Crítica | A Dama e o Vagabundo

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Tem uma das mais belas cenas de beijo da História, no meio de uma sequência romântica capaz de derreter o coração de um frade de pedra. Uma série de personagens fascinantes, bem construídos, bem interpretados. Sequências de ação e de lutas para não deixar frustrado nenhum fã de filmes de ação e de lutas. Uma trama com reviravoltas inesperadas.

Ah, sim, e também alguns comentários sobre os males e mazelas da sociedade capitalista, a terrível injustiça social, a asquerosa coexistência de muito ricos com miseráveis, despossuídos.

E ainda por cima tem tudo para agradar a família inteira, das crianças de cinco anos aos bisavós.

“A Dama e o Vagabundo” é uma absoluta maravilha. Um clássico para se ver e rever muitas vezes.

Devo a minha neta o prazer imenso de tê-lo revisto agora, bem mais de 50 anos depois de ver pela primeira vez, ainda bem garotinho. Com 3 anos e meio, Marina viu mais da metade dos curtíssimos 76 minutos e se cansou. Aí, pouco depois, sem ela, Mary e eu retomamos de uns dois capítulos antes do momento da interrupção, passando, claro, para o som original com legendas, e vimos o resto do filme em êxtase.

O fato de Marina ter ficado cansada não quer dizer necessariamente que é um filme apenas para crianças mais velhas de 3 anos e meio. É apenas um indicativo – cada criança é de um jeito. Mary e eu falamos sobre isso, e temos certeza de que o filme é absolutamente palatável para qualquer criança acima de 5 anos.

Para adultos com um mínimo de sensibilidade, é um banquete.

Como são bem construídos os personagens Caco e Joca

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A trama de “Lady and the Tramp”, o clássico absoluto de Walt Disney de 1955, é tão conhecida quanto a de Romeu e Julieta de Shakespeare, mas acho que é o caso de copiar aqui uma sinopse feita por alguém que tenha a capacidade de síntese com a qual não fui provido.

O Cinéguide francês, obra-prima da síntese, resume assim “La Belle et le Chochard”: “Uma bonita cadela cocker apaixona-se por um vira-latas”.

Corretíssimo, mas sintético demais.

O Guide des Films de Jean Tulard: “Aventuras e desventuras de Lady, cadela mimada que encontrará sua alma gêmea na pessoa do Vagabundo, um cão das ruas, que a salvará de mil e um perigos”.

Algumas coisas me impressionaram demais ao rever depois de velho este grande clássico.

* Como é bem construído todo o início da narrativa, o Jim Querido dando de presente de Natal para Querida, sua jovem esposa, uma filhotinha de cachorro de raça, o Jim Querido querendo que a cadelinha durma no seu cestinho num quarto de despejo do primeiro andar do sobrado muito amplo de bairro rico, a cadelinha insistindo em não querer ficar sozinha, a dona de coração mais mole permitindo que ela durma a primeira noite no quarto do casal – e o corte de vários meses mostrando Lady já grandinha e ainda dormindo no quarto principal da casa.

* Como são bem construídos – e extremamente simpáticos – os personagens dos dois cães de raça vizinhos de Lady, bem mais velhos do que ela, Trusty, o confiável, no Brasil Caco, e Jock, no Brasil Joca. Joca é um cavalheiro inglês, na verdade escocês, um gentleman. É rico, fino e chique. Nós que trabalhamos no Jornal da Tarde tivemos a honra de conhecer um gentleman como Joca, Pedro França Pinto, que os Deuses o tenham.

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Trusty-Caco, tadinho, está velho demais – e ser velho demais, não importa o que digam os livros de auto-ajuda, os grandes ditados, as melhores frases de toda a filosofia de botequim do Leste ou do Oeste, é uma merda, e então Trusty-Caco, que já perdeu o olfato, razão de ser de sua raça caçadora, perdeu também boa parte da memória. Confunde-se, atrapalha-se, não se lembra do que começou a contar que seu velho avô tinha dito. E diz sempre o que não deve ser dito, o que, nas conversas sociais, é grave pecado.

Não são muitos os filmes para adultos feitos na última década que têm personagens tão fortes, tão bem acabados, como estes dois cães.

