Os 30 anos da Pixar: Como tudo começou

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O cinema atual dificilmente vê alguma revolução, algo realmente novo, com frescor, apontando novos caminhos. Seja no sentido técnico, ou no artístico. Ok, tecnicamente surgiram as câmeras utilizadas em “Avatar” alguns anos atrás. Mas tem sido raro quem alie tecnologia e, principalmente, talento, para criar obras absolutamente inovadoras.

Em Hollywood, produtores preferem investir em fórmulas prontas. Repetidas interminavelmente. Isso quando não se acomodam por completo e fazem as refilmagens, geralmente piores que os originais – há exceções obviamente. Já vimos de tudo, e pensamos muito antes de sair de casa e conferir o lançamento da semana. No cinema independente, também. Não há a mesma criatividade de antes.

Por isso mesmo, é preciso celebrar os 30 anos da Pixar. São três décadas de serviços, e que serviços, prestados ao cinema. Filmes inovadores, emocionantes, atemporais e universais. Capazes de agradar crianças, jovens e adultos. Homens e mulheres. Entreter e gerar reflexão.

O início

John Lasseter.
John Lasseter.

A semente surgiu na divisão de informática da LucasFilm, de George Lucas (“Star Wars”). Em 1986, a Lucasfilm Computer Graphics seria comprada por Edwin Catmull e Steve Jobs (cofundador da Apple), e transformada na Pixar Animation Studios.

Nos primeiros meses, a companhia desenvolveu hardwares. Um sujeito, admirador de Walt Disney, Hayao Miyazak e que trabalhara com George Lucas, foi o responsável pela transformação: John Lasseter. O cineasta pegou tanto no pé dos chefes, que deu vida ao primeiro curta da marca: “Luxo Jr.”, lançado em agosto daquele mesmo ano. Com ele, o diretor mostrou que equipe de criação e tecnologia poderiam trabalhar em prol da arte.

Na época, a importância da Pixar passou despercebida do público. Profissionais do cinema, no entanto, celebraram.

A revolução

“A mescla de uma tecnologia em plena evolução e a criação artística resultaram em algo que nunca havia sido antes”, disse Ed Catmull em entrevista à AFP na época dos 25 anos completados pela empresa. “Era como no início da Disney, quando o cinema era novo e a animação apenas começava, era uma revolução técnica. Walt sempre introduziu tecnologia de ponta em seus filmes”, comentou o atual presidente da Pixar e dos estúdios Walt Disney Animation. A Disney adquiriu a Pixar em 2006.

Os curtas de Lasseter apontaram o caminho, sedimentado em 1995 pelo clássico “Toy Story”, do mesmo cineasta e primeiro longa animado concebido com imagens digitais na história cinematográfica. O filme ganhou o mundo e arrecadou mais de US$ 350 milhões.

“‘Toy Story’ foi o primeiro filme com imagens digitais no qual o público esqueceu que estava vendo imagens criadas pelo computador. Queria apenas saber o que aconteceria com Woody e Buzz Lightyear. Todo cineasta sabia que esta era uma vitória”, explicou o veterano animador Tom Sito, também à AFP. Em sua carreira, Sito trabalhou na Disney (“Aladdin”, “A Pequena Sereia”, “O Rei Leão”, entre outros), e na DreamWorks (“Shrek”, “O Príncipe do Egito”). E é professor da Faculdade de Animação da Universidade do Sul da Califórnia, em Los Angeles.

“Outros estúdios pioneiros na animação digital estavam lotados de engenheiros que se consideravam artistas amadores, e de outros verdadeiros artistas que tentavam compreender algo de informática. A Pixar preferiu criar uma divisão de engenharia de altíssimo nível, de um lado, e uma equipe com pessoas muito criativas do outro. Desta maneira, cada um pôde trabalhar em seu domínio”, acrescentou.

Filmografia impecável

A maneira de dividir as equipes gerou uma sequencia de trabalhos impecáveis, alguns clássicos absolutos. Os dois primeiros “Toy Story” (1995 e 1999), “Monstros S.A.” (2001), “Procurando Nemo” (2003), “Os Incríveis” (2004), “Carros” (2006), “Up, Altas Aventuras” (2009), “Ratatouille” (2007), “Valente” (2012), “Divertida Mente” (2015), “Procurando Dory” (2016), “Wall-E” (2008) e “Toy Story 3” (2010). Esses dois últimos duas das melhores animações de todos os tempos. Público e crítica renderam-se de tal maneira, que praticamente todos os lançamentos da Pixar alcançam êxito de bilheteria e acumulam prêmios mundo afora.

Raras vezes escorrega: mesmo “Carros 2” (2011), “Universidade Monstros” (2013) e “O Bom Dinossauro”, seus trabalhos menos inspirados, possuem seus bons momentos.

John Lasseter também dá sua visão sobre a essência da Pixar: “Nós fazemos o tipo de filmes que queremos ver, nós gostamos de rir, mas também acredito no que Walt Disney disse certa vez: ‘Para cada riso deve haver uma lágrima’. Eu adoro filmes que me fazem chorar, porque eles estão gerando uma emoção real em mim, e eu sempre penso depois: como eles fizeram isso? ‘. Desde o início eu digo que não é a tecnologia que vai entreter o público, é a história. Quando você vai ver um ótimo filme live-action, você não sai e diz que a nova câmera Panavision é impressionante. Diz: ‘Ele fez o filme tão bom’. O computador é uma ferramenta, e está a serviço da história.”

Tudo o que Lasseter diz é verdadeiro e deve ser respeitado. Mas talvez a principal qualidade da Pixar, e que a diferencia de outros estúdios competentes, é manter-se artesã. Criar trabalhos que precisam de retorno financeiro, sem abrir mão da verve artística, da contundência, da ironia, da paixão, e do que o cinema já realizou de melhor. Em seus filmes, podemos encontrar um pouco de Disney, do humor físico e inteligente de Charles Chaplin, do humanismo de Frank Capra, da sabedoria do cinema oriental, da complexidade de Stanley Kubrick. “Wall-E” é um que pode ser encarado como o encontro entre Chaplin e Kubrick. Cinema clássico e vanguarda. Nostalgia e a busca pela inovação. Fatos que fizeram e fazem a Pixar elevar o gênero animação a um patamar inimaginável. Capaz de competir, de igual para igual, em complexidade e até “interpretação”, com as melhores produções live-action. Além disso, a Pixar jamais esqueceu suas origens e segue produzindo curtas saborosos, geralmente lançados juntos com os longas, abrindo as sessões.

Parabéns Pixar. Como diz o clichê, que venham mais 30, 60, 90 anos.


Luxo Jr., o primeiro curta da Pixar:


 

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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