Crítica | Aquarius

Sonia Braga em "Aquarius".
Sonia Braga em “Aquarius”.

When the moon is in the Seventh House
And Jupiter aligns with Mars
Then peace will guide the planets
And love will steer the stars

This is the dawning of the age of Aquarius
The age of Aquarius
Aquarius!
Aquarius!

Esse é um trecho da canção “Aquarius” do clássico musical off-Broadway “Hair” que estreou nos palcos americanos em 1967 e que encantou o mundo ao falar sobre a era hippie e a revolução sexual. A canção, à época, foi usada em movimentos contra a Guerra do Vietnã.

Além da montagem americana de 1967 (e de sua versão para as telonas feita pelo talentoso cineasta tcheco Milos Forman em 1979), houve, também, no final dos anos 60, uma montagem brasileira com Sonia Braga. Não é de se estranhar que o novo filme de Sonia, chame-se, justamente, “Aquarius” (nesse caso, o nome do prédio onde a protagonista vive). Afinal, trata-se de um filme sobre memórias. Um filme sobre como preservá-las e lutar pelo que é seu, resistindo às mudanças (por mais bruscas que elas sejam) e mantendo-se firme às suas convicções.

Clara é uma escritora e jornalista aposentada que vive em Recife no único apartamento habitado de um prédio em frente ao mar que dá nome ao filme. Todos os outros apartamentos já foram comprados por uma construtora que tem a intenção de construir um novo empreendimento imobiliário. O único empecilho deles é, justamente, Clara que não aceita oferta alguma nem com a insistência do jovem (e ambicioso) Diego (Humberto Carrão) que está à frente do projeto. Enquanto Clara luta, em seu próprio lar, com alguém que se opõe aos ideais dela, no caso, com sua filha, Ana Paula (Maeve Jinkings).

Esse é o mote de “Aquarius” novo longa do cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho, do elogiadíssimo e premiado “O Som ao Redor”. Seu domínio técnico e narrativo são impressionantes e dão sempre o tom certo ao filme. Contar com maior estrela do cinema brasileiro, a icônica Sonia Braga ajuda (e muito). E, talvez, esteja aí o seu maior triunfo.

Numa indústria em que não se dá muitas oportunidades a atrizes de uma certa faixa etária (no caso, a partir dos 60 anos) é incrível Sonia ter o papel certo, na hora certa e encantar com uma personagem que lhe cai como uma luva.

Aquarius

Vale ressaltar que ela está cercada de ótimos coadjuvantes: de Humberto Carrão (a quem estamos mais acostumados a ver em novelas) se sai muito bem como o vilão da trama; Maeve Jinkings (a filha de Clara) tem uma interpretação super natural e Irandhir Santos (Roberval, o salva-vidas amigo de Clara) também está ótimo.

Num filme sobre memórias, vale ressaltar “objetos cênicos” como o toca-discos e LPS da protagonista, mas também a linda trilha musical (com canções de Chico Buarque, Maria Bethânia, Roberto Carlos, Queen, etc).

Se o filme deixa uma marca, essa é a marca da saudade. Saudade do que se foi. Saudade do que não volta mais, por mais que lutemos para manter viva a memória. Seja a memória de Clara por sua família e de tudo que viveu em seu lar. Seja a memória do espectador brasileiro por seu cinema que já foi tantas vezes violado, censurado, criticado, que vive diariamente em luta para manter-se de pé e manter o interesse de seu público (muitas vezes mais interessado em consumir filmes norte-americano). Afinal, não é só Clara quem tem um adversário dentro de casa. O cinema nacional, infelizmente, também tem: o público.

“Aquarius”, o maravilhoso filme de Kleber Mendonça Filho, cumpre assim seu papel: dar ao espectador uma obra de arte e lembrá-lo que filme nacional é muito mais do que as “globochanchadas” que imperam nas salas de cinema anualmente.

“Aquarius” é a prova de que filme brasileiro também pode ser muito bem feito, merece ser consumido e apreciado. Afinal, num filme sobre memórias é sempre bom lembrá-los disso.



 

Marcelo Reis nasceu no finalzinho dos anos 70, É jornalista por formação, assistente administrativo por ocupação e cinéfilo de coração. Apaixonado por cinema desde os 13 anos (quando uma cirurgia o obrigou a ficar 6 meses de cama), tem um carinho todo especial por musicais, dramas, comédias românticas (‘Harry & Sally – Feitos um para o Outro” é sua favorita), romances e filmes do Woody Allen. Quase sempre, se identifica do lado de cá com algum(a) personagem da telona ou da telinha.

One thought on “Crítica | Aquarius

  1. Grandes personagens pra atrizes com certa idade é muito difícil – Me lembrei de Central do Brasil com a Fernanda Montenegro.

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