Crítica | Manchester à Beira-Mar

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Lembro que, certa vez, numa entrevista a James Lipton no programa “Inside the Actors Studio”, Kevin Spacey comentou que muitos dos roteiros que chegavam às suas mãos tinham diálogos que explicavam demais a ação, tudo era muito exposto durante as falas e não sobrava ao ator momentos para mostrar – por gestos e olhares – o que estava se passando na história ou com os personagens.

Ainda bem que, vez ou outra, aparece um filme cheio de significado, que prova que as palavras não ditas, muitas vezes, têm tanta força quanto as expressas. Assim é “Manchester à Beira-Mar”, de Kenneth Lonergan.

Se “Animais Noturnos” é um filme sobre a arte e as angústias de escrever, “Manchester À Beira-Mar” é um filme sobre a natureza da dor, sobre como lidamos com a perda. O que nos move depois disso. Um momento, um instante pode mudar tudo. Nunca sabemos quando ouviremos um último “até breve”, “obrigado” ou “eu te amo” de alguém que amamos.

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E se ficassem assuntos pendentes, mágoas ou ressentimentos entre vocês? E se você, só se desse conta disso, após perder essa pessoa? Afinal, nunca sabemos o tempo que nos resta e o tempo que resta aos outros. Você faria algo diferente se soubesse disso? Provavelmente sim, mas esse tempo, essa oportunidade, não aparece para Lee Chandler (Casey Affleck, em atuação arrebatadora) após perder o irmão, Joe (Kyle Chandler).

O que acaba sendo uma surpresa para Lee é a “missão” que seu falecido irmão lhe deixa encarregado: ser o tutor de seu sobrinho, Patrick (o jovem Lucas Hedges, uma revelação), forçando Lee (que trabalha como zelador em Boston) a morar em sua cidade natal, Manchester, de onde está afastado há alguns anos (depois de uma tragédia que abalou sua vida).

Querendo ou não, Lee terá que acertar as contas com o passado. Aproveitar o tempo que resta a ele e aos que o cercam para colocar os assuntos, mágoas e desentendimentos para fora. Ao mesmo tempo, introspectivo e explosivo, Lee terá que rever o que pensa sobre si mesmo e sobre os outros, a fim de ter essa nova vida em sua velha cidade.

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“Manchester à Beira-Mar” pode parecer um filme duro, triste (o que realmente é), mas ele é muito bem recompensado por um ótimo elenco e por uma história crível, que não poupa nem seus personagens nem o espectador.

Se do lado de lá da tela, os personagens sofrem demais, do lado de cá, fica o retrato de um tema difícil e delicado, mas tratado da forma mais honesta possível. O diálogo entre Lee e sua ex-mulher, Randi (Michelle Williams, numa pequena, mas tocante participação) é das mais lindas, tristes e marcantes do filme.

“Manchester à Beira-Mar” não é apenas um ótimo filme. É, na verdade, um pedaço da vida, o retrato de uma família. Não é para qualquer público, mas também não é um filme qualquer. Experimente!

Manchester à Beira-Mar
Manchester by the Sea
EUA. 2016.
Direção: Kenneth Lonergan.
Com Casey Affleck, Lucas Hedges, Kyle Chandler, C.J. Wilson, Michelle Williams, Anna Baryshnikov e Matthew Broderick.
2h17min.


As opiniões embutidas nos textos são dos seus respectivos autores, e não refletem necessariamente a opinião do site ou de seu editor.

Marcelo Reis
Marcelo Reis

Marcelo Reis nasceu no finalzinho dos anos 70, É jornalista por formação, assistente administrativo por ocupação e cinéfilo de coração. Apaixonado por cinema desde os 13 anos (quando uma cirurgia o obrigou a ficar 6 meses de cama), tem um carinho todo especial por musicais, dramas, comédias românticas (‘Harry & Sally – Feitos um para o Outro” é sua favorita), romances e filmes do Woody Allen. Quase sempre, se identifica do lado de cá com algum(a) personagem da telona ou da telinha.