Crítica | Wolverine: O Velho Logan (Old Man Logan)

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Existem personagens que, pelo conceito, te obrigam a acompanhar tudo que é quadrinho que tem seu nome estampado na capa. é (ou era) o caso de Wolverine, e após a estreia do excelente “Logan” nos cinemas, me sinto obrigado a comentar a série que inspirou parte da premissa do filme.

Escrita por Mark Millar, que faz seus roteiros quadrinisticos com cara de roteiro de cinema, já com essa finalidade de obter direitos financeiros caso suas obras sejam adaptadas, e desenhada pelo elegante Steven Mc Niven, que é um dos maiores artistas da Marvel na atualidade, publicada originalmente no Brasil nas edições da revista Wolverine da Panini, a partir do número 57, em agosto de 2009, que eu confesso, não comprei na época por não ter me chamado a atenção; Mas após certo barulho entre os fãs, acabei adquirindo quando a mesma foi republicada em setembro de 2014 como encadernado da edição nº 58  da coleção capa preta da Salvat.

Matando minha curiosidade, me deparo com um grisalho e medroso Wolverine, que vive com sua esposa e um casal de filhos numa fazenda no deserto de Sacramento, Califórnia. Nesse futuro próximo, após eventos bizarros, os vilões dividiram a América do Norte e constituíram pequenos feudos, no caso, o Hulk (agora maligno) e suas dezenas de filhos verdes, canibais  e brutais controlam o território onde vive o pacífico Wolverine.

Crítica | Logan

Logan é obrigado a trabalhar na fazenda para sobreviver, plantando e criando animais para revenda, e obrigado a pagar tributos mensais à família Hulk, sob risco de serem todos assassinados. A cena em que os filhos do Hulk intimidam o idoso Wolverine para que pague os tributos, ameaçando sua família e inclusive lhe dando uma surra, já escancara a situação do herói que, por conta de um trauma envolvendo os X-Men no passado e não revelado até o último capítulo da série, o torna submisso e incapaz de revidar à injusta agressão, sendo questionado até por seus filhos e esposa a razão de tamanha covardia – as semelhanças com o filme “Logan” param por aí, apenas a questão de um Wolverine covarde e se escondendo do mundo, nem temos uma filha com poderes iguais, como a X-23 do filme, que até existe nos quadrinhos, mas é uma adulta e não tem relação alguma de afetividade ou proximidade com o pai.

Voltando ao quadrinho, em razão da falta de dinheiro e um prazo exíguo para pagar suas obrigações financeiras, surge um antigo amigo lhe propondo trabalho. O amigo, no caso, é o Gavião Arqueiro, totalmente cego, e o trabalho é dirigir para o Arqueiro até o lado oposto do país, na costa leste, para entregar uma encomenda misteriosa, e com todos os riscos envolvidos em atravessar territórios dominados por ex inimigos dos heróis, mas sendo muito bem pago por isso.

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Ao longo da jornada, Wolverine deixa escapar algumas pistas dos motivos que o tornaram pacifista à contra gosto, ao passo em que o Gavião Arqueiro não deixa escapar que a jornada tem outros propósitos, muito mais perigosos que o revelado inicialmente ao mutante.

Para não soltar spoilers, resta dizer que, por conta de algumas reviravoltas, o velho Logan, matador e sanguinário volta à suas origens, numa sede de vingança típica dos seus melhores momentos, como na série “Eu, Wolverine” de Chris Claremont e Frank Miller, terminando, como e esperado, num banho de sangue irracional.

Ultrapassada a explicação da temática, resta dizer que a premissa é muito boa, se for analisada superficialmente, trata de um herói convalescido, seja por uma doença física ou um trauma psicológico, tentando erguer uma vida decente, criando família e cuidando do seu sustento honestamente, até que chega o ponto sw defender tudo que lhe resta de maneira radical, nos lembrando as premissas dos primeiros filmes  da série “Desejo de Matar”, com Charles Bronson.

Enfim, o quadrinho peca, bem diferente do filme, no cenário pós apocalíptico criado por Mark Millar: a nova ordem mundial é totalmente mal explicada e bizarra ao ponto de incomodar o leitor, como a forçada de barra para tornar o Hulk um vilão sem explicação ou nexo. Afinal, Wolverine sempre teve inimigos aos montes, e sempre orbitou personagens mais dúbios que o Hulk, que poderiam perfeitamente ocupar o papel de senhor Feudal. Aliás, o próprio Hulk foi retratado como um senhor feudal cruel e assassino em série própria, chamando a si mesmo de Maestro num futuro alternativo, mas era inteligente e cruel ao mesmo tempo, já o rascunho de vilão criado por Millar o descreve como um canibal idiotizado, sem limites em razão para sua força ilimitada, até o seu final foi indigno.

Justamente por essa razão, posso afirmar que “Velho Logan” é uma história em quadrinhos ruim, com uma boa premissa, porém muito mal executada. Figura entre os únicos trabalhos abaixo da média de Mark Millar, que até contaminou o seu artista, pois Mc Niven se esforça, sem chegar perto do brilhantismo quando desenhou “Guerra Civil”. Não seria mentira afirmar que Millar não consegue ser tão brilhante em personagens consagrados como é com suas próprias criações, com raras exceções como no caso dos Vingadores versão Ultimate, ou “Guerra Civil”, que apesar de ser uma ótima história, peca nas caracterizações dos personagens clássicos da Marvel. Só que mesmo sendo uma história ruim, pois com a última bagunça no universo Marvel, e com o Wolverine morto atualmente nas HQs, trouxeram a versão Velho Logan para interagir com os outros heróis, inclusive a revista tem título próprio pela Panini, dividindo com histórias solo de sua filha X-23. Então preste atenção caso forem correr para comprar as revistas.

E para não dizer que só falo mal do Mark Millar,  o próprio  escreveu o Carcaju atual numa série chamada “Wolverine: Inimigo do Estado”, em 12 edições desenhadas por John Romita Junior, com uma premissa bem básica:  o mutante vítima de controle mental, transformado no indivíduo mais perigoso do universo Marvel, com bastante matança no estilo do longa-metragem em cartaz nos cinemas, mas com um final feliz. Até recomendo, se formos levar em consideração: se o final fosse trágico, seria o início da história de “Velho Logan”.

Só para constar, as melhores histórias de Wolverine ainda são as dele nos X-Men escritas por Claremont e Byrne, principalmente as com a Tropa Alfa, que tinham certa relação com o passado dele, até então um mistério. Já entre as histórias solo, as melhores são a já citada “Eu, Wolverine” de Claremont e Miller, e  “Arma X”, de Barry Windsor-Smith.

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Wolverine: O Velho Logan
Old Mand Logan
Editora Salvat.
Escrito por Mark Millar.
Arte: Steven McNiven.

 

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Fabio Gomes Ribeiro
Fabio Gomes Ribeiro

Santista de 1976, formado em Publicidade e em Direito, desenhista por hobby, escrevente judiciário por ocupação, e colecionador de quadrinhos compulsivo com mais de 20 mil quadrinhos no acervo. Apaixonado por HQs desde os 10 anos, sempre se interessou pelos bastidores da produção da nona arte no Brasil e no mundo. Já brincou de fundar site, fórum de discussão e até editora de quadrinhos, mas atualmente se dedica exclusivamente a Santos Comic Expo, que é um evento que reúne artistas de quadrinhos e fãs de cultura pop em geral na Baixada Santista.