Crítica | Lendas do Universo DC: Arqueiro Verde e Lanterna Verde

lanterna e arqueiro

Existem arcos de histórias de determinados artistas que definem um personagem. Ou de dois deles. É o caso da dupla Dennis O’Neil e Neal Adams que, em 1970, assumiu o título da revista “Green Lantern” e adicionaram o “Green Arrow” ao título. A dobradinha com os heróis esmeraldas e tornou esse período o mais importante para o Arqueiro Verde em 75 anos de existência. E uma das mais importantes fases do Lanterna Verde, que teve outros pontos altos.

Basicamente, o Lanterna Verde era, e ainda é, um personagem com pegada Sci-Fi, enquanto o Arqueiro Verde era uma cópia pouco inspirada do Batman, combatendo ladrões de banco e sem profundidade. Com a ascensão dos quadrinhos da Marvel, a DC Comics deu certas liberdades a alguns poucos autores em títulos de baixa vendagem. Para ousarem mais em suas abordagens e se assemelharem um pouco ao estilo da concorrente, ou até mesmo, irem além.

Na sequência de histórias, o Lanterna Verde (Hal Jordan)  é desafiado pelo  Arqueiro Verde (Oliver Queen) a percorrer com ele o interior dos EUA e tomar ciência das mazelas sociais que afligem os humanos. Ao invés de se meter com alienígenas e assuntos que não são de sua própria espécie. Na visão do Arqueiro, radical de esquerda, o Lanterna é um alienado, que não usa seu poder para realmente ajudar a sociedade norte-americana “doente” dos anos 70. Por isso, faz o colega encarar problemas como exploração indígena, racismo, machismo, fanatismo religioso, poluição das grande corporações e principalmente e o tráfico e uso de drogas entre a população mais jovem.

Destaque para a história focada nas drogas, que foi tão marcante na indústria dos quadrinhos dos EUA, cujos efeitos perduram até hoje: foi algo inédito nas HQs, e saiu sem o selo do Comics Code, órgão de censura para gibis infanto-juvenis criado no período do Macartismo, gerando um alvoroço nos meios de comunicação da época. Lojistas não quiseram vender as edições, ao passo que os autores foram convidados para palestrarem em universidades. Foi o início do amadurecimento nos quadrinhos que explodiu na década seguinte.

lanternagibi

A DC Comics foi ousada em permitir tal abordagem, mas nas HQs (e talvez outras mídias que lidem com franquias de longa duração) ocorre um fenômeno curioso. Quando se chega ao máximo do potencial dramático de um personagem,  há um esgotamento natural de ideias, praticamente um beco sem saída em termos de narrativa, restando duas opções. 1) Os personagens retornarem ao status anterior, com histórias mais simplórias. 2) Como ocorre em séries finitas, o personagem tem um final digno ou uma pausa e sai de cena, deixando aberto o caminho para sucessores.

Os personagens nunca mais foram escritos de maneira tão dramática em tramas que abordassem tão vivamente problemas sociais. O pobre Lanterna Verde voltou imediatamente a combater alienígenas coloridos sem nenhum aprendizado moral do período em que conviveu com o amigo – aliás, voltou a ser um personagem genérico e arrogante, não muito distante daquilo visto no filme estrelado por Ryan Reynolds em 2011.

Já o Arqueiro manteve sua personalidade política de esquerda, mas em histórias mais autocentradas. Versão muito superior, diga-se, ao que é apresentado na primeira temporada da série “Arrow”, onde o vigilante é um genérico mimado de Bruce Wayne, sem nenhum traço da personalidade clássica dos gibis,  sem as opiniões políticas ou sua fanfarronice com as mulheres e amigos de equipe que pensem diferente.

A arte de Neal Adams é um assunto à parte e, embora a Marvel já estivesse superando a DC em vendas, o desenhista Neal Adams era o melhor artista do mercado. Imprimia anatomia realista trazida da publicidade.

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Adams influenciou e ainda influencia muitos outros artistas, que imprimiram mais dinamismo, musculatura atlética aos personagens e ângulos de cena ousados, jamais vistos até então. Artisticamente, sua passagem pelo título “Lanterna Verde/Arqueiro Verde” é a mais inspirada de sua carreira, seguida pela sua curta atuação em ” X-Men” logo em seguida.

As pessoas com olhos mais atentos perceberão uma leve evolução no cabelo do Lanterna, que era retratado com um policial, com cabelo curto dentro dos padrões aceitáveis da sociedade, e nas últimas edições, à medida em que o personagem vai tomando contato com as mazelas sociais, seu cabelo sutilmente é desenhado com costeletas maiores, mais volumoso nas laterais – indicativo sutil de que se tornaria um hippie, representante da contracultura.

Curiosidade do relançamento: a mesma editora Panini publicou esse arco de histórias em 2006, em duas edições, com papel couchê brilhoso e acabamento um pouco mais luxuoso, igual ao similar estadunidense. Mas o público mais jovem não recepcionou bem as histórias, as considerando datadas (termo que não compactuo).

Agora  as histórias são relançadas dentro da coleção “Lendas do Universo DC”, que tem como característica mais marcante ser em papel offset, mais adequado para edições antigas, com uso de retículas e colorização sem efeitos de computador. As tramas saem divididas em três edições, usando três capas das publicações originais e os grafismos da época. Curiosamente, está sendo melhor avaliada pelos jovens leitores do que há 11 anos.

Finalizando, é um clássico dos quadrinhos que merece estar na biblioteca de qualquer colecionador que goste desses heróis. Acredito, ainda, que a abordagem desse arco, se aplicada somente ao Arqueiro Verde, renderia uma boa série de TV, ao estilo “Demolidor” da Netflix. Algo bem diferente da série “Arrow”. Na verdade, o seriado da Warner está muito mais para uma adaptação do Batman. Sacrificando, assim, o que há de melhor do Arqueiro Verde em suas origens. Pena não termos o verdadeiro Oliver Queen nas telas.

edições

Lendas do Universo DC: Arqueiro Verde e Lanterna Verde – 1, 2 e 3
Roteiro: Dennis O’Neil.
Arte: Neil Adams.
Editora Panini.


 

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Fabio Gomes Ribeiro
Fabio Gomes Ribeiro

Santista de 1976, formado em Publicidade e em Direito, desenhista por hobby, escrevente judiciário por ocupação, e colecionador de quadrinhos compulsivo com mais de 20 mil quadrinhos no acervo. Apaixonado por HQs desde os 10 anos, sempre se interessou pelos bastidores da produção da nona arte no Brasil e no mundo. Já brincou de fundar site, fórum de discussão e até editora de quadrinhos, mas atualmente se dedica exclusivamente a Santos Comic Expo, que é um evento que reúne artistas de quadrinhos e fãs de cultura pop em geral na Baixada Santista.