Crítica | LEGO Batman: O Filme (The LEGO Batman Movie)

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Vaidoso, egoísta, egocêntrico, fanfarrão. Seguro de si, celebridade, sem piedade dos vilões. Um Batman como você nunca viu. Ou melhor, presenciou um pouco de tudo isso em “Uma Aventura LEGO” (2014): quando o homem-morcego, em papel coadjuvante, roubou a cena mais de uma vez. Tanto que ganhou seu próprio filme. E “LEGO Batman” é o mais divertido já feito do personagem: o que não significa que seja sua melhor adaptação para o cinema.

Entrega em ritmo alucinante referências das mais variadas: aos filmes, quadrinhos, desenhos animados, à cultura pop em geral. É irônico, sarcástico, inteligente. Faz uso da metalinguagem sem desrespeitar o cânone. Remete a “Deadpool” nesse sentido. Mas é liberado para menores.

Nos primeiros segundos lembra o espectador que “todo filme importante começa com uma tela preta e uma música tensa”. E dá-lhe a trilha sonora bem ao tipo das que Hans Zimmer fez para a trilogia de Christopher Nolan. Somos jogados à ação quase ininterrupta. E segue assim durante os 104 minutos seguintes.

Todas as fases do homem-morcego nas telonas e telinhas são citadas, rememoradas. Sejam por Alfred ou por Bárbara Gordon. Até a versão dos anos 40, quando o herói estrelou duas séries exibidas nas matinês cinematográficas, passando pela “esquisita”, segundo diz o mordomo, fase dos anos 60, a animação “Superamigos”, os longas de Tim Burton, Joel Schumacher, Nolan e os mais recentes do DC Universe, com Ben Affleck no papel.

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Há quem defenda: “LEGO Batman” tem tudo o que os filmes em live action da DC não possuem: humor, cores, etc. Discordo. A trilogia “O Cavaleiro das Trevas” foi sombria do início ao fim, fez sucesso de público e crítica e possui ao menos dois grandes filmes, os de 2005 e 2008. Os problemas de “O Homem de Aço” e “Batman V. Superman: A Origem da Justiça” não estão necessariamente na abordagem ou no tom.  “Esquadrão Suicida”, o terceiro do universo estendido tem (ou tenta ter) humor. O que falta nos três é planejamento, personagens com os quais nos identifiquemos, carisma e, talvez, um Superman que tenha mais luz e menos trevas. Essa segunda parte, aliás, é característica predominante do Cruzado de Capa.

Se os longas live-action trouxerem o mesmo humor anárquico e autorreferente de “LEGO Batman”, teríamos a versão da DC para Deadpool. O que provavelmente não funcionaria e irritaria os fãs. O anti-herói da Marvel é assim nos quadrinhos e o fato de não ser tão conhecido do grande público ajudou para que sua versão cinematográfica surpreendesse, soasse diferente, alcançasse o sucesso. “LEGO Batman” é certeiro no que se propõe a ser e funciona perfeitamente dentro desse outro universo criado em 2014.

A trama inicia com um sequestro de avião liderado pelo Coringa que traz á tona imediatamente o começo de “O Cavaleiro das Trevas Ressurge” (2012): naquele, o roubo do avião é comandado por Bane. O Príncipe Palhaço do Crime quer explodir uma bomba em Gotham e é impedido, como sempre, pelo algoz. Inconformado com o fato de Batman não considerá-lo seu maior arqui-inimigo, decide liberar todos os supervilões da Zona Fantasma: ele assistira uma entrevista do Homem de Aço justamente falando sobre o rival General Zod e o envio do vilão kryptoniano à prisão localizada em outra dimensão. Batman, então, precisará lidar com o caos instalado na cidade “mais perigosa do mundo”, um órfão (Dick Grayson) que deseja ser adotado por Bruce Wayne, e a nova comissária do município, Bárbara Gordon.

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Assim como “Uma Aventura LEGO”, o spin-off apresenta personagens oriundos de diversas obras. Há outros menos lembrados das próprias histórias do Batman, a exemplo do Rei dos Condimentos (da série animada dos anos 90), e até célebres vilões do cinema: citá-los pode estragar a surpresa. Basta dizer que nem a década de oitenta foi esquecida.

