Crítica | Logan (Logan)

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“Logan” é o terceiro filme solo de Wolverine. O nono e último em que Hugh Jackman interpreta o personagem. É o melhor de todos. Iguala “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (2008) em ambição e profundidade. Ambos são filmes que não esqueceram sua matéria prima, as HQs, mas miraram além.

Seriedade nem sempre é sinônimo de bom cinema. Vide o universo estendido atual da DC nas telonas. No entanto, Christopher Nolan na trilogia do Homem-Morcego e agora James Mangold conceberam obras que não se preocupam apenas em agradar fanboys adolescentes. Abordam temas densos, dialogam com o mundo contemporâneo e não limitam esses trabalhos ao nicho de onde vieram.  Não à toa “Logan” teve lançamento mundial no Festival de Berlim e foi ovacionado.

A comparação entre Batman e Wolverine surgirá mais de uma vez no texto. Provavelmente por que sejam duas das figuras mais trágicas das editoras DC e Marvel.

Ganância, preconceito, a forma como nos isolamos cada vez mais, a necessidade de nos darmos o direito de reservar um tempo para quem amamos – no caso, a família (que não precisa ser o modelo tradicional). “Logan” possibilita diversas reflexões. Inclusive a maneira como tratamos os mais velhos. Principalmente aqueles que precisam de cuidados especiais. Eu, com parente próximo em situação parecida ao Professor Xavier, me identifiquei bastante.

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Graças ao sucesso de “Deadpool” (2016), de classificação indicativa igual (17 anos lá fora e 16 no Brasil), executivos da Fox deram liberdade criativa.  O diretor – responsável pelo segundo da trilogia, “Wolverine: Imortal” (2013) – e o astro realizaram uma trama para maiores, descendente dos westerns, dos road movies, de fuga, repleta de ação e sentimentos. Inspirada levemente na HQ “Velho Logan“.

2029. Os mutantes foram praticamente extintos. Wolverine faz bico de motorista particular (um Uber luxuoso). Cuida do nonagenário Professor Xavier (Patrick Stewart). Os dois e Caliban (Stephen Merchant) vivem reclusos na paisagem árida do sul, divisa mexicana. Desgastado, cheio de cicatrizes físicas e emocionais, o veterano mutante é procurado por Gabriela (Elizabeth Rodriguez). A enfermeira pede proteção à pequena Laura (Dafne Keen), perseguida por mercenários. Mais detalhes podem estragar as (boas) surpresas da história.

Há 17 anos, “X-Men – O Filme” inaugurou a retomada das produções cinematográficas baseadas em quadrinhos. Desde então foram dez estrelados pelos mutantes. Eles representam as minorias, os marginalizados, os perseguidos e oprimidos. Se nos anos 60 Professor Xavier e Magneto eram reflexos de Martin Luther King e Malcon X, é curioso como “Logan” traduz os Estados Unidos atuais. No momento em que o presidente Donald Trump quer levantar um muro e impedir a entrada de imigrantes, a nova geração de mutantes vem do México e, em sua jornada, precisa sair da “América” para encontrar a paz.

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Como outros longas de heróis recentes, não faltam referências. Os próprios gibis são folheados e possuem papel importante na ação. Alguns fãs enxergam semelhanças na trama com “O Cavaleiro das Trevas”, não o filme, mas a graphic novel de 1986 escrita e desenhada por Frank Miller. Nela, um veterano e cansado Batman volta à ativa e tem uma assistente adolescente.

As principais referências, no entanto, agradam mais aos cinéfilos que os leitores de HQs. Da franquia, lembramos de “X-Men 2 (2003), quando o protagonista também protegeu crianças. E dos combates na floresta de “X-Men: O Confronto Final” (2006).  Uma cena inteira do faroeste “Os Brutos Também Amam” (1953) será fundamental na transformação de Laura. O título nacional do clássico, por sinal, se encaixa perfeitamente em Wolverine. Anti-herói, desbocado, agressivo. Que se isolou após tantas perdas durante as décadas. Ao mesmo tempo assumiu os cuidados de seu tutor e protege a menina. Essa uma relação conhecida, vista nos recentes “Um Santo Vizinho” (2014), com Bill Murray, e “The Fundamentals of Caring” (2016), com Paul Rudd. Em todos o adulto inicialmente reluta em cuidar de alguém mais novo, fora dos padrões, e acaba conquistado, tornando-se a figura paterna.

De “O Cavaleiro das Trevas Ressurge” (2012), episódio final da trilogia criada por Nolan, temos o legado, aquela pessoa a quem o herói precisa passar o bastão.

As atuações são intensas. Jackman e Stewart encarnam seus personagens de corpo e alma e Dafne Keen, de 11 anos, é uma revelação.

Apresentando um dos melhores finais de filmes dos últimos tempos, James Mangold coroa seu trabalho com música na voz de Johnny Cash, artista cuja cinebiografia ele dirigiu em 2005. Não poderia ser mais certeiro.


Logan
Logan
EUA. 2017.
Direção: James Mangold.
Com Hugh Jackman, Dafne Keen, Patrick Stewart, Boyd Holbrook, Stephen Merchant, Elizabeth Rodriguez.
2h17min.


 

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André Azenha
André Azenha

Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora quinzenalmente com a Rádio CBN Santos e assina o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. É membro da Abraccine - Associação Brasileira dos Críticos de Cinema. Ministra cursos e palestras sobre crítica de cinema e jornalismo cultural. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos.