Supergirl apresenta o Superman que precisamos

Melissa Benoist e Tyler Hoechlin: o casal de primos mais fofo de super-heróis do planeta.
Melissa Benoist e Tyler Hoechlin: o casal de primos mais fofo de super-heróis do planeta.

Spoilers no texto…

Escrevi em fevereiro deste ano.

“…a Warner, justamente por ter feito universos separados para cinema e televisão, tem a liberdade que a Marvel não tem – “Agentes da SHIELD” precisa criar cada vez mais personagens próprios, pois cada aparição de um Samuel L. Jackson da vida pode estourar o orçamento. Sem contar problemas de agenda dos grandes astros de Hollywood. (…) Os executivos da Warner, especialmente Greg Berlanti e Marc Guggenheim, parecem atender cada vez mais a imaginação dos fãs. Quem sabe não partam por esse caminho e invistam nos heróis que o público quer ver logo de uma vez junto aos que já estão no ar. Não seria demais? Aí poderíamos ver o Superman treinando sua prima ao invés do Caçador de Marte e não a deixando na mão quando kryptonianos do mal decidem destruir a Terra”.

Pois é. Na época, “Supergirl” estava na CBS. Agora, integra o quadro do canal a cabo CW, o mesmo de “Arrow”, “The Flash” e “Legends of Tomorrow”.

Naquele mesmo artigo, citei os heróis da DC Comics que haviam aparecido nestes seriados televisivos baseados em personagens da editora. “Arqueiro-Verde, Flash, Canário Negro, Pantera, Canário Branco, Nuclear, Átomo, Super Moça, Tornado Vermelho, J’onn J’onzz (Caçador de Marte ou Ajax para os mais antigos), Mulher-Gavião, Vibro, Gavião Negro, além de citações a Hal Jordan e seu Lanterna-Verde, Aquaman, o Homem de Aço”.

Superman deixou de ser citação no primeiro episódio da segunda temporada de “Supergirl”. Nele, Batman foi citado e Mon-El aparece. Ainda em fevereiro, imaginei o quão bacana seria uma minissérie juntando a galera toda, inspirada no megaclássicos das HQs, “Crise nas Infinitas Terras”. Levando em conta, obviamente, os limites orçamentários da televisão.

A adaptação de “Crise” não vai rolar. Ao menos por enquanto. Mas foi anunciado o crossover entre os quatro programas do canal e que será baseado em outra saga conhecida dos quadrinhos, “Invasão”. Legal pacas, certo? Em parte. Será demais ver todo mundo junto enfrentando alienígenas que querem dominar a Terra. Só que Kara, a prima de Clark, ainda não fará parte do mesmo universo dos colegas. Celebramos, até a página 2…

A foto que gerou polêmica.
A foto que gerou polêmica.

Uma pena, pois “The Adventures of Supergirl”, que abre a nova temporada, é uma ode à nerdice. Tal qual foi “Bem-vindo a Terra 2”, do segundo ano de “The Flash”. Ambos recheados de referências. Que abrem diversos precedentes. Dignos da alegria dos fãs que desejam ver, em carne e osso, as versões ideais, ou mais próximas disso, de seus personagens preferidos dos gibis.

Não à toa, quebrou recordes: foi assistido por 3 milhões de espectadores e conseguiu 1.2 de rating no público predileto dos anunciantes, na faixa etária de 18 a 49 anos. Ou seja, o CW viu sua audiência triplicar. A melhor marca, até então, era da comédia “Crazy Ex-Girlfriend”. Ainda por cima, a emissora não atingia tantas pessoas numa segunda-feira desde 2008, com “Gossip Girl”.

O êxito é explicável.

1 ) A expectativa gerada por conta da mudança de “casa”. Além da nova emissora, a atmosfera é outra. “Supergirl” é gravada atualmente em Vancouver, mesma cidade onde são rodadas suas coirmãs.

2 ) A deixa para a continuação da trama. Ao fim do último episódio da primeira temporada, vimos uma nova nave caindo em National City. Sem saber o que havia dentro. Houve quem pensasse ser o Supercão Krypto. Seria muito fofo. Tudo a ver com o tom das histórias. Não é.

3 ) O anúncio de que, finalmente, poderíamos ver o Superman. De verdade. Vestindo o uniforme. E usando óculos quando Clark Kent. Não somente as trocas de mensagens pelo computador ou imagens ao longe, contraluz ou fora de foco.

Muita gente torceu o nariz para a escolha de Tyler Hoechlin, egresso de “Teen Wolf”, para encarnar a nova versão do Azulão. As primeiras fotos não ajudavam muito, é verdade.

No entanto, toda e qualquer desconfiança foi dissipada assim que ele surge em cena, junto da prima protagonista, para salvar uma nave prestes a se espatifar em solo terrestre. É a sequência que abre o episódio e, de cara, nos lembramos de todas as vezes que Superman precisou ajudar algum veículo aéreo em queda livre. Seja o helicóptero de “Superman” (1978) ou o avião de “Superman, o Retorno” (2006). Este último era uma homenagem ao clássico estrelado por Christopher Reeve. Assim como é este novo Homem de Aço da TV.

Se a encarnação de Brandon Routh no filme de Bryan Singer não vingou justamente por ser um Superman à moda antiga – uma continuação direta dos filmes de 78 e 1980 – em tempos que o espectador preferia heróis mais cínicos ou anti-heróis, o Clark/Superman de Hoechlin surge no momento em que o mundo parece cada vez mais caótico: terrorismo, intolerância, desemprego. Tudo em alta escala. É o tipo de super-herói que precisamos. Alguém que nos inspire, transmita segurança. Igual àquele de Christopher Reeve. Principalmente também, por que, nos cinemas, no universo expandido da DC produzido pela Warner, há o Superman de Henry Cavill: tão pesaroso, de sobrancelha em riste e sombrio quanto o Batman.

Nos quadrinhos, o Homem de Aço e o Homem-Morcego se completam, são respectivamente luz e sombra. Atualmente nas telonas soam iguais em tom. O resultado: “Batman V Superman: A Origem da Justiça”, primeira reunião da dupla no cinema, não alcançou o US$ 1 bilhão de faturamento sonhado pela Warner. O público cobrou e o estúdio parece que vai inserir mais humor em “Liga da Justiça” (2017).

Montagem com a imagem icônica da saga "Crise nas Infinitas Terras" e cena do segundo episódio da temporada.
Montagem com a imagem icônica da saga “Crise nas Infinitas Terras” e cena do segundo episódio da temporada.

“Supergirl”, por outro lado, nasceu uma obra ensolarada, colorida. Repleta de amor. Importante ao apostar numa protagonista feminina. É uma série para a mulherada, sim, e para todo o mundo. Com elementos de “O Diabo Veste Prada”. Sem abrir mão das referências e easter-eggs. Mistura ação, amor, amizade, família, fofura e mantém a essência dos quadrinhos. Começou insegura. Amadureceu, se encontrou e agora é um dos seriados mais legais inspirados nos gibis. Ao lado do Velocista Escarlate, é a “mais HQ” da telinha.

“The Adventures Of Supergirl” começa chamando atenção pelo título. Lembra “The Adventures Of Superman”, a série televisiva dos anos 50 estrelada por George Reeves. Em seguida vemos Clark ao telefone falando com Perry White, o editor do jornal Planeta Diário.

Aos poucos, descobrimos que Lois é sua namorada e se preocupa com ele. Uma família decide voltar para Gotham. Cat Grant (Calista Flockhart) grita com a assistente Eve Teschmacher, igual o Lex Luthor de Gene Hackman berrava com a assistente homônima vivida por Valerie Perrine em 1978. Cat, outra vez, paga um pau tremendo para Clark, assim como rolava na série “Lois & Clark: As Novas Aventuras do Superman”, dos anos 90, e nos quadrinhos. Clark é atrapalhado. Cita o “terremoto do Lex”. Alguém, em determinado momento, fala que o voo é a forma mais segura de transporte. São alusões ao longa dirigido por Richard Donner no fim dos anos 70. Há Lena Luthor, a irmã de Lex, que está preso. Cada referência faz sentido, funciona, causa aquele sorriso no fã mais antigo.

Mais: o Superman sorri, possui charme, empatia. Traz aquela postura que gera admiração, respeito. É um cara na dele. Preocupado em fazer o bem. Já se comenta na internet uma possível série solo dele.

Como a Warner decidiu que seus universos, no cinema e na TV, são completamente separados, diferente do que a Marvel faz, seria muito bacana ver logo as versões dos principais personagens da empresa transportados para a telinha. O Flash tem sua série. E está no cinema. Com atores diferentes. Por que não fazem logo uma versão da Liga na televisão: Cada herói poderia ser a estrelada de um episódio. Nos últimos da temporada, se juntariam todos para salvar o mundo.

Por que “Supergirl”, por mais que nos desperte a vontade de ver e rever seu primo, é uma série sobre Kara. E tem que ser assim. Até por que Melissa Benoist possui um charme raramente visto em Hollywood. Não é só bonita. Tem aquele “algo mais”. Sem o estereótipo machista de que super-heroínas precisam vestir trajes minúsculos e terem corpões esculturais. Melissa é o tipo de pessoas que olhamos, escutamos – tipo o Grant Gunstin de “The Flash” – e logo queremos ser amigos, dar um abraço, trocar uma ideia, tomar um café (não o “café” do Luke Cage – saiba mais conferindo a série do Netflix).

“The Last Children of Krypton”, o segundo episódio da segunda temporada, promete mais. No vídeo divulgado deu para perceber uma clara referência à “Crise nas Infinitas Terras”. Que o programa continue assim e abra, cada vez mais, margens para que tenhamos um universo da DC completo na televisão. Não apenas os fãs agradecerão. Mas todos aqueles que procuram um mundo mais diversificado e com alguma esperança.

PS: Pra ficar tudo perfeito, coloquem logo todos esses heróis dentro de um mesmo universo, por favor.



 

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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