Crítica | Até o Último Homem (Hacksaw Ridge)

Andrew-Garfield-Hacksaw-Ridge

No início do filme o pai do protagonista, vivido por Hugo Weaving (o Agente Smith de “Matrix”), diz à esposa que o filho precisa saber: o mundo não é um lugar tranquilo.

A fala do personagem revela o que Mel Gibson deve sentir há muito tempo e tem repetido de diferentes formas em sua filmografia. Daí a violência exacerbada em “Coração Valente” (1995), o polêmico “A Paixão de Cristo” (2004) e “Apocalypto” (2006). Violência que choca, incomoda. Leva ao espectador o pior das pessoas. E se repete aqui.

“Até o Último Homem” é o retorno do cineasta à direção após dez anos. O astro envolveu-se em polêmicas. Maltratou sua companheira da época. Ofendeu judeus. Errou. Feio. Mexeu em vespeiro. Tentou aqui e ali um retorno. Hollywood fechara as portas. A amiga Jodie Foster convidou-o para estrelar “Um Novo Despertar” (2011). Papel que ele encarnou com sensibilidade. Chegou a trabalhar como diretor de arte na China.

Mel tinha, até o declínio, fama de bom companheiro, afável, dedicado. Ator que chegou ao auge, hipnótico. Diretor competente capaz de filmar cenas épicas, grandes elencos.

Demorou. Ainda bem que a indústria do entretenimento norte-americano o perdoou e reconheceu seu grande trabalho por trás das câmeras. Perdão corroborado pelas seis indicações da obra ao Oscar. Inclusive para filme e direção. Estava na hora. Afinal, muitos fizeram pior e não sofreram boicote igual.

hacksawridge-02

A história do filme é verídica: o soldado Desmond Doss (Andrew Garfield) se recusou a pegar em armas durante a Segunda Guerra e salvou 75 colegas no Japão. Típica trajetória atrativa para o realizador: reflete a fé e a religião, a guerra (Mel ainda estrelou “O Patriota”, de 2000, sobre o conflito pela independência dos EUA), a família. Há quem acuse o filme de conservador. Não eram assim muitas pessoas daquele tempo?

Se deixarmos o tom caricatural para os japoneses de lado, temos uma bela jornada de superação, entrega, choque de convicções. Defendidas com afinco pelo elenco coeso.

Começando por Andrew Garfield. O jovem ator dá a volta por cima na carreira após sair da franquia “Homem-Aranha”. Além desse, atuou recentemente em “Silêncio”, de Martin Scorsese. Escolheu grandes cineastas e projetos desafiadores. Exagera em alguns tiques. Repete outros de personagens anteriores. Mas tem momentos inspirados e inspiradores.

Há Sam Worthington outra vez no exército norte-americano depois de “Avatar” (2009), Vince Vaughn em curioso papel dramático, e Teresa Palmer  mesclando doçura e firmeza como a esposa do herói. Até o sexto filho do cineasta, Milo, interpreta um dos soldados.

Não faltam sequências tensas, espetaculares. Que vão fundo no caos e na insanidade do conflito bélico. Dignas dos melhores longas do gênero.

Welcome back, Mel.

Até o Último Homem
Hacksaw Ridge
EUA / Austrália. 2016.
Direção: Mel Gibson.
Com Andrew Garfield, Teresa Palmer, Sam Worthington, Vince Vaughn, Hugo Weaving.
2h19min.


 

As opiniões embutidas nos textos são dos seus respectivos autores, e não refletem necessariamente a opinião do site ou de seu editor.
André Azenha
André Azenha

Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora quinzenalmente com a Rádio CBN Santos e assina o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. É membro da Abraccine - Associação Brasileira dos Críticos de Cinema. Ministra cursos e palestras sobre crítica de cinema e jornalismo cultural. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos.