Crítica | Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures)

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Hollywood ama histórias que valorizam heróis dos EUA. O problema é que, não raramente, as histórias ignoraram os feitos dos negros que ajudaram a construir a nação. #OscarSoWhite, protesto do ano passado contra a ausência de diversidade entre os indicados da Academia, principalmente nas categorias de atuação, surtiu efeito.

“Estrelas Além do Tempo” acompanha a bonita trajetória de três mulheres negras fundamentais no desenvolvimento da NASA e na ida de John Glenn (Glen Powell) ao espaço: primeiro astronauta do país a realizar a façanha.

São elas as matemáticas Katherine G. Johnson, Dorothy Vaughan e Mary Jackson: respectivamente por Taraji P. Henson, Octavia Spencer e Janelle Monáe.

O trio vive um momento de profundas transformações: os anos 60, década do movimento hippie, da liberdade sexual, da Corrida Espacial. E da busca por direitos civis para todos. Tão bem representada em “Selma – A Luta Pela Igualdade” (2014), sobre as marchas lideradas por Martin Luther King em 1965.

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Passos eram dados em direção a um mundo mais justo, diversificado. Mas ainda faltava muito a ser conquistado. Além do racismo, as três protagonistas precisavam lidar com o machismo impregnado há gerações. Sofriam duas vezes mais. Esforçaram-se o dobro, o triplo, para chegar aonde chegaram.

Dá asco ver atitudes mostradas na trama: a segregação a partir da separação de banheiros, garrafas térmicas e escritórios, entre outras situações repugnantes.

Feito para arrancar lágrimas do espectador, seja de que etnia for, o filme tem um quê otimista. Acredita ou quer nos fazer acreditar que alguns personagens mudam, se arrependem. Na vida real não é bem assim.

Basta verificarmos rapidamente pesquisas do IBGE: as mulheres negras, no Brasil, ainda são as que menos acessam as faculdades e as que mais ficam sujeitas a subempregos. Mais de 50 anos após os fatos mostrados na trama.

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No entanto, os clichês hollywoodianos não apagam o brilho da história. Especialmente o elenco fantástico – premiado com justiça pelo Sindicato dos Atores.

Inexplicavelmente Taraji P. Henson foi esquecida nas premiações. Intensa, forte, sensível. Octavia Spencer (Oscar de coadjuvante por “Histórias Cruzadas”) é um charme, divertida, possui força natural. A cantora Janelle Monáe  completa o núcleo central. Ela também está em “Moonlight” e revela-se uma intérprete interessante, mais contida, firme.

Há o grande Kevin Costner, Jim Parsons (o Sheldon de “The Big Bang Theory”), Kirsten Dunst e o sensacional Mahershala Ali (de “Moonlight”, “Luke Cage” e “House of Cards”), em menor e não menos impactante participação. Esse último é dos grandes nomes da temporada e tem tudo para seguir carreira especial.

Em seu segundo longa-metragem, o diretor Theodore Melfi repete o bom desempenho do trabalho anterior, a comédia “Um Santo Vizinho” (de 2014, com Bill Murray). E consegue, outra vez, nos deixar de olhos marejados.

Estrelas Além do Tempo
Hidden Figures
EUA. 2016.
Direção: Theodore Melfi.
Com Taraji P. Henson, Octavia Spencer, Janelle Monáe, Kevin Costner, Jim Parsons, Mahershala Ali.
2h07min.


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André Azenha
André Azenha

Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora quinzenalmente com a Rádio CBN Santos e assina o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. É membro da Abraccine - Associação Brasileira dos Críticos de Cinema. Ministra cursos e palestras sobre crítica de cinema e jornalismo cultural. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos.