místicos: Indiana Jones, Tudo por Uma Esmeralda são algumas delas.

Com trilha coroada pela canção título, Welcome to the Jungle, dos Guns N’ Roses, o segundo Jumanji tem clima capaz de levar os marmanjos de trinta e poucos anos de volta no tempo. Tanto que, o local onde todos se encontram no fim, copia a Toca dos Gatos, lar dos Thundercats.

O roteiro é simples, direto, e ganha força no carisma do elenco. Dos garotos aos veteranos, principalmente Dwayne Johnson: o astro possui carreira similar às de Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger, dois superstars fortões que estouraram em filmes de ação de três décadas atrás e se  enveredaram pela comédia. Johnson, porém, tem “time” e talento para fazer rir. Karen Gillan, a Nebula de Guardiões da Galáxia, traz charme e demonstra versatilidade. Jack Black é sempre Jack Black, carismático, engraçado, certeiro. O comediante Kevin Hart não fica atrás e causa diversos risos. O vilão é vivido por Bobby Cannavale (Blue Jasmine, Homem-Formiga). Há química entre os atores.

De proposta despretensiosa, a aventura  levanta algumas questões: apesar de rotuladas, as pessoas podem significar muito mais. Cada adolescente ganha corpo e mente completamente opostos. Talvez o que desejassem ser. Ou pensam que desejam. O nerd, por exemplo, se torna um sujeito forte fisicamente e corajoso. A patricinha popular no Instagram e viciada em boa aparência recebe os contornos de um homem de meia idade barrigudinho. E assim por diante. Suas novas personalidades ajudarão a superarem obstáculos dessa fase complexa e, muitas vezes, cruel, que é a adolescência. O recado: não importa o que você aparenta, mas o que é e faz ou se propõe a fazer. Nesta sociedade cada vez mais virtual, de pessoas isoladas e seus próprios mundos particulares, Jumanji pega a nostalgia para refletir as relações humanas. Tudo embalado por bom entretenimento.

 

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André Azenha
André Azenha

Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.