* Como é absolutamente fascinante o personagem Bóris, o cachorro russo que Lady encontra quando é presa pela carrocinha e levada para o canil municipal, onde estão todos os tipos de vira-latas ou cães de raça sem dono. Bóris é um filósofo, informa alguém para Lady. Bóris cita uma frase de Górki, Maxim Górky (1868-1936), o escritor que simbolizou na literatura o que foi o início da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), meio assim nas letras o que foi Sergei Mikhailovich Eisenstein para o cinema.

O que raios significa o personagem Bóris?

Filósofo, sábio, inteligente, russo. Preso ali no canil.

Seria Bóris uma forma sutil, quase subliminar, de dizer que os russos são bons, bem em 1955, no auge da Guerra Fria entre EUA x URSS, no auge do macarthismo, o caça às bruxas horrendo promovido nos anos 50 contra todo mundo que tinha algum tipo de simpatia por algo parecido com o socialismo?

Seria uma forma sutil de dizer que as pessoas sábias, inteligentes, são presas pelo Sistema porque propagam ideias contra o Sistema?

Seria uma propaganda subliminar comunista infiltrada em um filme de Walt Disney?

Sei lá.

A trilha sonora é fascinante. E o título tem tudo a ver com a canção clássica

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Como são absolutamente, malucamente interessantes tanto a trilha sonora deste filme quanto as histórias em torno dela!

Para começar, o título original, “Lady and the Tramp”.

(Os jornais de hoje em dia diriam: “Dama e o Vagabundo, em uma versão livre.” Volta e meia os jornais trazem coisas assim. Por exemplo: o livro se chama “Democracy and Poverty”. Aí os jornais dizem: Democracia e Pobreza, em versão livre. Mas, diacho, é a tradução! É a tradução, e pronto. Por que raios “em versão livre”? Há alguma outra versão, uma versão presa? Perdão pelo caco que não tem nada a ver com o filme, caro leitor, mas essa coisa me deixa indignado.)

O título “Lady and the Tramp” já contém um elo com a Grande Música Americana, as grandes canções compostas basicamente entre os anos 20 e os 50 que viraram standards e são regravadas por todas as novas gerações de cantores mundo afora.

“Lady and the Tramp” faz lembrar, de imediato, “The Lady is a Tramp”, a canção composta em 1937 por Richard Rogers e Lorenz Hart para o musical “Babes in Arms” e que foi gravada por diversas orquestras e instrumentistas de jazz e virtualmente todos os cantores da Grande Música Americana, a começar por Frank Sinatra e Ella Fitzgerald, passando por Lena Horne, Anitta O’Day. A canção continuaria a ser gravada constantemente, por artistas de vários diferentes gêneros, como Shirley Bassey, Diana Ross and The Supremes. Em 2011, Lady Gaga e Tony Bennett a gravaram no segundo disco dele de duetos.

A canção não está no filme, não tem absolutamente nada a ver com a trama do filme – mas é claro que, em especial para as platéias de língua inglesa, em 1955, um filme chamado “Lady and the Tramp” fazia lembrar a música famosérrima.

A grande Peggy Lee faz a voz de Peg, a cadela liberada, uma das ex do Vagabundo

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Como é marca registrada dos Estúdios Disney, a trilha sonora de “A Dama e o Vagabundo” traz diversas canções – e canções de qualidade. Mas há um momento em especial que faz a suprema alegria de quem gosta de música. É quando Lady, que passeava pelas ruas com o Vagabundo, após ter passado a noite com ele, é pega pela carrocinha e levada para o canil da Prefeitura.

Uma cadela rica, fina, chique, no canil da Prefeitura, lotado de vira-latas de todos os tipos, é como uma dama rica, fina, chique, no xadrez de uma delegacia do polícia de periferia de grande metrópole.

Uma bela, imponente, graciosa cadela de olhos azuis – que o leitor já havia visto rapidamente numa sequência bem anterior – se coloca como defensora de Lady. Passa um esculacho nos valentões que estavam atazanando a pobre recém-chegada: – “Vocês não vêem que ela já está apavorada, coitada?”

