Crítica | A Bela e a Fera (Beauty and The Beast)

bela

“A Bela e a Fera” tem sua essência mantida e apresentada em diversas versões: na literatura, na televisão e no cinema, como o clássico de John Cocteau (1946) e filmes cuja influência do conto original é presente do começo ao filme, a exemplo de “King Kong”.

Só nos últimos anos foram produzidas duas visões para a fábula. “A Fera” (2011), releitura “contemporânea” e teen com Vanessa Hudgens (“High School Musical”). Em 2014, houve o filme franco-alemão estrelado por Léa Seydoux e Vincent Cassel.

Ambas mantém a mensagem sobre o que importa é a beleza interior. Nenhuma alcançou a profundidade, a complexidade ou a magia da animação de 1991. Parte do Renascimento do estúdio que deu ao mundo sucessos de público e crítica como “A Pequena Sereia” (1989), “O Rei Leão” (1994) e “Pocahontas” (1995), aquele “A Bela e a Fera” teve êxitos inigualáveis.

bela2

Foi o primeiro longa animado indicado ao Oscar de melhor filme. Na mesma temporada foram lançados “O Silêncio dos Inocentes”, “JFK: A Pergunta Que Não Quer Calar”, “Thelma & Louise”, “O Pescador de Ilusões”, “Cabo do Medo”, “Os Donos da Rua”. Naquela época apenas cinco produções eram finalistas e também não havia a categoria específica do gênero. Levou as estatuetas de trilha sonora, canção e ainda concorreu a melhor som e duas músicas. No Globo de Ouro, levou filme em comédia/musical e igualou os prêmios da Academia em trilha e canção. Arrebatou quatro troféus no Grammy. Alcançou a maior bilheteria na história da Disney até então. Em 2002, foi selecionado para preservação no National Film Registry pela Biblioteca do Congresso por ser “culturalmente, historicamente ou esteticamente significante”.

Todas as conquistas não se deram apenas a aspectos técnicos e estéticos. Essa Bela não é uma princesa Disney igual às demais. Independente, intelectual, esnoba o galã (no caso, Gaston), é enxergada com preconceito e inveja pelo restante de sua comunidade justamente por não se deixar levar pelo senso comum. Não se encaixa. Nem por isso deixa-se abater.

O novo “A Bela e a Fera” é praticamente uma refilmagem com atores do clássico de 26 anos atrás. Meio uma versão estendida que insere novas músicas para justificar a metragem: 129 minutos para 84 do anterior. Integra a leva de adaptações live action para animações marcantes da empresa: recentemente vimos “Mogli”, “Cinderela”, “Malévola”. É justificável. Crianças atuais nem sempre curtem os desenhos feitos à moda antiga, à mão. O mundo, a sociedade, o contexto mudaram. Ok.

bela3

Como aquele enredo estava um pouco à frente de sua época, também é compreensível que o remake praticamente repita cena a cena. Para quem não viu, o encantamento poderá ser parecido. Moradora de pequena aldeia francesa, a protagonista tem o pai (Kevin Kline) capturado pela Fera (Dan Stevens, egresso da série “Downton Abbey”). Oferece-se em troca da liberdade do parente. No castelo, conhece objetos vivos e descobre que a Fera é, na verdade, não tão monstruosa assim. A criatura é um príncipe vítima do feitiço de uma camponesa para entender que, o importante, é a beleza interior. Para libertar-se, precisa amar e ser amado.

O diretor Bill Condon (responsável pelos dois últimos de “A Saga Crepúsculo”), mas também o musical “Dreamgirls”, pesa a mão no visual. Diferentes de produções semelhantes, nas quais os efeitos visuais nos fazem acreditar na realidade do que vemos, as paisagens e ambientes do filme parecem saídas dos livros, dos contos. Não me incomodou como aos colegas. A escolha de Emma Watson para o papel principal, feminista na vida real, condiz com o caráter de Bela. Por outro lado, falta carisma à Hermione da saga “Harry Potter” – talvez seja implicância minha, na segunda vez que vi o filme gostei mais de sua presença. O fato de ser atriz caricata não prejudica tanto a trama justamente pelo tom fábula, exagerado.

Com grandes números musicais e figurinos, direção de arte e efeitos que  trazem á tona o orçamento estimado de US$ 160 milhões, o longa possui momentos emocionantes e deve fazer sucesso. Mais um da Disney que, ano a ano, vai dominando Hollywood lançando suas animações e as da Pixar, os projetos da Lucasfilm e da Marvel, marcas pertencentes ao conglomerado.

A Bela e a Fera
Beauty and the Beast
EUA. 2017.
Direção: Bill Condon.
Com: Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Josh Gad, Kevin Kline, Ian McKellen, Emma Thompson, Stanley Tucci, Audra McDonald.
129 minutos.


 

As opiniões embutidas nos textos são dos seus respectivos autores, e não refletem necessariamente a opinião do site ou de seu editor.
André Azenha
André Azenha

Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora quinzenalmente com a Rádio CBN Santos e assina o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. É membro da Abraccine - Associação Brasileira dos Críticos de Cinema. Ministra cursos e palestras sobre crítica de cinema e jornalismo cultural. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos.