Lúcida | Filme que retrata realidade das mães na periferia faz bela carreira em festivais

Fabio Rodrigo na coletiva de imprensa em Gramado (Foto: Paula Azenha).
Fabio Rodrigo na coletiva de imprensa em Gramado (Foto: Paula Azenha).

A jornada do curta-metragem “Lúcida” é digna de admiração. Prova do poder de transformação do cinema e de quem se dedica à arte. Realizado a custo praticamente zero pelo casal Fabio Rodrigo e Caroline Neves, retrata a maternidade na periferia de São Paulo. Sem contornos, clichês, direto ao ponto.

Coloca o dedo na ferida e essa contundência e a maneira criativa como resolveram as questões cinematográficas mesmo com poucos recursos tem reverberado nos principais festivais de cinema do país e os que possuem credibilidade em suas curadorias. Venceu, por exemplo, o prêmio da crítica em Gramado. Recebeu prêmios e elogios em Minas, Pernambuco, Nicarágua, Chile.

Foi durante o festival realizado na charmosa cidade da Serra Gaúcho que conheci pessoalmente Fabio Rodrigo. Havíamos trocado mensagens pelo Facebook. Por indicação do colega jornalista e também cineasta santista Wladimyr Cruz, a quem pedi indicação de diretores de filmes que abordem, de alguma maneira, questões relativas à cidadania, para uma mostra em Santos.

O curta-metragem foi exibido num domingo, 28 de agosto, antes do longa “O Silêncio do Céu”, de Marco Dutra e estrelado por Carolina Dieckmann, cuja personagem é estuprada e precisa lidar com o trauma.

Também foi exibido o curta “A Página”, de Guilherme Andrade, que proferiu o primeiro protesto anti-Temer naquela noite. Fabio, por sua vez, quando teve chance de falar ao microfone, teve o depoimento mais forte do evento, de forma serena, sem jogar para a plateia: “’Lúcida’ é a maneira que encontramos para refletir nossa realidade. Há muita gente que vive sem saber se terá comida para o dia seguinte, se vai conseguir comprar a bolacha pedida pelo filho”.

lucida
Ele sabe do que fala. Fabio cresceu sem conhecer o pai. Viveu na Zona Norte de São Paulo. Atualmente mora com a esposa e o filho em Itaquaquecetuba. Ambos, no momento, estão sem emprego fixo. Conheceram-se na Faculdade de Produção Audiovisual da Anhanguera. Conseguiu cursá-la graças à ajuda da Associação Educar Para a Vida (www.educarparavida.com.br): um argumento necessário para quem prega a meritocracia sem prestar atenção nas desigualdades e falta de oportunidades recorrentes à nossa sociedade. Sem esse tipo de incentivo, provavelmente não teríamos a chance de conhecer sua obra.

Depois, participou das Oficinas Kinoforum, do Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo. Uniu a formação profissional à experiência de vida, especialmente a convivência com o Movimento Hip Hop paulistano do final dos anos 80 e começo dos 90. Quando conheceu o cinema engajado de Spike Lee. Admira cineastas brasileiros como André Novaes Oliveira (“Ela Volta na Quinta”), e Jeferson De (“Brother”). Este último integrou a curadoria em Gramado e defendeu a presença de “Lúcida” na seleção final.

Iluminado com lâmpadas caseiras e equipamentos improvisados à base de materiais recicláveis, com uma câmera fotográfica e uma única lente, a do kit básico, “Lúcida” mescla, em 16 minutos, documentário e ficção. Narra a história da mãe e do filho recém-nascido abandonados pelo pai da criança. A trama inicia quando ela recebe a visita da amiga Jéssica que, aos poucos, vai desvelando os problemas sentimentais e financeiros que vive a mãe, interpretada pela própria Caroline Neves.

Os demais atores da produção são parentes e amigos. Juntos, eles formam a produtora idealizada pelo casal, a “Ira Negra”, cujo slogan é “do gueto para o gueto”.

O filme é o manifesto de quem vive e enfrenta as dificuldades do dia a dia nas periferias do Brasil. Traz á tona o “do it yourself” (faça você mesmo) do punk. Lema de quem não espera ter a melhor estrutura, dinheiro ou os melhores equipamentos para dar vida à sua arte. Várias das cenas do bebê (o filho Vinicius, do casal, que hoje tem dois anos) são reais, gravadas via celular, trocadas entre Fabio e Caroline enquanto o bebê crescia.

Sua crueza chegou a ser questionada por alguns jornalistas na coletiva de imprensa em Gramado. “Simplesmente é a realidade que vivemos”, disse Fabio, ao ser perguntado o motivo pelo qual o curta não abre brecha para o humor, para alguma leveza, como fazem outros cineastas que filmam as comunidades paulistanas.

Tive a oportunidade de entrevistá-lo, ou melhor, ter uma longa conversa, no dia seguinte à exibição do filme. Foi uma troca de ideias muito especial e um aprendizado ante a perseverança de um cara jovem, de pouco mais de 30 anos (quase a mesma idade que eu) e que não se deixa abater. Perguntei qual o sonho dele. Fabio, que chegou a trabalhar na área de telemarketing, disse que, inicialmente, conseguir um trabalho para pagar as contas e criar o filho. Quanto ao futuro no audiovisual, disse saber que as produtoras dão preferência aos recém-saídos das faculdades e que vai procurar parcerias para produzir seus projetos.

Durante o papo, percebi não haver um pingo de rancor em suas falas. Afinal, se houvesse, seria mais que compreensível. Pois vivemos num país onde negros e outras minorias têm suas chances de êxito – ou a ideia de êxito nos imposta durante gerações – esmagadas. O diretor disse que prefere se dedicar à família, ao batalhar o melhor para eles, já que a vida está passando e sabe o quão difícil é conseguir mudar as coisas por enfrentamento. Deixa a contundência para a arte.

Tomara que alcance seus objetivos. O cinema brasileiro terá, assim, um talento que pode nos proporcionar obras admiráveis.

“Lúcida” de Fabio Rodrigo e Caroline neves – Melhor curta-metragem pelo júri da crítica no Festival de cinema de Gramado from Fabio Rodrigo on Vimeo.

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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