50 Anos de Bonnie & Clyde: Uma Rajada de Balas

Quando Warren Beatty e Faye Dunaway subiram ao palco do Teatro Dolby de Los Angeles para anunciarem o prêmio de melhor filme na 89ª cerimônia do Oscar, mal sabiam que o momento ficaria marcado pela maior gafe na história da premiação. Que ofuscou os grandes momentos da noite. Por exemplo, a celebração de 50 anos de “Bonnie & Clyde: Uma Rajada de Balas”.

Para festejar as cinco décadas do clássico os dois astros veteranos marcaram presença na festa. O preconceito contra idosos fez diversas pessoas acharem que a falha era culpa deles. Não. Foram vítimas da situação. Vale recordar o longa que, ao lado de “Easy Rider – Sem Destino” (de dois anos depois), transformou o cinema dos EUA.

Anos 60. Período de transformação política e social. Busca pelos direitos civis. Panteras Negras. Hippies. Rock psicodélico. Inconformismo com a Guerra do Vietnã. Pop art. O mundo mudava a passos largos. Hollywood demorava a entender as mudanças. A Era de Ouro dos estúdios chegava ao fim. O fracasso retumbante de “Cleópatra” (1953), com Elizabeth Taylor, era a pá de cal num sistema que produzia filmes cada vez mais distantes da realidade. Os norte-americanos não se enxergavam mais nas superproduções e seus heróis. Viam filhos, irmãos, amigos, irem à guerra e não voltarem. Caso voltassem, estavam aleijados, física e psicologicamente.

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Uma nova geração de cineastas baby boomers precisou surgir para que o cinema do país voltasse a ter relevância e vivesse a fase mais inspirada de sua história: Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Peter Bogdanovich, Michael Cimino, Paul Schrader, George Lucas, Steven Spielberg, Brian De Palma e outros jovens diretores, influenciados por tudo descrito acima e a nouvelle vague francesa, conceberam clássicos seguidos por clássicos num curto período de tempo. E se puderam ousar, debater e refletir temas como violência, sexo, política, transcender e subverter gêneros cinematográficos, muito é devido ao êxito de “Bonnie & Clyde”.

O filme romanceia a história real de Bonnie Parker (Beatty) e Clyde Barrow (Dunaway). O casal de assaltantes de banco e assassinos aterrorizou os estados centrais numa das épocas mais sensíveis daquela nação: a Grande Depressão.

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Dirigida por Arthur Penn, a obra foi a vitória pessoal de Warren Beatty. Idealizador e produtor do projeto, o astro garanhão topou o desafio de viver o sujeito charmoso, carismático, mas impotente, que supera as dificuldades sexuais ao portar sua arma de fogo. O ator colocava em risco, assim, sua reputação ante plateias conservadoras. Abriu mão do salário convencional por 40% da bilheteria total. O estúdio não acreditava no filme. Beatty virou milionário e dos profissionais mais influentes da indústria.

O ritmo alucinante, a violência realista e, por vezes, estilizada e glamourizada, mais o fato dos heróis serem ladrões, levaram mentes antiquadas ao desespero. O público, no entanto, tal qual a comunidade na vida real décadas antes, viu nos protagonistas e seus amigos uma turma de revolucionários, de Robin Hoods. Que iam contra o status quo: os bancos, representantes, no caso, dos poderosos, dos credores, dos inescrupulosos. Eram a novidade contra o antigo, o ultrapassado.

Teve dez indicações ao Oscar – venceu atriz coadjuvante (Estelle Parsons) e fotografia – merecia mais, mas acabou boicotado pela ala mais bunda mole da Academia. Revelou Gene Hackman ao mundo, transformou Faye Dunaway em estrela e influenciou de “O Poderoso Chefão” (1972), à filmografia de Quentin Tarantino e produções de outros países como a brasileira “Cidade de Deus” (2002).

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Bonnie & Clyde: Uma Rajada de Balas
Bonnie & Clyde.
EUA. 1967.
Direção: Arthur Penn.
Com Warren Beatty, Faye Dunaway, Gene Hackman, Michael J. Pollard, Estelle Parsons, Gene Wilder.
1h51min.


 

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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