O diretor Chris McKay (série “Frango Robô”), a partir do time de cinco (!) roteiristas formado por Seth Grahame-Smith, Chris McKenna, Erik Sommers, Jared Stern e John Whittington, concebeu uma obra que agrada os fãs, entretém crianças e traz mensagem capaz de emocionar os mais velhos: sobre como, por vezes, nos isolamos das pessoas que realmente importam simplesmente para tentar cicatrizar certas feridas.

Tal qual “Toy Story 3” (2010), vai direto ao coração dos marmanjos que não deixaram a infância para trás. Em “Uma Aventura LEGO” (leia a continuação do texto após ver aquele filme), descobrimos que toda a aventura vivida pelos bonequinhos é manipulada por uma criança de verdade, que deseja maior atenção do pai. “LEGO Batman” é um derivado e mantém sua essência. Preste atenção nas cenas em que policiais usam suas armas e o som delas, feito pelos próprios dubladores. Como se pessoas estivessem brincando com as pecinhas. O fato das pistolas dispararem raios ao invés de balas é herança de “Star Wars”: George Lucas queria uma fábula para todos e sangue poderia restringir sua plateia. As pecinhas, aliás, reproduzem com exatidão os brinquedos de montar da empresa, percebemos suas texturas, até como as capas são colocadas.

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Quanto aos dubladores, Will Arnett volta a dar a voz certeira para o protagonista. Outros personagens são interpretados por astros como Rosario Dawson (a enfermeira das séries Marvel exibidas no Netflix), que empresta sua voz à Barbara Gordon/Batgirl, Michael Cera (“Scott Pilgrin Contra o Mundo”) é Robin, Ralph Fiennes dubla Alfred, Zach Galifianakis (“Se Beber, Não Case”) encarna o Coringa, a cantora Mariah Carey faz a Prefeita de Gotham e Jonah Hill é o Lanterna Verde. Vale ressaltar outro acerto dos realizadores: trazer Billy Dee Williams para dublar Harvey Dent/Duas Cartas. Ele fez o advogado em “Batman” (1989), mas seria esquecido em “Batman Eternamente” (1995), quando Tommy Lee Jones viveu o vilão. A dublagem brasileira igualmente merece elogios e as mudanças para certos diálogos se encaixam bem.

“LEGO Batman” não esquece sequer as controvérsias ao redor da Dupla Dinâmica. O Robin é serelepe, adora experimentar diferentes uniformes e sair dançando ao som de George Michael e outras músicas pop – fina ironia à discussão sobre a sexualidade do menino prodígio, iniciada de maneira nefasta pelo psiquiatra alemão Fredric Wertham, autor do abominável livro “A Sedução dos Inocentes”, que condenava a leitura de histórias em quadrinhos e culpava as publicações pela violência entre jovens. A trilha sonora de Lorne Balfe (que atuou no departamento de música de “A Origem”, “O Cavaleiro das Trevas” e “O Cavaleiro das Trevas Ressurge”, todos de Christopher Nolan) utiliza trechos da famosa canção de 1966 e outras da bat-filmografia. A Batcaverna é provavelmente a mais legal já apresentada fora dos quadrinhos: notem o Museu e a coleção de Batmóveis. Nem a concorrência é perdoada: a senha para acesso ao mega-computador é impagável.

Eu, que sou fã do personagem e acompanho sua história nos gibis, nas animações e nos filmes, e transformei essa paixão em livro sobre as histórias dele e de Superman no cinema, amei cada detalhe. Quem não é tão aficionado ficará interessado nas referências e se divertirá com a ação, o humor e a energia do filme.

LEGO Batman: O Filme
The LEGO Batman Movie
2017. EUA/Dinamarca.
Direção: Chris McKay.
Com vozes de Will Arnett, Rosario Dawson, Michael Cera, Ralph Fiennes, Zach Galifianakis, Mariah Carey, Jonah Hill, Billy Dee Williams.
1h44min.


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André Azenha
André Azenha

Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora quinzenalmente com a Rádio CBN Santos e assina o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. É membro da Abraccine - Associação Brasileira dos Críticos de Cinema. Ministra cursos e palestras sobre crítica de cinema e jornalismo cultural. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos.