Adam West, o Batman dos Batmen

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No ano em que Batman volta às telonas para “Liga da Justiça”, em novembro, nos despedimos daquele do maior homem-morcego já mostrado numa tela: Adam West faleceu sexta-feira, aos 88 anos, vítima da leucemia.

Provavelmente não foi o melhor ator a interpretar o personagem – os demais foram Lewis Wilson e Robert Lowery, em seriados exibidos nas matinês cinematográficas respectivamente em 1943 e 1949 e, depois, nos longas, Michael Keaton (1989 e 1992), Kevin Conroy (1993, dublando), Val Kilmer (1995), George Clooney (1997), Christian Bale (2005, 2008 e 2012) e Ben Affleck (a partir de 2016). Kevin Conroy (1993) e Will Arnett (2014 e 2017) emprestaram suas vozes a versões animadas do Cruzado de Capa exibidas nos cinemas. Ninguém, no entanto, emocionou, fez rir, encantou e foi reverenciado ou imitado como Adam por tanto tempo. Sua carreira logicamente não se restringiu ao show televisivo. Mas ele que o levou ao estrelato.

Os fãs não viam uma encarnação “de carne e osso” do Cavaleiro das Trevas há quase duas décadas. A televisão surgiu como alternativa confortável de entretenimento e os seriados pararam de ser produzidos para as telonas. Coube à 20th Century Fox pelas mãos do experiente produtor William Dozier (“Besouro Verde”) a tarefa de criar a série que marcaria toda uma geração de fãs com a primeira aparição live action, em cores, de Batman, Robin e companhia. Durou três temporadas, 120 episódios, e rendeu um longa-metragem lançado nos cinemas visando promover o seriado internacionalmente. Todo o material está disponível em DVD no Brasil.

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É importante contextualizar o momento em que o filme e a série foram rodados: os anos sessenta, quando as cores saltavam aos olhos no movimento hippie e no rock psicodélico. Mesmo as histórias em quadrinhos publicadas pela DC nesse período traziam tramas absurdas, com os heróis indo ao espaço e dimensões paralelas, criadas pelos autores em virtude do livro “A Sedução dos Inocentes”, do psiquiatra Fredric Wertham: segundo o sujeito, os gibis eram culpados pela delinquência juvenil. Ele também sugeriu que a Dupla Dinâmica poderia ter algum affair. Houve quem comprasse a ideia. Foi criado um código que censurava diversos temas nas HQs.

Assim, é injusto dizer que o “Batman 66” destoava da essência do personagem. O ambiente colorido, o humor, as mensagens educativas, as onomatopeias eram reflexo dos quadrinhos naqueles anos. Muitos jornalistas utilizariam o termo “camp” para se referir a essa fase. A verdade é que milhões de pessoas tiveram o primeiro contato com o vigilante nesta versão. E Adam West, então perto dos 40 anos, defendeu Bruce e Batman da melhor forma. Era meio desajeitado, tinha barriguinha saliente. E também carisma, classe, uma certa cara de pau condizente com aqueles tempos. Teve dificuldades para conseguir outros papéis após o cancelamento da série. Abraçaria, depois, o legado: dava ótimas entrevistas, participava de convenções, festivais. Sempre sorridente e orgulhoso.

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Os vilões eram interpretados por atores consagrados. Cesar Romero (1907-1994) deu vida a um Coringa ensandecido. Não era problema se o bigode coberto de maquiagem ficava perceptível. O ator não queria se desfazer daquilo que, segundo ele, tinha lhe proporcionado tantos trabalhos. Burgess Meredith (1907-1997), o Pinguim, ficaria famoso como o treinador de Rocky Balboa no cinema, Mickey. Frank Gorshin (1933-2005), com seu porte atlético e olhos de lince davam ao Charada o ar necessário para alguém enlouquecido. Mulher-Gato teve três atrizes diferentes: a incomparável Julie Newmar e Eartha Kitt na TV (artista negra, em caso precursor da diversidade no universo pop), e Lee Meriwether no filme. Todos carismáticos e, para muitos, as versões definitivas desses vilões.

O programa de tevê e o longa-metragem deram vida à primeira “Batmania”: brinquedos, materiais escolares, itens para uso doméstico. Itens são disputados por colecionadores mundo afora ainda hoje.

Em julho de 2014, ano dos 75 anos de Batman, Adam West, Burt Ward e Julie Newmar foram convidados para participar da San Diego Comic-Con, maior evento de cultura pop do mundo, e foram ovacionados pela plateia. Prova de que, mesmo quase cinquenta anos depois, aquele Batman ainda era lembrado com carinho e tinha relevância entre os fãs. Em 2016, West, Yard e Newmar dublaram seus antigos personagens na animação “O Retorno da Dupla Dinâmica”, exibida um dia no cinema e lançada em home vídeo. A DC passou a publicar histórias em quadrinhos passadas no universo do seriado. Os fãs amaram.

Adam West se foi. Seu Batman é imortal.

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André Azenha
André Azenha

Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora quinzenalmente com a Rádio CBN Santos e assina o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. É membro da Abraccine - Associação Brasileira dos Críticos de Cinema. Ministra cursos e palestras sobre crítica de cinema e jornalismo cultural. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos.