Crítica | Bingo: O Rei das Manhãs (2017)

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Quase um ano atrás escrevi sobre Elis, cinebiografia da maior cantora do país. Naquela época, falava a colegas sobre o lado positivo de, mesmo com suas limitações, o cinema nacional produzia filmes de diferentes gêneros e levava ao espectador, cada vez mais, histórias biográficas. Algo comum na produção audiovisual de outras nações.

Bingo: O Rei das Manhãs é o ápice da reunião entre talento, realização, técnica e atuação que o nosso cinema já produziu. Ok, os nomes são fictícios – exceto Gretchen, claro. Mas trata-se da trajetória de Arlindo Barreto, um dos intérpretes do Bozo no Brasil.

Filho da atriz e vedete Márcia de Windsor, cresceu em meio ao showbiz e tudo o que ele traz de bom e ruim. Fez algumas pornochanchadas. Não conseguiu papeis mais profundos. Encontrou no palhaço criado em 1946 por Alan Livingston a chance de redenção. Mas havia um detalhe: por mais fama que Bozo tivesse, o público jamais saberia quem estava por trás da maquiagem. Entrou numa espiral de sexo, drogas e rock’n roll. Em âmbito pessoal, acabou afastando o filho pequeno. Brincava com todas as crianças do país, menos aquela que mais precisava de seu amor.

Sacudiu o cenário televisivo com tiradas e piadas que hoje chocam pais e mães – esses mesmos que eram as crianças nos politicamente bem incorretos anos 80. Naqueles tempos, apresentadoras de programas infantis apareciam seminuas, crianças brincavam com armas de plástico e cigarrinhos de chocolate eram vendidos numa boa.

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Sem poder usar o nome original, os realizadores transformaram Bozo em Bingo. Arlindo virou Augusto Mendes, interpretado com garra e intensidade memoráveis por Vladimir Brichta em papel pensado inicialmente para Wagner Moura. A Globo se transformou em TV Mundial, o SBT em TVP e Xuxa em Lulu. Estão todos lá. Até Vovó Mafalda e Papai Papudo são representados.

Daniel Rezende, montador de Cidade de Deus, pelo qual foi indicado ao Oscar, Tropas de Elite 1 e 2, e Robocop, estreia na direção e parece veterano. Tamanha a segurança que conduz a trama, especialmente um plano que sai do apartamento do protagonista e faz a câmera “passear” pela São Paulo de trinta e poucos anos atrás. De maneira hipnótica somos levados à década de 80 em trabalhos magníficos de direção de arte, por Cassio Amarante, e figurino, por Verônica Julian. A trilha sonora, de Beto Villares, é a força motriz da história, pontuada por canções do período, de Titãs, Dr. Silvana, Metrô e Roupa Nova.

Mais que um filme de época, e que época (!), O Rei das Manhãs é um tratado sobre a fama e seu preço e como certos artistas sucumbem e precisam superar certas adversidades. Profissionais e pessoais. Apresenta grandes atores: de Leandra Leal como a diretora do programa televisivo, Augusto Madeira, o parceiro de noitadas Vasconcelos, Emanuelle Araújo vivendo Gretchen, Tainá Muller na pele da ex-esposa, Domingos Montagner em aparição emocionante, e até ponta de Pedro Bial.

Não sei se é o melhor filme brasileiro desde Cidade de Deus, como escreveu a colega Isabela Boscov em seu blog na Veja, mas certamente está entre os maiores. Pena que tenha estreado pouco antes de It: A Coisa, sobre outro certo palhaço, e pessoas tenham confundido os lançamentos, chegando ao ponto de Vladimir Brichta precisar gravar um vídeo explicando as diferenças. Quem conferi-lo, no entanto, terá uma grata surpresa.

Bingo: O Rei das Manhãs
Brasil. 2017.
Direção: Daniel Rezende.
Com Vladimir Brichta, Leandra Leal, Augusto Madeira, Emanuelle Araújo, Pedro Bial, Tainá Müller, Cauã Martins, Domingos Montagner.
1h53min.


 

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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