Crítica | Malasartes e o Duelo com a Morte (2017)

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“Malasartes e o Duelo com a Morte” é uma positiva incursão pela fábula e a fantasia no cinema nacional.

Paulo Morelli, cujo currículo inclui a boa versão longa-metragem da série “Cidade dos Homens” (2007), e o premiado drama “Entre Nós” (2013), entrega ao espectador um filme leve. Pode soar ingênuo. Em sua sutileza entrega boas reflexões: valorizarmos quem amamos enquanto estão vivos, aproveitar os pequenos momentos, e também a linha tênue entre termos fé e nos deixarmos levar por charlatões. Mais: o que distingue a bondade da maldade?

Essas questões são apresentadas a partir do personagem título, figura tradicional dos contos populares da Península Ibérica. Aqui mostrado em meio a fazendas, rios, gado, floresta, as lendas e tradições do povo brasileiro.

Pedro Malasartes (Jesuíta Barbosa), gaiato fanfarrão, vive de pequenos golpes. Pelo caminho precisa escapar de Próspero (Milhem Cortaz), que lhe cobra uma dívida de família e não quer ver a própria irmã, Áurea (Isis valverde), nos braços do sujeito preguiçoso. Malasartes precisa também fugir da própria Morte (Júlio Andrade) encarnada: ninguém menos que seu padrinho na vida real e em busca de férias após dois mil anos ceifando vidas.

Inicialmente, o espectador poderá se lembrar de “O Auto da Compadecida”. Há certas semelhanças entre este filme e o de 2000: personagens malandros, a forma de atuar do elenco, em tom farsesco, condizente com o tom da história, o folclore.

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A diferença é que “Malasartes e o Duelo com a Morte” traz bem vindos efeitos visuais em computação gráfica durante grande parte da trama. Algo raro em nosso cinema.

Orçado em R$ 7 milhões, bastante para uma produção local, apresenta um mundo rico, onde reside a Morte, que remete à obra de Tim Burton, à animação “Festa no Céu” (2014), produzida por Guillermo Del Toro, trabalhos todos herdeiros do Expressionismo Alemão e seus contrastes entre luz e sombra, as figuras grotescas, deslocadas na sociedade. No entanto, tem personalidade própria. Ver todas as velas, de cima, é lindo, uma imagem impressionante e de bom gosto.

Alguém poderá reclamar das cenas de voo: em algumas é perceptível que os atores estão sendo levantados por cabos de aço, principalmente pela maneira como movimentam as pernas. Um detalhe técnico e que jamais depõe contra o longa. Pelo contrário, é extremamente necessário e importante que o cinema nacional se enverede por gêneros diferentes. Diretores, atores e demais profissionais da área, assim, podem se especializar, aperfeiçoar. A plateia ganha novas opções. E, a longo prazo, podemos, finalmente, sonhar em ter uma indústria de cinema no país.

Infelizmente ainda a maior parte do público está refém dos filmes estrangeiros. Há quem ainda guarde o “complexo de vira-lata” proposto por Nelson Rodrigues e tenha preconceito contra filmes nacionais. E para um longa-metragem como esse virar, quem sabe, uma franquia, é preciso ir bem nas bilheterias enquanto blockbusters dominam as salas de projeção. Missão difícil. Porém louvável.

Particularmente me diverti com o humor, as sacadas ligeiras e o carisma do elenco. Milhem Cortaz e Julio Andrade são figuras conhecidas de quem acompanha os lançamentos brasileiros. Intérpretes versáteis. Isis Valverde não se deixa fazer apenas telenovelas e tem apostado sua carreira nas telonas também. Jesuíta Barbosa carrega bem a história e ai