ROCKY, UM LUTADOR (Rocky, 1976) e o poder da perseverança

Rocky, Um Lutador surpreendeu ao vencer o Oscar de Melhor Filme na edição em que estavam indicados Todos Os Homens do Presidente, Taxi Driver, Rede de Intrigas e Esta Terra é Minha Terra. Surpresa para alguns. Motivo de celebração para a classe operária dos EUA, representada no filme pelo personagem criado e vivido por Sylvester Stallone. Algo como foi Bruce Springsteen para o rock daquele país nos anos 70. Não só isso: foi o início da jornada de um personagem que se tornou querido por pessoas do mundo todo. E da carreira de um dos maiores astros da história.

O longa deu origem à franquia de sucesso, que se desviou um pouco de sua essência nas continuações III, IV e V e recuperada no longa de 2006. Mesmo assim, em todos os filmes nos deparávamos com o amor incondicional de Rocky por Adrian, interpretada por Talia Shire: irmã de Francis Ford Coppola na vida real e a Connie Corleone da saga O Poderoso Chefão. Um amor baseado na cumplicidade, na construção de vida em conjunto, no enfrentamento das dificuldades do cotidiano. Diferente de outros romances hollywoodianos. Rocky e Adrian formavam um casal com o qual nos identificamos: fugiam aos estereótipos de beleza do cinema. Gente como a gente.

A première do clássico ocorreu em 21 de novembro de 1976: em 3 de dezembro, ocorreu o debute no circuito comercial. No Brasil, a estreia aconteceu em 7 de janeiro de 1977. Comemorar os quarenta anos de lançamento poderia ser mera nostalgia. Não menos importante. Décadas depois, Rocky – personagem e franquia – segue firme emocionando plateias.

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Quando achávamos que a história do Garanhão Italiano tinha chegado ao fim nas telonas, eis que Creed: Nascido Para Lutar (2015, lançado no Brasil no início de 2016) não apenas trouxe novamente o bom e velho pugilista, mas o mostrou em novo paradigma: como coadjuvante, e dando a Sly um Globo de Ouro de ator coadjuvante e nova indicação ao Oscar, nessa categoria, quase quatro décadas após ser concorrer para melhor ator pelo primeiro trabalho. Não é pouca coisa.

Escrever sobre Rocky poderia render um livro: aliás, existe no Brasil Rocky  Lutando com o Coração, de Renato Mundt.  São tantas as situações que o filme nos apresenta, sejam elas sociais, pessoais, sentimentais, físicas, emocionais, que podemos refletir durante muito tempo. Para a época em que foi produzida, a obra soou conservadora, típico produto do cinema clássico dos EUA ante a geração da Nova Hollywood conduzida por Coppola, Martin Scorsese, Peter Bogdanovich, Michael Cimino, Paul Schrader, George Lucas, Steven Spielberg e Brian De Palma. Até hoje pode parecer machista em determinados momentos.

Porém perdurou. Envelheceu bem. Cativa corações e mentes mesmo no mundo atual. Rocky é másculo. Filho dos imigrantes europeus. Que pede, sem firulas, para Adrian preparar o jantar. No entanto, é fruto de um contexto específico. Fato que não minimiza seu coração ou sua ingenuidade. O amor que nutre pela esposa, os amigos e sua vontade de dar certo, dentro das regras da sociedade. Ainda que dê alguns passos tortos. A história de superação do lutador se conecta diretamente à de seu criador.

Reza a lenda que Sly (apelido do ator) escreveu o roteiro em três dias. Depois de se empolgar ao ver pela tevê uma luta de Muhammad Ali na qual o oponente resistiu bravamente sem ir à lona. Escutou muitos “nãos” dos produtores de diversos estúdios. Os engravatados tinham interesse no projeto, mas queriam um nome famoso para estrelá-lo. Pensavam em Robert Redford, Ryan O’Neal, Burt Reynolds ou James Caan. Stallone não se deixou abater. Ele queria protagonizar a própria história. À base da persistência alcançou o objetivo: os lendários Irwin Winkler e Robert Chartoff apostaram na ideia. O filme foi adquirido pela United Artists. Teve o orçamento reduzido, pois não teriam grandes nomes no elenco e precisavam diminuir os riscos de mercado. O mais conhecido talvez fosse Burgess Meredith, o Pinguim da série Batman dos anos 60, que encarnou de maneira icônica o treinador Mickey.

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Na direção estava escalado John G. Avildsen. Para quem cresceu nos anos 80, o cara é referência. Nem todo mundo lembra: o cineasta daria vida à franquia Karatê Kid. O núcleo central da trama era completado por Burt Young como Paulie (o irmão de Adrian), o ex-jogador de futebol americano Carl Weathers na pele do campeão dos pesos pesados Apollo “Doutrinador” Creed e, para viver o treinador desse último, o saudoso Tony Burton. Um time que rendeu química incrível. Todos com um ou mais momentos memoráveis.

A trama, a princípio, é simples: Apollo é o campeão mundial de boxe. O mais famoso. De jeito fanfarrão. Fala pacas, dança. Veste roupas coloridas antes das lutas. Especialmente com as cores da bandeira estadunidense. Tem luta marcada para o começo de 1976. Ano do bicentenário da independência da nação. Mas o oponente se machuca. A equipe do Doutrinador decide tentar uma jogada de marketing: na terra das oportunidades, por que não dar a chance a um pugilista desconhecido, de tentar o cinturão mais almejado do mundo? O escolhido? Rocky Balboa, na casa dos 30 anos, que faz bicos de cobrador para um agiota e participa de lutas mequetrefes na Filadélfia. Pelo caminho, o sujeito desengonçado, que mal sabe ler e escrever, se apaixonará e chocará o mundo. O interessante é que o principal oponente nessa jornada não é o adversário de ringue. São os obstáculos impostos pela vida. É assim nesse e na maior parte da série (exceto o terceiro e o quarto, lançados no auge da Era Reagan).

Eventualmente, especialistas em cinema costumam listar O Campeão (1979), de Franco Zeffirelli, e O Touro Indomável (1980), de Martin Scorsese, na lista dos melhores filmes sobre boxe. São grandes, importantes, referências. Ninguém duvida. Nenhum, no entanto, teve ou tem a popularidade que Rocky, Um Lutador conseguiu. Nem foram tantas vezes reexibidos.

Sylvester Stallone in Rocky (1976)

Parte dessa conexão entre espectador e obra se deve ao próprio Stallone, que cria uma figura errante, humilde, de fala estranha (devido à paralisia parcial no rosto do ator). E sua capacidade de interpretação que vai além das cenas de ação. Já comprovada em trabalhos a exemplo de Cop Land – Terra de Policiais (1997). É preciso destacar o lado empreendedor dele, que escreveu, atuou e posteriormente desenvolveu carreiras de diretor e produtor. Sendo raro exemplo de astro que viveu e imortalizou dois personagens icônicos da cultura americana: Rocky e Rambo. Outro é Harrison Ford com o Han Solo de Star Wars e Indiana Jones. Não vale citar Dolph Lundgren, outro bombadão dos anos 80, que viveu He-Man e Justiceiro em produções beirando o trash.

O filme não tem pressa em chegar ao embate decisivo tão aguardado. Desenvolve as situações pausadamente, as relações entre as figuras-chave da trama. As dificuldades dos trabalhadores do porto. O submundo do boxe. A vida na periferia. Tudo coroado pela empolgante e eternizada trilha sonora de Bill Conti (o mesmo de Karatê Kid). Fatores que fizeram milhões de trabalhadores se identificarem e transformarem o longa em sucesso de bilheteria: mais de US$ 225 milhões. Muito dinheiro no período em que os blockbusters davam os primeiros passos.

Teve dez indicações ao Oscar, das quais venceu três. Filme, Direção e Montagem. Levou o Globo de Ouro. Influenciou dezenas de produções no cinema e na tevê. Em 7 de dezembro de 2010, Stallone entrou para o Hall da Fama do Boxe Internacional pela contribuição ao esporte.

Entretanto, talvez sejam as pequenas falas de Rocky que o façam tão especial. Como aquela de Rocky Balboa (2006). Algo tipo “Não importa o quanto você bate, mas sim o quanto aguenta apanhar e continuar. O quanto pode suportar e seguir em frente. É assim que se ganha”. Só por isso, ele já merece nosso carinho.

Rocky, Um Lutador 
Rocky. 
Estados Unidos. 1976. 
Direção: John G. Avildsen. 
Com Sylvester Stallone, Talia Shire, Burt Young, Carl Weathers, Burgess Meredith, Thayer David, Joe Spinell, Tony Burton.
120 minutos. 

Sylvester Stallone and Carl Weathers in Rocky (1976)

Sylvester Stallone, Carl Weathers, Tony Burton, Thayer David, and Burgess Meredith in Rocky (1976)

Sylvester Stallone in Rocky (1976)

Sylvester Stallone and Carl Weathers in Rocky (1976)

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André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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