Chama-se Peg, a cadela que impõe respeito. É graciosa Peg, livre, liberada, adulta, de imensa quilometragem no quesito amor.

Antes mesmo de Lady entrar no canil, o espectador já havia visto e ouvido como aqueles cães são musicais. Cantam em conjunto, numa admirável riqueza de vozes.

Depois de defender Lady da cachorrada irrequieta, Peg canta uma canção em que faz todo tipo de elogio ao Vagabundo, “He’s a tramp”. Fica absolutamente claro Peg já havia traçado o Vagabundo, um emérito traçador de fêmeas.

A voz de Peg é cheia, forte, um tanto grave. Sensualíssima.

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É a voz de Peggy Lee (1920-2002), o louríssimo mito da música americana, “uma cantora prolífica, lembrada como uma das maiores estilistas da canção popular, ao lado de Ella Fitzgerald, Billie Holiday e Sarah Vaughan”, como define o extraordinário site AllMusic, o melhor site sobre música que conheço.

Assim começa o verbete sobre Peggy Lee, assinado por John Bush, no AllMusic:

“O tom sedutor, a execução inconfundível, a amplidão do material e a habilidade de escrever muitas de suas canções a tornaram uma das artistas mais cativantes da era vocal, desde sua chegada triunfal com o sucesso de Benny Goodman ‘Why Don’t You Do Right’ até seus diversos sucessos na carreira solo, como ‘Mañana’, ‘Lover’ and ‘Fever’, que mostravam seu poder vocal encantador, um equilíbrio entre o swing escaldante e a musicalidade impecável.”

Peg, a personagem fascinante – dá perfeitamente para a gente perceber – foi inspirada por Peggy Lee. Tem o nome dela, a voz dela, a sensualidade dela, o encanto dela.

Tendo um ás como Peggy Lee à disposição, qualquer diretor ou produtora aproveitaria ao máximo. E os Estúdios Disney aproveitaram: além de dublar a cadela Peg, Peggy Lee empresta sua voz também a Querida, a dona de Lady, e às duas gatas siamesas bandidas que pertencem à Tia Sarah e vão causar toda a infelicidade da cadela.

A participação de Peggy Lee em A Dama e o Vagabundo foi a primeira de uma grande artista da música em um filme de animação. Depois disso, a Disney de fato tornaria uma de suas marcas registradas a participação de grandes cantores e compositores em suas trilhas sonoras.

Trinta e três anos depois do lançamento do filme, em 1988, Peggy Lee entrou na Justiça contra a Walt Disney Productions, alegando quebra de contrato, pelo fato de a empresa não tê-la consultado antes do lançamento do filme em videocassete. Pedia uma indenização de US$ 25 milhões. A pendenga se arrastaria pelos tribunais até 1991; a cantora levou uma bolada de US$ 2,3 milhões.

Consta que Walt Disney a princípio se opunha à cena do beijo

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Eis aí mais informações sobre o filme e sua produção, muitas delas retiradas do IMDb, com uns acréscimos meus:

* Foi o 15º longa-metragem de animação da Walt Disney Productions. (O primeiro foi “Branca de Neve os 7 Anões”, de 1937.) E foi o primeiro filmado no formato CinemaScope.

* Foi o primeiro filme da Disney baseado em história criada diretamente para o cinema desde Dumbo (1941). Diversas pessoas trabalharam na elaboração da história, a partir de um texto original de Ward Greene. São creditados como autores da adaptação da história Erdman Penner, Joe Rinaldi, Ralph Wright e Don DaGradi. O roteiro é assinado por Joe Grant, Dick Huemer e Louis Pollock.

* Na época do seu lançamento, foi a animação da Disney com melhor bilheteria desde exatamente Branca de Neve. Foi a maior bilheteria do ano de 1955, com US$ 40 milhões de dólares, conforme mostra o livro Box Office Hits, seguido de “Cinerama Holliday”, “Mister Roberts”, “Qual Será Nosso Amanhã” e “Oklahoma”! O orçamento do filme foi de US$ 4 milhões.

* Barbara Luddy, a atriz que faz a voz da jovem Lady, estava com 47 anos na época da filmagem.

