Crítica | Havaí (Hawaii)

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Foi finalmente lançado em DVD no Brasil o cult “Havaí”, de George Roy Hill, com Julie Andrews no auge de seu estrelato, quando era rainha das bilheterias, em 1966.
Em 2016 o longa – que foi campeão de bilheteria – teve também seu blu-ray lançado no exterior, o que não aconteceu no Brasil.

Trata-se do épico adaptado pelo lendário Dalton Trumbo do best-seller “Hawaii”, de James Michener. Trumbo insistiu em manter um final amargo e gostou muito de Julie Andrews, que impressionou a todos com seu grande talento dramático. A icônica Andrews desenvolveu uma grande amizade com o diretor Hill, que a dirigiria em seu sucesso posterior, o musical “Positivamente Millie”. O cineasta foi até afastado da produção por excesso de gastos, mas a insistência de Julie o trouxe de volta. Nada como ser estrela. Julie fez amizade também com o sueco Von Sydow, dos filmes de Ingmar Bergman e trabalharia com ele novamente em “Sede de Amar”, de Andrei Konchalovsky.

Ela se tornou muito querida por todos da equipe, começando pelo produtor Mirisch.

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O filme “Truman” mostra foto do roteirista abraçando Julie em seus créditos finais. O único enciumado foi Richard Harris que, dizem, teria ficado aborrecido com Julie por lhe dar pouca atenção. Se ele ficou enciumado, tudo passou, pois ficou junto dela o tempo todo numa homenagem a Alan Jay Lerner (autor de “My Fair Lady” e “Camelot”, com Julie, na Broadway) em Nova York, anos mais tarde.

“Havaí” é um épico para lá de dramático que conta a história de Jerusha e Abner Hale, casal de missionários ingleses encarregados de colonizar a nova terra.
A fotografia é de tirar o fôlego. O prólogo empolga com a música esplendorosa, usada pela Globo como tema de sua sessão noturna de filmes e também pela novela “Legião dos Esquecidos”.

Julie dá um show de interpretação e tem cenas incríveis, como quando passa mal na longa viagem de navio, mais tarde dando a luz sem recursos médicos, salvando um bebê de ser enterrado vivo (os nativos faziam isso quando bebês tinham manchas de nascença) e quando seu vestido pega fogo num incêndio e perto do final quando recebe uma triste notícia.

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Com sua doçura e firmeza, ela cativa a rainha Malahma, interpretada pela nativa e não atriz Jocelyn LaGarde, indicada ao Oscar de melhor coadjuvante em seu único filme. Jocelyn é responsável pelos raros momentos de humor do épico.

Porém, mais adiante, sua interpretação é mais dramática nos confrontos religiosos e de costumes. Era tradição no Havaí a rainha casar-se com o irmão, constituindo-se um incesto. Enquanto essa torna-se um ponto inaceitável para Abner, Jerusha lança um olhar de amor e compaixão.

Richard Harris, que faz o capitão Rafer, adverte Jerusha: “venha comigo de volta a Inglaterra, Abner vai matá-la nessa terra selvagem”.

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“Havaí” é uma historia de muitas tristezas que deixou o estúdio assustado com a reação do público, mas esse o aceitou inteiramente tornando-o a maior bilheteria do ano. Houve até uma continuação do filme, “O Senhor das Ilhas”, com Charlton Heston.

As discussões religiosas de Julie com Von Sydow são muito interessantes, mas enquanto o missionário irrita o espectador com sua intransigência e arrogância, a esposa vai tendo sua beleza trocada por uma expressão de sofrimento e cansaço, a qual Julie impõe com bravura.

No ótimo elenco de apoio também estão Gene Hackman, Bette Midler – numa ponta no navio – e Heather Menzies, parceira de Julie em “A Noviça Rebelde” – uma das filhas do capitão.

Cenas de beleza, violência e tragédia permeiam a história de “Havai”, producão de Walter Mirisch indicada a sete Oscars, incluindo fotografia, atriz coadjuvante, os lindos figurinos de Dorothy Jeakins, efeitos visuais, som, trilha sonora e a canção “My Wishing Doll”, que Julie canta graciosamente para sua irmãzinha. Venceu os Globos de Ouro para a atriz coadjuvante Jocelyn e canção original.

O DVD tem 162 minutos dos 189 originais, que podem ser apreciados nos extintos laser disc e vídeo importados. Traz também o trailer e o making of. Vale a pena fazer essa viagem ao “Havaí” ao lado de Julie Andrews em grande momento de beleza e talento.

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Waldemar Lopes
Waldemar Lopes

Waldemar Lopes é artista plástico, engenheiro mecânico, professor, cinéfilo. Anualmente realiza em Santos uma palestra beneficente sobre o Oscar, que se tornou tradicional na cidade. Também já realizou encontros sobre cinema para a Universidade Católica de Santos, Universidade Monte Serrat, Secretaria de Cultura de Santos e Rotary. Escreve para o CineZen e o 50 Anos de Cinema.