O Oscar das gafes

Equipe de "Moonlight" celebra prêmio. (Foto: site Oscar).

Equipe de “Moonlight” celebra prêmio. (Foto: site Oscar).

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Quem diria que o Oscar 2017 entraria para a história como o Oscar das gafes?

O último segmento, o mais importante da cerimônia – o de melhor filme – tornou-se a maior trapalhada da história do Oscar, ofuscando os acertos da cerimônia.

A Academia, querendo homenagear os 50 anos do clássico “Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas”, convidou os astros veteranos Warren Beatty e Faye Dunaway para entregarem o prêmio. Warren abriu o envelope, parecia fazer suspense, hesitou, brincou e por fim deu à Faye o cartão com o resultado. Ela leu entusiasmadamente, “La La Land”. Com a equipe do musical já no palco, eis que surge no palco alguém com o cartão certo e o nome de ”Moonlight – Sob a Luz do Luar” como vencedor. Warren explicou que o envelope que tinha era o de Emma Stone, vencedora do prêmio de atriz.

O apresentador Jimmy Kimmel brincou e disse que iria ser responsabilizado pela falha e que provavelmente não voltaria no ano seguinte. Responsabilizados por estarem em idade avançada, Dunaway e Beatty não eram culpados.

Na verdade, o envelope do prêmio de Stone havia sido dado a ele. A empresa de auditoria PriceWaterhouseCoopers responsável pela contagem de votos e entrega dos envelopes com os nomes dos vencedores assumiu o erro e disse que iria apurar. Emma Stone disse que manteve seu envelope original a pedido de Leonardo DiCaprio, que lhe entregou o prêmio pela atuação em ”La La Land”. Aliás, como eu havia chamado a atenção logo após o anúncio de sua indicação, Stone juntou-se ao seleto grupo de três atrizes vencedoras do Oscar por musicais, todas ícones – Julie Andrews, por sua estreia em ”Mary Poppins”, Barbra Streisand, por sua estreia em ”Funny Girl – A Garota Genial” e Liza Minnelli, por “Cabaret”. As perguntas que pairam no ar e que precisam ser esclarecidas são quem entregou o envelope errado ao Beatty e onde estava o envelope correto. Um vexame, celebrado com muitos memes super divertidos.

Na verdade, sendo o Oscar uma festa ao vivo, tudo pode acontecer. Já houve Oscar recusado por Marlon Brando e George C. Scott, nudez frontal no palco de um praticante de ”streaking”, uma ”fad” das pessoas correrem nuas em público do início dos anos 70, vaias para Vanessa Redgrave, atraso pelo apresentador Jack Lemmon por ter ido ao banheiro – ”adivinhem onde eu estava?” – disparou o comediante. Mas nada igual a essa gafe.

E não foi a única. Outra gravíssima foi a exibição da foto da produtora Jan Chapman, super viva, no lugar da figurinista falecida Janet Patterson. Também Auli’i Cravalho, a cantora da música tema de ”Moana”, assustou-se com uma manobra da coreografia do balé, atingida na lateral do rosto com uma bandeira.

Enfim, tudo remetia à frase tornada lendária por Bette Davis no clássico “A Malvada”, indicado, como “Titanic’ e “La La Land”, a 14 Oscars: ”apertem os cintos, estamos para ter uma noite daquelas”.

Só que ”La La Land” não teve a mesma sorte desses dois vencedores de melhor filme. Teve seis Oscars importantes – o sexto a receber tal número de prêmios na historia – desenho de produção, fotografia, trilha sonora, canção original – a linda ”City of Stars”, diretor – o mais jovem da história, Damien Chazelle, de 32 anos – atriz, para
Emma Stone.

