Como lembrar do Oscar 2017?

Equipe de "Moonlight" celebra prêmio. (Foto: site Oscar).

Equipe de “Moonlight” celebra prêmio. (Foto: site Oscar).

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Vergonhoso. Vexatório. Deselegante. Tosco.

O desfecho da 89.ª cerimônia do Oscar fará com que nos lembremos dela não como poderia ser.

Poderíamos lembrar da tiração de sarro anti-Trump.

Poderíamos lembrar da vitória de O Apartamento como filme de língua estrangeira e a ausência de seu diretor, o iraniano Asghar Farhadi. Que foi solidário aos seus conterrâneos e outros países cujos cidadãos estão proibidos de entrar na “América”.

Poderíamos lembrar do diretor mais jovem premiado da história do Oscar, Damien Chazelle, de 32 anos recém-completados.

Ou lembrar da vitória de Emma Stone, a quarta protagonista de um musical a vencer a estatueta de melhor atriz entrando pro seleto grupo de Julie Andrews, Liza Minnelli e Barbra Straisand.

Lembrar do discurso emocionante e emocionado da diva Viola Davis. Atriz completa. Que já tinha vencido os Oscars da TV e do teatro, o Emmy e o Tony, e completou o trio dos principais prêmios de atuação.

Fosse La La Land o vencedor, lembraríamos da coroação de um musical, gênero que não arrebatava a principal categoria há anos.

Sendo Moonlight, lembraríamos da justa e necessária vitória de um filme dirigido e estrelado por negros, após dois anos de #OscarSoWhite. Prêmio importantíssimo para o debate sobre diversidade, especialmente por que o filme apresenta um protagonista gay. Um passo e tanto da Academia rumo a uma premiação mais justa, diversificada.

atores

Mas não.

A incompetência de alguém, mais especificamente da empresa de auditoria Price WaterhouseCoopers, fará com que nos lembremos desse Oscar como aquele que repetiu a trapalhada do Miss Universo. Aquele que expôs uma lenda como Warren Beatty (vítima da situação) ao ridículo: ele, no auge do cinema dos EUA, entre os anos 60 e 70, a chamada “Nova Hollywood”, foi uma das figuras mais influentes daquela indústria. Um dos maiores filmes em que atuou, Bonnie & Clide, faz 50 anos em 2017.

Nos lembraremos como o Oscar que divulgou o vencedor errado.

Talvez aquele momento fosse um aviso: quando Auli’i Cravalho, intérprete da canção de Moana, foi atingida na cabeça por uma bandeira enquanto cantava. Algo não estava certo. A Academia, tão perfeccionista na organização de suas cerimônias, cometeria a maior pataquada de sua história. Errou, ainda, ao “homenagear”, no In Memorian, uma produtora viva.

Trump deve ter gargalhado. Os memes não param.

PS: Moonlight fortaleceu-se demais nos últimos dias antes do encerramento das votações e era considerado o único filme capaz de tirar a vitória de La La Land. Por vários motivos. Por ser um excelente filme, antes de tudo. Por levantar questões e reflexões em voga, relevantes, com um elenco maravilhoso. Por ser um drama de tema denso, ao contrário do musical, gênero ainda visto com preconceito por muitos. Uma vitória justa, assim como seria justa uma vitória de La La Land.

gafe

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André Azenha
André Azenha

Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora quinzenalmente com a Rádio CBN Santos e assina o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. É membro da Abraccine - Associação Brasileira dos Críticos de Cinema. Ministra cursos e palestras sobre crítica de cinema e jornalismo cultural. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos.