Crítica | Blade Runner 2049

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Em 25 de junho de 1982 (quando esse que vos escreve tinha, então, 2 anos e meio), estreava nos EUA, “Blade Runner – O Caçador de Androides, baseado no romance cyberpunk (subgênero da ficção científica que ficou consolidado nos anos 80 com “Neuromancer”, de William Gibson).

Baseado no romance “Do Androids Dream of Electric Sheep?” (na tradução literal, “Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?” lançado em 1968), seu autor, o norte-americano, Philip K. Dick acompanhou a produção de Ridley Scott estrelada por Harrison Ford, mas morreu às vésperas da estreia no cinema.

35 anos depois, Ridley Scott já sem o vigor na direção de outrora, deixa o franco-canadense Denis Villeneuve na direção dessa tardia continuação.

Se eu estava com receio (na verdade, com medo, mesmo) de que essa continuação desse errado, isso logo se dissipa, ao perceber o acerto na ambientação (direção de arte, fotografia), além da trilha sonora de Benjamin Wallfisch e Hans Zimmer que remete ao filme de Scott e à trilha de Vangelis em alguns momentos e o sempre talentoso Ryan Gosling como o atual caçador de androides. Ao descobrir algo incomum que aconteceu a uma replicante de modelo antigo, ele parte para uma investigação e acaba indo atrás de Rick Deckard (Harrison Ford, ótimo) que está há décadas escondido, atrás de respostas.

É incrível como esse “Blade Runner 2049” faz citações e pequenas homenagens ao clássico de Ridley Scott. Além de Harrison Ford, outros atores fazem aparições (alguns deles, de forma surpreendente), ainda tem detalhes espalhados ao longo da trama que remetem ao filme de 1982.

Isso é Dennis Villeneuve voltando ao sci-fi filosófico (como havia feito com “A Chegada”) e extraindo o que há de mais substancial e humano na obra de PKD.

Sendo tão apaixonado pelo “Blade Runner” de 1982 é claro que eu encontrei algumas coisas que me incomodaram nesse 2049: em primeiro lugar, não há o clima de filme noir que eu apreciava tanto no clássico de Scott; a metragem do primeiro filme era de pouco menos de 2 horas (117 minutos), enquanto que nesse “Blade Runner 2049” são quase 3 horas de duração (164 minutos) e isso ainda unido a um ritmo lento de narrativa; Jared Leto tenta compor um vilão enigmático, mas não apresenta a mesma força, carisma e não dá tanto medo ao espectador como o Rutger Hauer no original. Por sinal, dos vilões, o destaque, mesmo, acaba sendo a holandesa Sylvia Hoeks roubando a cena.

Se o “Blade Runner” original foi um fracasso de público e ignorado pela crítica (sendo descoberto depois nas locadoras, quando saiu em VHS, tendo tido 4 versões diferentes e se tornado cult depois), esse “Blade Runner 2049” vem recebendo desde já, críticas muito positivas. Resta saber se o tempo vai se encarregar de transformá-lo num clássico.

O que fica, a meu ver, é que foi uma aposta para lá arriscada que deu relativamente certo (mesmo com os problemas que apontei acima) e o novo filme acaba complementando o de Ridley Scott.

Se esse “Blade Runner 2049” não responde às perguntas de 35 anos atrás (e, creio, que nem tenha sido feito para isso) nos traz mais indagações relevantes e super atuais: “o que nos torna, realmente, humanos?”. “Será que aquilo que acreditamos ser uma memória aconteceu exatamente como lembramos?”. “Blade Runner 2049” é um sci-fi filosófico e humanista. Para ver e refletir.

Blade Runner 2049
Idem.
EUA/Inglaterra/Canadá, 2017.
Direção: Denis Villeneuve.
Com Ryan Gosling, Harrison Ford, Robin Wright, Sylvia Hoecks e Jared Leto.
164 min.



 

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Marcelo Reis
Marcelo Reis

Marcelo Reis nasceu no finalzinho dos anos 70, É jornalista por formação, assistente administrativo por ocupação e cinéfilo de coração. Apaixonado por cinema desde os 13 anos (quando uma cirurgia o obrigou a ficar 6 meses de cama), tem um carinho todo especial por musicais, dramas, comédias românticas (‘Harry & Sally – Feitos um para o Outro” é sua favorita), romances e filmes do Woody Allen. Quase sempre, se identifica do lado de cá com algum(a) personagem da telona ou da telinha.