Crítica | Rogue One: Uma História Star Wars

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“A força está comigo e eu estou com a força”, diz ininterruptamente Chirrut Îmwe, entre tiros a laser e bombas explodindo ao redor. A cena com o personagem cego é emblemática ao trazer duas das várias qualidades de “Rogue One: Uma História Star Wars”.

1)  Îmwe mantém a fé nos Jedis: figuras icônicas da saga criada por George Lucas em 1977. Na cronologia, eles estão desaparecidos desde que foram dizimados no episódio III, “A Vingança dos Sith” (2005). Enquanto a aventura do novo filme acontece, Luke Skywalker – que não aparece aqui – ainda vive normalmente em Tatooine se preparando para dar as caras em “Uma Nova Esperança”. Parece confuso? Nem tanto. A dica é conferir tudo na ordem pensada por seu criador. Ou seja, é uma história sobre acreditarmos ser possível, ter esperança. Esperança que, enfim, justifica o título do Episódio 1.

2) Traz Donnie Yen no papel. O chinês é astro em filmes de artes marciais e estrelou a trilogia “O Grande Mestre”, sobre Yip Man, o lendário tutor de Bruce Lee. Temos, assim, um dos elencos mais multiétnicos em toda a franquia e no cinema hollywoodiano.

Ao seu lado estão o conterrâneo Wen Jiang, o mexicano Diego Luna, o norte-americano Alan Tudyk (que faz o droide decidido e corajoso K-2SO, o oposto do inseguro e atrapalhado C-3PO), o britânico de família paquistanesa Riz Ahmed (“O Abutre”, 2014) e, também nascida no Reino Unido, a protagonista Felicity Jones (“Inferno”), que vive Jyn.

Tal diversidade mostrada na tela gerou, inclusive, o chilique de alguns débeis mentais que tentaram promover boicote à Disney acusando-a de “anti-Trump” e racista contra os homens brancos. Vale lembrar que, doze meses atrás, os igualmente ingleses Daisy Ridley e John Boyega, que é negro, eram os destaques de “O Despertar da Força”, para surto dos intolerantes de plantão.

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O elenco citado forma o grupo de rebeldes que rouba os planos da temida Estrela da Morte. Fato descrito nos letreiros iniciais do clássico “Guerra nas Estrelas”, como era chamado no Brasil há quase 40 anos.

Jyn é filha do arrependido Galen Erso (o dinamarquês Mads Mikkelsen, o vilão do recente “Doutor Estranho”), responsável pelo projeto da arma destruidora de planetas. Foi salva, quando criança, por Saw Gerrera (o norte-americano Forest Whitaker), de postura contrária ao Império tão radical que incomoda outros parceiros de causa. “Rogue One” também é político e fala muito sobre quando preferimos seguir em frente, de cabeça baixa, subservientes, para que não sejamos punidos de alguma forma por quem está no poder. Há uma fala de Jyn que exemplifica bem a questão que reflete, por exemplo, a situação de milhares de pessoas na Síria.

Se o desfecho do longa pode ser conhecido por muitos, é em seu corpo que “Rogue One” nos conquista. Tem o jeito, o ambiente, o cheiro, a textura, do universo Star Wars. Ao mesmo tempo é um ser independente, que não é focado na trajetória da família Skywalker. Integra um universo mais amplo, mas retrata o que ocorre frequentemente no mundo real. Para que heróis sejam reverenciados, há tantas outras pessoas que se sacrificam e se dedicam a determinada causa ou projeto. Há as referências a personagens conhecidos. Darth Vader tem duas aparições. Uma delas marcante. E o Grand Moff Tarkin de Peter Cushing (falecido em 1994) é “ressuscitado” de maneira impressionante. A cena final ainda fará escorrer lágrimas de muita gente.

Dizem que aconteceram refilmagens para que o estúdio chegasse ao resultado esperado. Mas como a direção segue assinada por Gareth Edwards (do bom “Godzilla”, 2014), é ao cineasta que vão os elogios por conceber uma trama de guerra enxuta, redonda, que mescla bem a ação, os efeitos visuais, o humor, partindo do roteiro que constrói personagens com os quais nos importamos do início ao fim. Tudo orquestrado pelo toque de Midas da Disney que, em sua segunda incursão na franquia, fez dois dos três melhores filmes de “Star Wars”. O outro, claro, é “O Império Contra Ataca” (1980).



Rogue One: Uma História Star Wars (Rogue One: A Star Wars Story).
2016.
Direção: Gareth Edwards.
Com Felicity Jones, Diego Luna, Donnie Yen, Forest Whitaker, Wen Jiang, Mads Mikkelsen, Riz Ahmed, Jimmy Smits, Ben Mendelsohn, Alan Tudyk.
2h14min.


 

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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