Crítica | Invasão Zumbi

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O cinema sul-coreano produziu alguns dos melhores filmes nos últimos vinte anos. Sejam eles suspense (“Oldboy”, “Memórias de um Assassino”, ambos de 2003), terror de monstro (“O Hospedeiro”, 2006), drama (“Casa Vazia”, 2004).

Cineastas do país asiático conseguem transcender os gêneros. Transformar seus trabalhos em obras de arte que, em mãos e mentes menos talentosas, resultariam em mero escape.

São pérolas cinematográficas que versam com profundidade sobre temas dos mais variados. Que entretém, e também intrigam, provocam, emocionam, nos fazem questionar a vida, a existência, as relações entre pessoas e com o meio no qual vivemos.

“Invasão Zumbi” não é diferente. Eleva à enésima potência o caos causado por zumbis que correm, e muito. Zumbis velocistas foram mostrados na refilmagem de 2004 para o clássico “Madrugada dos Mortos” (1978), de George A. Romero. Versão contemporânea que revelou ao mundo Zack Snyder. Até então as criaturas eram aquelas que vagavam lentamente atrás de suas futuras vítimas. Porém, não é só o estado físico dos monstros que surpreende.

Está longe de ser um mero filme de mortos-vivos. É aterrorizante, física e psicologicamente, eletrizante, intenso, denso, complexo, um soco no estômago, que deixa o espectador aflito, desesperado, pasmo, indignado, esperançoso. Um dos melhores filmes do ano. Bem dirigido e com elenco afiado. Transforma “Guerra Mundial Z” e a franquia “Resident Evil” em brincadeiras de criança.

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Tanto que foi visto por 1,2 milhão de pessoas em seu primeiro fim de semana no país de origem: nada menos que 75% da bilheteria nacional, superando blockbusters como “A Era do Gelo: O Big Bang” e “Procurando Dory”. Custou US$ 10 milhões e rendeu dez vezes mais em bilheteria mundial. Possui 95% de aprovação no site Rotten Tomatoes, que mensura a recepção na mídia especializada. Sucesso de público e crítica.

Exibido em Cannes, despertou interesse de grandes estúdios ocidentais para um remake em inglês. Fox, Sony, StudioCanal e EuropaCorp estavam no páreo. Os direitos ficaram com a Gaumont, produtora comandada pela família da atriz Léa Seydoux (“Azul é a Cor Mais Quente” e “007 Contra Spectre”).

No entanto, é a versão original que precisa ser vista, revista, comentada. Dirigida e escrita por Sang-ho Yeon, cuja carreira é pontuada por animes premiados, a trama acompanha inicialmente pai e filha que pretendem viajar à Busan, cidade onde vive a mãe da garota. Ele é focado no trabalho. Não dá atenção à garota. Tanto que repete um presente no aniversário dela. Pelo caminho, o choque: a nação sofreu um surto viral. Pessoas se transformam, matam ou contaminam as demais. Juntam-se outros personagens, como o casal que vai ter o primeiro bebê. Todos tentarão sobreviver à jornada dentro do trem.

Em seu microcosmo, “Invasão Zumbi” retrata os instintos mais primitivos e opostos do ser humano quando ele é colocado em situações limites. Que reflete inclusive, guardadas as proporções de cada situação, as atitudes de pessoas que conhecemos no cotidiano e tomam atitudes parecidas nesses tempos de crise financeira no Brasil. É quando nos surpreendemos com alguns. E cai a máscara de outros. Do altruísmo ao egoísmo total.

Talvez o senso de urgência e a capacidade de ir fundo na abordagem, alcançados pelos cineastas, roteiristas e atores sul-coreanos, venha do dia-a-dia daquela nação. Que vê famílias divididas pelas fronteiras sul e norte e a eterna tensão gerada pela ditadura do lado superior do mapa. Logicamente esse background poderia ser transformado em bons filmes voltados ao público local. Mas some-se a tudo isso um ingrediente especial: o talento para contar histórias que dialogam com todo o mundo e temos um dos melhores cinemas da atualidade.



Invasão Zumbi
Busanhaeng / Train to Busan.
2016.
Direção: Sang-ho Yeon.
Com Yoo Gong, Soo-an Kim, Yu-mi Jung.
1h58. 


 

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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