* O IMDb diz que este é um dos poucos filmes da Disney em que não há um nítido vilão, “embora a tia Sarah possa ser considerada uma vilã”. Sem dúvida a tia Sarah é a grande vilã da história – ela e as danadas das gatas siamesas, Si e Am.

* O IMDb também afirma que Walt Disney a princípio não queria incluir o trecho da sequência em que a Dama e o Vagabundo jantam um spaghetti especial no restaurante de Tony, e acabam pegando cada uma uma das duas pontas do spaghetti, o que leva ao beijo. Não se explica por que Disney se opôs ao beijo. Pode ser verdade, pode ser pura lenda – mas o fato é que o beijo de spaghetti da Dama e do Vagabundo é uma das cenas mais antológicas de todo o cânone Disney, e de toda a História do cinema.

Todo o filme é contado como se fosse do ponto de vista dos cachorros

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Leonard Maltin deu 3.5 estrelas em 4 ao filme:

“Um dos mais duradouros filmes de animação, baseado na história de Ward Greene sobre um despreocupado cachorro chamado Vagabundo que ajuda uma cadela com pedigree chamada Lady a sair de uma enrascada – e a entrar num romance. Elementos de aventura e drama são misturados magistralmente com comédia e música neste filme cheio de estilo, o primeiro longa-metragem de animação do estúdio de Disney em CinemaScope.”

Susan Sackett, a autora do livro Box Office Hits, escreveu o seguinte sobre este que é “um dos mais amados e duradouros dos clássicos de Disney:

“Uma das qualidades mais impressionantes deste filme é como a história é contada do ponto de vista dos cachorros. Qualquer um que já tenha tido um cão vai entender. Por exemplo, Lady se refere aos seus humanos como ‘Querido Jim’ e ‘Querida’ – afinal, é assim que eles se chamam um ao outro. E a animação é cheia de comentários sobre a vida humana. ‘Lembre-se’, aconselha Jock, com seu sotaque escocês, ‘eles são apenas humanos, afinal de contas’. O Vagabundo, que se descreve como ‘footloose and collar-free’, dispensa a idéia de pedir ajuda aos macacos porque eles são ‘muito parecidos com os humanos’.”

A expressão “footloose and fancy-free” significa não ter responsabilidades ou compromissos de longo prazo. Corresponderia ao nosso livre leve solto. Aí os roteiristas da Disney fizeram a brincadeira, o jogo de palavras, com collar-free, sem coleira. Livre leve solto e sem coleira, sem dono.

Susan Sackett está certíssima ao realçar que toda a história é contada do ponto de vista dos cachorros. Eu ainda não havia mencionado isso, mas a maior parte das tomadas mostra o mundo visto por olhos que estão a no máximo 30 centímetros acima do solo. Assim, por exemplo, raríssimas vezes vemos o rosto dos humanos. Vemos seus pés e suas pernas, até pouco acima dos joelhos, e só.

Vou mostrar o filme de novo para Marina daqui a alguns meses.

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A Dama e o Vagabundo
Lady and the Tramp
EUA. 1955. 
Direção: Clyde Geronimi, Wilfred Jackson e Hamilton Luske.
Com as vozes de Barbara Luddy (Lady), Larry Roberts (Vagabundo), Peggy Lee (Darling / Si & Am / Peg), Bill Baucom (Trusty, Caco), Bill Thompson (Jock, Joca / Bull, o Bull Terrier / Policial no Zoo / Dachsie / Joe), Verna Felton (tia Sarah), George Givot (Tony), Stan Freberg (o castor), Lee Millar (Jim Dear, o dono de Lady / o homem da carrocinha), Dal McKennon (Toughy / Professor / Pedro / a hiena), Alan Reed (Boris),
76 min.

Texto cedido pelo site 50 Anos de Filmes.


 

 

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Sérgio Vaz
Sérgio Vaz

Sérgio Vaz é jornalista (Jornal da Tarde, revista Afinal, Agência Estado, Marie Claire, Agência Estado de novo, estadao.com.br, Estadão, muitos frilas), leitor de jornais, internet e livros, assistidor de filmes, ouvinte de música, e brinca de fazer os sites 50 Anos de Filmes e 50 Anos de Textos.