Seu concorrente mais forte, ”Moonlight”, recebeu o de melhor filme, ator coadjuvante – o primeiro para um ator muçulmano, Mahershala Ali, e roteiro adaptado. “Moonlight” se deu muito bem, pois também havia vencido o ”Independent Spirtis” na véspera. Foi uma grande vitória para o filme independente, só com atores negros, todos ótimos. Um verdadeiro contra ataque ao ”oscarsowhite” do ano passado, e da diversidade, pois o filme ainda fala sobre homossexualidade, que foi a causa da perda de ”Brokeback Mountain” em 2006.

As outras premiações eram esperadas: atriz coadjuvante para a grande e muito emocionada Viola Davis, por ”Um Limite Entre Nós” e ator para o astro de ”Manchester à Beira-Mar” Casey Affleck, que fez o irmão na plateia e também vencedor do Oscar, Ben Affleck, chorar. ”Manchester” também recebeu o Oscar de roteiro original. Houve ainda dois Oscars para o excelente “Até o Último Homem”, do diretor vencedor Mel Gibson – “Coração Valente” – mixagem de som e edição, e um para ”A Chegada”, de edição.de som.

Receberam um Oscar também ”Esquadrão Suicida” – maquiagem, ”Animais Fantásticos e Onde Habitam – figurinos, ”Mogli – O Menino Lobo” – efeitos visuais, ”Zootopia” – animação e o iraniano ”O Apartamento”, com uma carta do diretor Asghar Farhadi em tom político anti Trump que foi muito aplaudida. Para os demais vencedores, veja a lista abaixo.
Saíram de mãos abanando os demais filmes indicados ao Oscar de melhor filme – os ótimos ”Lion – Uma Jornada para Casa”, ”Estrelas Além do Tempo” e o bom western moderno ”A Qualquer Custo”.

A cerimônia teve o humor ácido de Jimmy Kimmel: ”estamos sendo vistos por milhões ao redor do mundo que agora nos odeiam”, brincou com Meryl Streep, chamando-a de ”superestimada” – fazendo uma alusão à crítica de Trump à mais indicada atriz da história – essa foi a vigésima, por ”Florence – Quem é Essa Mulher”.

Jimmy recebeu um grupo de turistas no Dolby Theatre, que se maravilharam com a surpresa e perguntou qual era o problema porque o presidente Trump não havia ”tweetado” nada. Brincou com Justin Timberlake, que abriu a cerimônia com a alegre e dançável canção indicada ”Can’t Stop the Feeling”, de ”Trolls” – ”a gente te entende, pode voltar para sua banda antiga”, imitou cena de ”O Rei Leão” erguendo bem alto o adorável ator mirim de ”Lion’, Sunny Pawar. Periodicamente, despencavam sacos brancos com guloseimas do alto sobre a plateia, com os atores as disputando. Ah, e Gabriel Garcia Bernal destacou que era absolutamente contra ”muros separando povos”. Aplausos.

Pena que os bons momentos foram ofuscados pelas gafes da Academia. Espera-se que tudo seja muito bem explicado, porque não dá para se conformar com a vitória de melhor filme para o sucesso… ”La La Land”.
Só que não.

violadavisMelhor Filme

  • A Chegada
  • Até o Último Homem
  • Estrelas Além do Tempo
  • Lion: Uma Jornada para Casa
  • Moonlight: Sob a Luz do Luar
  • Um Limite Entre Nós
  • A Qualquer Custo
  • La La Land: Cantando Estações
  • Manchester à Beira-Mar

Melhor Diretor

  • Denis Villeneuve – A Chegada
  • Mel Gibson – Até o Último Homem
  • Damien Chazelle – La La Land: Cantando Estações
  • Kenneth Lonergan – Manchester à Beira-Mar
  • Barry Jenkins – Moonlight: Sob a Luz do Luar

Melhor Atriz

  • Isabelle Huppert – Elle
  • Ruth Negga – Loving
  • Natalie Portman – Jackie
  • Emma Stone – La La Land: Cantando Estações
  • Meryl Streep – Florence: Quem é Essa Mulher?

