Crítica | The Get Down

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Na semana que o mundo debate, em sua maioria por motivos justos, “Os 13 Porquês”, escrevo sobre outra série igualmente produzida pelo serviço de streaming Netflix.

“The Get Down” talvez seja dos seriados mais “cinematográficos”. Seus seis primeiros episódios foram lançados pouco depois da sensação “Stranger Things”, essa uma homenagem aos anos 80. No último dia 7 a plataforma disponibilizou os cinco restantes que completam a primorosa e inspirada primeira temporada.

O cinema está na essência do programa. Trata-se de uma série musical, gênero que marcou época em Hollywood e voltou com força total esse ano com os sucessos de “La La Land” e “A Bela e a Fera”. E mais: quem assina a produção é Baz Luhrmann, indicado ao Oscar por “Moulin Rouge: Amor em Vermelho” (2001), um dos musicais mais arrebatadores dos últimos anos.

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Passada no conturbado Bronx dos anos 70, a história acompanha o surgimento do hip hop pelos olhos do jovem Ezekiel Figuero (Justice Smith). O protagonista perdeu os pais para o crime. É criado pelos tios. Gosta de escrever poesias. Tem talento. E se vê dividido entre seguir o caminho musical numa cultura então emergente e marginalizada, ou fazer faculdade. Torna-se amigo de Shaolin Fantastic (Shameik Moore), DJ pupilo do lendário Grandmaster Flash. Se apaixona por Mylene Cruz (Herizen Guardiola), de voz vibrante e igualmente numa encruzilhada: entre tornar-se estrela disco ou seguir os caminhos do pai extremamente religioso.

Zeke, Shaolin e Mylene são personagens fictícios. Epelham milhares de jovens que viveram no bairro. Flash é real, tal qual outra lenda do hip hop, Afrika Bambaataa e a Zulu Nation. A trama segue assim, misturando fantasia e realidade de maneira envolvente e apresentando figuras com as quais nos importamos, torcemos, tememos, das principais às secundárias.

As situações são pontuadas pela trilha musical empolgante que reúne clássicos da disco music (Donna Summer à frente), em alta até então e, aos poucos, tornando-se obsoleta frente às novas tendências musicais: além do rap, havia o punk rock surgindo e citado no último episódio, na breve aparição do membro de uma querida banda (não vale estragar a surpresa).

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Eram tempos de transformação na periferia nova-iorquina, das gangues, desemprego. As comunidades negra e latina tentavam sobreviver. Edifícios eram incendiados por seus próprios donos, que tentavam conseguir o dinheiro do seguro.

A dica é conferir “The Get Down” e, se possível, na sequência (ou antes, se preferir) o documentário “Rubble Kings” (2010), também disponível na Netflix e sobre o mesmo período. E, ainda, o cult “Warriors – Os Selvagens da Noite” (1979), de Walter Hill. As três obras dão um panorama amplo do que era o Bronx no fim dos anos 70 e como aqueles acontecimentos mudariam (ou seriam pontos de partida para a discussão de) muita coisa na sociedade norte-americana, especialmente na cultura.

Produção mais cara do Netflix até então, é possível perceber cada dólar investido nos direitos das canções e nos cenários que remetem aos sonhos de garotos que tentavam ter alguma perspectiva. Infelizmente, muitas das questões sociais levantadas e refletidas na série ainda são realidade não só nos EUA, mas no Brasil: apropriação cultural, machismo, fanatismo religioso, políticos manipuladores, líderes comunitários que se aproveitam para enriquecer, etc. Por tudo isso e trazer à tona bastidores do show business e muito mais é que vale a pena descobrir e conferir essa obra-prima.

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André Azenha
André Azenha

Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora quinzenalmente com a Rádio CBN Santos e assina o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. É membro da Abraccine - Associação Brasileira dos Críticos de Cinema. Ministra cursos e palestras sobre crítica de cinema e jornalismo cultural. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos.