Uma crônica cinematográfica

Will Ferrell em Mais Estranho que a Ficção.
Will Ferrell em Mais Estranho que a Ficção.

O cinema, desde sua criação (em 1895, pelos irmãos Lumière) passou pelas mais diversas transformações: do cinema mudo ao falado; do preto e branco ao colorido. Além das várias escolas cinematográficas, com os seus conceitos muito próprios, como foi o neorrealismo italiano nos anos 50 (em que Roberto Rosselini era mestre), a nouvelle vague francesa nos anos 60 (onde François Truffaut, Jean-Luc Godard, dentre outros, fizeram parte do movimento da “nova onda”) e o movimento dinamarquês dogma 95 (onde Thomas Vinterberg com “Festa de Família”, de 1998 e Lars von Trier com “Ondas do Destino”, de 1996 e “Os Idiotas” de 1998, colocaram normas de como se rodar um filme, com o intuito de fazer um cinema mais realista, menos comercial). Mesmo com uma variedade tão grande de gêneros, estilos e intenções ao se fazer um filme, uma coisa permaneceu: o Cinema continua sendo considerada a 7ª arte (antes dele veio a Música, as Artes Cênicas, a Pintura, a Escultura, a Arquitetura e a Literatura).

Mesmo com esse conceito de 7ª “arte”, um filme, dependendo da intenção de quem o realiza, pode servir para fazer o espectador refletir, sofrer junto com o personagem ou com a ação, se divertir ou, simplesmente, ver e esquecer logo em seguida.

Se para um ator ao interpretar um personagem, ele precisa entender aquele ser humano, suas intenções, conhecer sua vida interior e seus hábitos e defende-lo (mesmo quando o personagem parecer indefensável) para dar vida àquele personagem, tão distante de quem ele realmente é, para o espectador a ligação passa a ser outra: ele torce pelo herói, pelo romance e, dependendo do carisma, até pelo vilão (Loki, meio-irmão de Thor que o diga).

Quando eu tinha uns 10, 11 anos eu sonhava ser Indiana Jones, Luke Skywalker e, pasme, até uma Tartaruga Ninja (Michelangelo até hoje é meu preferido), mas a identificação realmente do espectador com um personagem, seja ele da telinha (uma novela ou série de TV) ou da telona, não é por quem você deseja de fato ser, mas a verdadeira conexão espectador/personagem se dá quando você enxerga a alma daquele indivíduo na tela, como se fosse uma parte de você.

Ainda lembro uma das primeiras vezes que tive essa sensação. Com 18 anos, comecei a fazer uma maratona da série Dawson’s Creek. O protagonista estava sempre acompanhado de Joey Potter, uma garota que conhecia há tempos, por quem se descobria apaixonado ao final de uma temporada. Além disso ele era cinéfilo e completamente fascinado pelos filmes do Spielberg. Pronto! Estava aí o meu primeiro “eu televisivo”. Desde então, tenha colecionado uma série de “eus” televisivos e cinematográficos. Nenhum deles, diga-se de passagem, é o galã do lado de lá da tela (assim como não sou do lado de cá, rsrs), mas muitos deles têm um pouquinho dos meus defeitos, fraquezas e vulnerabilidades (como todos nós temos).

O cinema pode ser uma válvula de escape (como era para Cecilia, a personagem de Mia Farrow em “A Rosa Púrpura do Cairo”, que ia ao cinema assistir ao mesmo filme diversas vezes para fugir do marido agressor), mas também (assim como a TV) pode nos tornar escravos em frente à telinha ou à telona (que o diga o personagem de Jim Carrey, em “O Show de Truman” que era a vítima constantemente vigiada por todos, para o deleite dos espectadores que paravam suas vidas para observar a dele).

Prefiro enxergar o cinema como uma forma de se aprender sobre os mais variados assuntos, conhecer personagens e momentos históricos, histórias curiosas, emocionantes ou divertidas. Aprender mais sobre a vida (e morte) com os filmes de Ingmar Bergman; sobre neuroses do dia-a-dia com Woody Allen e ter um pouco mais de fé no ser humano, como os filmes de Frank Capra fazem até hoje.

Procuro ver o cinema, também, como um divã. Um divã em que o espectador vai se descobrindo, se reconhecendo e, algumas vezes, até encontrando saídas para situações em que achava que não existia.

Certas vezes, me sinto como o Harold Crick (personagem de Will Ferrell em “Mais Estranho que a Ficção” que não sabia que, na verdade, era o protagonista de um livro. Ele não se dava conta de que não existia de verdade), tamanha as surpresas que acontecem na minha vida (do lado de cá da tela), mas aí me dou conta de que, se não estiver gostando basta assistir a um próximo filme e procurar novamente, um outro “eu” cinematográfico e se não encontrá-lo em breve, sigo a vida com um pensamento de Bob Dylan (recém-premiado com o Nobel de Literatura): “Só consigo ser uma pessoa: eu. Seja lá quem eu for”.

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Festa de Família

 

Marcelo Reis nasceu no finalzinho dos anos 70, É jornalista por formação, assistente administrativo por ocupação e cinéfilo de coração. Apaixonado por cinema desde os 13 anos (quando uma cirurgia o obrigou a ficar 6 meses de cama), tem um carinho todo especial por musicais, dramas, comédias românticas (‘Harry & Sally – Feitos um para o Outro” é sua favorita), romances e filmes do Woody Allen. Quase sempre, se identifica do lado de cá com algum(a) personagem da telona ou da telinha.

3 thoughts on “Uma crônica cinematográfica

  1. Parabéns! Muito bom o seu texto! Leitura cativante e uma bela reflexão sobre a influência das telinhas em nossa vida!
    Continue a escrever!! Beijos!

  2. Adorei. De certa maneira tb me sinto como a Mia Farrow, em A Rosa Púrpura do Cairo (um dos meus preferidos de Allen), o cinema ainda é um refúgio, um lugar onde me esqueço um pouco da realidade. Por outro lado, tb me estimula e me enriquece. Parabéns. Escreva sempre e mais. Abraço.

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