Melhor Ator

  • Casey Affleck – Manchester à Beira-Mar
  • Andrew Garfield – Até o Último Homem
  • Ryan Gosling – La La Land: Cantando Estações
  • Viggo Mortensen – Capitão Fantástico
  • Denzel Washington – Um Limite Entre Nós

Melhor Ator Coadjuvante

  • Mahershala Ali – Moonlight: Sob a Luz do Luar
  • Jeff Bridges – A Qualquer Custo
  • Lucas Hedges – Manchester à Beira-Mar
  • Dev Patel – Lion: Uma Jornada para Casa
  • Michael Shannon – Animais Noturnos

Melhor Atriz Coadjuvante

  • Viola Davis – Um Limite Entre Nós
  • Naomie Haris – Moonlight: Sob a Luz do Luar
  • Nicole Kidman – Lion: Uma Jornada para Casa
  • Octavia Spencer – Estrelas Além do Tempo
  • Michelle Williams – Manchester à Beira-Mar

 Melhor Roteiro Original

  • Taylor Sheridan – A Qualquer Custo
  • Damien Chazelle – La La Land: Cantando Estações
  • Yorgos Lanthimos e Efthimis Filippou – The Lobster
  • Kenneth Lonergan – Manchester à Beira-Mar
  • Mike Mills – 20th Century Women

 Melhor Roteiro Adaptado

  • Eric Heisserer – A Chegada
  • August Wilson – Um Limite Entre Nós
  • Allison Schroeder e Theodore Melfi – Estrelas Além do Tempo
  • Luke Davis – Lion: Uma Jornada para Casa
  • Barry Jenkins e Tarell Alvin McCraney – Moonlight: Sob a Luz do Luar

Melhor  Animação

  • Kubo e as Cordas Mágicas
  • Moana: Um Mar de Aventuras
  • Minha Vida de Abobrinha
  • A Tartaruga Vermelha
  • Zootopia: Essa Cidade é o Bicho

 Melhor Documentário em Curta-Metragem

  • Extremis
  • 4.1 Miles
  • Joe’s Violin
  • Watani: My Homeland
  • Os Capacetes Brancos

Melhor Documentário em Longa-Metragem

  • Fogo no Mar
  • Eu Não Sou Seu Negro
  • Life, Animated
  • O.J.: Made in America
  • 13ª Emenda

 Melhor Longa Estrangeiro

  • Terra de Minas (Dinamarca)
  • A Man Called Ove (Suécia)
  • O Apartamento (Irã)
  • Tanna (Austrália)
  • Toni Erdmann (Alemanha)

Melhor Curta-Metragem

  • Ennemis Intérieurs
  • La Femme et le TGV
  • Silent Nights
  • Sing
  • Timecode

Melhor Curta em Animação

  • Blind Vaysha
  • Borrewed Time
  • Pear Cider and Cigarettes
  • Pearl
  • Piper

Melhor Canção Original

  • “Audition (The Fools Who Dream)” | Música de Justin Hurwitz, canção de Benj Pasek e Justin Paul – La La Land: Cantando Estações
  • “Can’t Stop the Feeling” | Música e canção de Justin Timberlake, Max Martin e Karl Johan Schuster – Trolls
  • “City of Stars” | Música de Justin Hurwitz, canção de Benj Pasek e Justin Paul – La La Land: Cantando Estações
  • “The Empty Chair” | Música e canção de J. Ralph e Sting – Jim: The James Foley Story
  • “How Far I’ll Go” | Música e canção de Lin-Manuel Miranda – Moana: Um Mar de Aventuras

Melhor Fotografia

  • Bradford Young – A Chegada
  • Linus Sandgren – La La Land: Cantando Estações
  • Greig Fraser – Lion: Uma Jornada para Casa
  • James Laxton – Moonlight: Sob a Luz do Luar
  • Rodrigo Prieto – Silêncio

Melhor Figurino

  • Joanna Johnston – Aliados
  • Colleen Atwood – Animais Fantásticos e Onde Habitam
  • Consolata Boyle – Florence: Quem é Essa Mulher?
  • Madeline Fontaine – Jackie
  • Mary Zophres – La La Land: Cantando Estações

