Crítica | Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake)

eu daniel blake 2

Quando uma pessoa não cumpre mais suas obrigações com o Estado, como pagar impostos, suas contas mensais, participar ativamente como consumidor/cliente no dia-a-dia, passa a não ser mais visto como um cidadão, mas sim como alguém à margem da sociedade. Mas e quando é o Estado que não cumpre as suas obrigações com o cidadão que contribui com a mão-de-obra para fazer “a máquina” funcionar? Como o Estado passa a ser denominado?

Quantas vezes, diariamente, pessoas morrem esperando atendimento médico em filas de hospitais, por falta de leitos, de medicamentos ou médicos? Quantas vezes, para resolver algo como um processo espera-se tempo demais para chegar a um resultado? Quantas horas passamos ao telefone, tentando resolver coisas que, a princípio, parecem corriqueiras, mas que acabam se transformando num transtorno?

O protagonista que dá título ao longa do inglês, Ken Loach (atualmente, um dos cineastas mais engajados politicamente), “Eu, Daniel Blake”, acaba sendo vítima do Estado e de circunstancias inacreditáveis ao sofrer um infarto trabalhando com carpintaria.

eudanielblake3

Os médicos logo dão o laudo: terá que ficar afastado do trabalho. Ao contrário dos médicos, o Estado diz que ele está apto para voltar a exercer suas atividades de carpinteiro. Isso acaba colocando a vida de Daniel Blake em xeque: afinal, os médicos não lhe dão permissão para voltar ao trabalho, enquanto que o Estado lhe diz para procurar emprego, mesmo ainda se recuperando do ataque cardíaco que sofrera. O protagonista só quer o que lhe é de direito: seja voltar ao seu ofício, seja receber um auxilio por se afastar do trabalho devido às suas condições.

A vida de Daniel ganhará uma nova perspectiva ao conhecer Katie, mãe solteira com um casal de filhos pequenos, que também está com problemas para receber a ajuda necessária do Estado. São pessoas boas, colocadas em situações-limite e humilhantes, que encontram um laço de solidariedade e amizade em meio ao caos que os rodeia.

“Eu, Daniel Blake” é um filme que me deixou não apenas um tanto entristecido, porém revoltado por ver como muita gente é colocada à margem da sociedade, em situações de abandono, devido à burocracia feita por “burrocratas”. É uma falta de consideração, de respeito, de solidariedade com quem precisa ser visto como um cidadão, como um ser humano e não apenas como mais um que faça parte da lista.

Acho que esqueci de dizer: o filme, por incrível que pareça, não se passa no Brasil, mas numa cidadezinha da Inglaterra, mas bem que poderia se passar aqui. Infelizmente…

Eu, Daniel Blake
I, Daniel Blake
2016. Inglaterra / França / Bélgica.
Direção: Ken Loach.
Com David Johns, Hayley Squires, Briana Shann, Dylan McKierman.
1h40min.


 

As opiniões embutidas nos textos são dos seus respectivos autores, e não refletem necessariamente a opinião do site ou de seu editor.
Marcelo Reis
Marcelo Reis

Marcelo Reis nasceu no finalzinho dos anos 70, É jornalista por formação, assistente administrativo por ocupação e cinéfilo de coração. Apaixonado por cinema desde os 13 anos (quando uma cirurgia o obrigou a ficar 6 meses de cama), tem um carinho todo especial por musicais, dramas, comédias românticas (‘Harry & Sally – Feitos um para o Outro” é sua favorita), romances e filmes do Woody Allen. Quase sempre, se identifica do lado de cá com algum(a) personagem da telona ou da telinha.