Crítica | Blade Runner 2049 (2017)

"Blade Runner 2049"
“Blade Runner 2049”

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Pouco mais de uma semana após sua estreia, Blade Runner 2049 arranca elogios da crítica especializada, mas o público não abraçou como deveria e merece a continuação do cult de 35 anos atrás. As reclamações, em geral, são de que o filme é lento, calmo, há falta de ação. Reação condizente com o mundo atual.

Cada vez mais temos satisfações momentâneas. A cultura fast food, de prazer imenso por um curto espaço de tempo, se alastrou a várias esferas, inclusive ante a arte. Há mais vontade por explosões, carros capotando, piadas ininterruptas. E menos por ambientação, clima, bons diálogos, situações que provoquem, instiguem a reflexão.

Cinema, e outras formas de manifestação artística, podem e devem se sair bem em ambas as direções. Do entretenimento puro e simples, e que também pode ser complexo, e da experimentação, da arte sem preocupações meramente comerciais. Quando apenas um lado torna-se praticamente a única preferência do grande público, há algo a ser pensado.

Blade Runner, de 1982, foi fracasso de bilheteria em seu lançamento, sim. Até a crítica torceu o nariz. Eram outros tempos. Época que o fracasso comercial inicial podia converter-se em fascinação a longo prazo. Sabe aquela história dos artistas e suas obas à frente do tempo? Pois é. Quase todos os trabalhos de Stanley Kubrick, o maior de todos os grandes cineastas, foram compreendidos bem depois de suas estreias. Hoje, talvez esse tipo de reconhecimento tardio não seja possível. Ou o êxito acontece logo, ou já era. Não há segunda chance.

Ryan Gosling e Ana de Armas.
Ryan Gosling e Ana de Armas.

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O filme de Ridley Scott havia sido retalhado pelos produtores. Só depois a visão do diretor prevaleceu em home vídeo. E a trama futurista que se passa em 2019 baseada no romance Do Androids Dream of Electric Sheep? (1968), de Philip K. Dick, ganhou o devido respeito e admiração. Virou sucesso em fitas VHS. Até o lançamento de um DVD com as várias versões. Hoje Blade Runner – O Caçador de Androides é considerado um dos maiores filmes da história. Assim como 2001 – Uma Odisseia no Espaço, de Kubrick, a maior das ficções científicas.

Blade Runner 2049  é continuação digna e que expande o universo do original. Tem orçamento de blackbuster, cerca de US$ 150 milhões. E o melhor diretor da atualidade: o canadense Denis Villeneuve, cuja filmografia  perfeita tem Incêndios, Os Suspeitos, O Homem Duplicado, Sicario: Terra de Ninguém, A Chegada. É admirável que o estúdio, a Sony, lhe tenha dado liberdade criativa.

Resultado sentido, percebido em cada segundo, cada enquadramento, nos efeitos visuais que elevam o universo futurista concebido por Scott em imagem e som.

Não vale aqui dar sinopse ou adiantar trechos da trama. O que pode ser escrito é que amantes do cinema e do primeiro filme se emocionarão em cada cena, cada sequência. Ryan Gosling, Jared Leto, Ana de Armas (um achado), Robin Wright, todos estão em excelentes atuações. Harrison Ford, como se sabe, repete o papel do Replicante Rick Deckard. Há outras surpresas e referências. Porém trata-se de história atual, que intensifica a reflexão sobre o que é a vida, a existência. Até a trilha sonora de Vangelis ganha novos contornos, por Benjamin Wallfisch e Hans Zimmer.

Para ver e rever várias vezes, na melhor tela, com o melhor som.

Blade Runner 2049
Título original: Idem.
EUA/Inglaterra/Canadá, 2017.
Direção: Denis Villeneuve.
Com Ryan Gosling, Harrison Ford, Robin Wright, Sylvia Hoecks e Jared Leto.
164 min.


 

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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