Melhor Maquiagem e Cabelo

  • Eva Von Bahr e Love Larson – A Man Called Ove
  • Joel Harlow e Richard Alonzo – Star Trek: Sem Fronteiras
  • Alessandro Bertolazzi, Giorgio Gregorini e Christopher Nelson –Esquadrão Suicida

Melhor Mixagem de Som

  • Bernard Gariépy Strobl e Claude La Haye – A Chegada
  • Kevin O’Connell, Andy Wright, Robert Mckenzie e Peter Grace – Até o Último Homem
  • Andy Nelson, Ai-Ling Lee e Steve A. Morrow – La La Land: Cantando Estações
  • David Parker, Christopher Scarabosio e Stuart Wilson – Rogue One: Uma História Star Wars
  • Greg P. Russell, Gary Summers, Jeffrey J. Haboush e Mac Ruth – 13 Horas: Os Soldados Secretos de Benghazi

Melhor Edição de Som

  • Sylvain Bellemare – A Chegada
  • Wylie Stateman e Renée Tondelli – Horizonte Profundo: Desastre no Golfo
  • Robert Mackenzie e Andy Wright – Até o Último Homem
  • Ai-Ling Lee e Mildred Iatrou Morgan – La La Land: Cantando Estações
  • Alan Robert Murray e Bub Asman – Sully: O Herói do Rio Hudson

Melhores Efeitos Visuais

  • Craig Hammack, Jason Snell, Jason Billington e Burt Dalton – Horizonte Profundo: Desastre no Golfo
  • Stephane Ceretti, Richard Bluff, Vincent Cirelli e Paul Corbould – Doutor Estranho
  • Robert Legato, Adam Valdez, Andrew R. Jones e Dan Lemmon – Mogli: O Menino Lobo
  • Steve Emerson, Oliver Jones, Brian McLean e Brad Schiff – Kubo e as Cordas Mágicas
  • John Knoll, Mohen Leo, Hal Hickel e Neil Corbould – Rogue One: Uma História Star Wars

Melhor Design de Produção

  • Patrice Vermette (design de produção) e Paul Hotte (decoração de set) – A Chegada
  • Stuart Craig (design de produção) e Anna Pinnock (decoração de set) – Animais Fantásticos e Onde Habitam
  • Jess Gonchor (design de produção) e Nancy Haigh (decoração de set) – Ave, César!
  • David Wasco (design de produção) e Sandy Reynolds-Wasco (decoração de set) – La La Land: Cantando Estações
  • Guy Hendrix Dyas (design de produção) e Gene Serdena (decoração de set) – Passageiros

Melhor Montagem

  • Joe Walker – A Chegada
  • John Gilbert – Até o Último Homem
  • Jake Roberts – A Qualquer Custo
  • Tom Cross – La La Land: Cantando Estações
  • Nat Sanders e Joi McMillon – Moonlight: Sob a Luz do Luar

Melhor Trilha Sonora

  • Mica Levi – Jackie
  • Justin Hurwitz – La La Land: Cantando Estações
  • Dustin O’Halloran e Hauschka – Lion: Uma Jornada para Casa
  • Nicholas Britell – Moonlight: Sob a Luz do Luar
  • Thomas Newman – Passageiros
As opiniões embutidas nos textos são dos seus respectivos autores, e não refletem necessariamente a opinião do site ou de seu editor.
Waldemar Lopes
Waldemar Lopes

Waldemar Lopes é artista plástico, engenheiro mecânico, professor, cinéfilo. Anualmente realiza em Santos uma palestra beneficente sobre o Oscar, que se tornou tradicional na cidade. Também já realizou encontros sobre cinema para a Universidade Católica de Santos, Universidade Monte Serrat, Secretaria de Cultura de Santos e Rotary. Escreve para o CineZen e o 50 Anos de Cinema.