Crítica | Anita

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Antes que alguém possa se perguntar, não, não é uma cinebiografia da cantora que se apresentou na abertura dos Jogos Olímpicos no Rio. Aquela tem dois Ts no nome. Mas também não duvido que isso possa acontecer em pouco tempo. Até por que, queiram ou não, a Anitta de hoje não deixa de ser um símbolo da força feminina. Gostemos de sua música, de seu jeito de se vestir, ou não.

O filme em questão é sobre a outra Anita, nome importante da história brasileira: a Garibaldi (1821-1849).

Convidado para ser lançado durante o 44º Festival de Cinema de Gramado, fora da competição, bem no dia do aniversário da própria, o longa de Olindo Estevam acompanha um período de vida pouco falado da catarinense: a infância, a juventude e o primeiro casamento. Antes de conhecer o revolucionário italiano Giuseppe Garibaldi, seu segundo marido.

Por sinal, presenciamos a relação deles na minissérie “A Casa das Sete Mulheres” (2003), da Rede Globo, e no longa “Anita e Garibaldi” (2013), quando ela ganhou interpretações respectivamente de Giovanna Antonelli e Ana Paula Arósio.

Ao optar por focar a história na juventude de Anita, o filme produzido pelo jornalista Rolando Christian Coelho destaca o papel da mulher na sociedade e a maneira como, até hoje, muitas precisam superar o machismo, a opressão, o preconceito. Escolha corajosa, diferente. Pois sempre que nós, leigos, ouvimos falar dela na grande mídia, sua imagem é atrelada imediatamente ao europeu.

anitaokAqui não. Presenciamos a morte do pai. O tempo em que sua família viveu na miséria. Quando ela, a mãe e irmãos acabaram expulsos de suas terras por vizinhos inescrupulosos. Sujeitos que viram, na falta de um “chefe de família”, a chance de subjugar mulheres e crianças indefesas. Por isso, Anita, ainda muito nova, precisou aceitar os “cortejos” de um desconhecido e se casar com ele. Para salvar a família. Não passar fome. Qualquer outra oportunidade era impossível quando mulheres pouco tinham direito a algo – não que tenha mudado muito em diversas situações de lá para cá.

Tecnicamente há uma estética televisiva, que remete a minisséries e novelas de época. Certas cenas chegam ao melodrama. Principalmente as que trazem a protagonista aos prantos, prolongadas, que soam exageradas e podem incomodar.

Após a exibição, no entanto, gaúchos com quem conversei celebravam a adaptação, a fidelidade à cultura do sul do Brasil. Estavam emocionados.

Neste instante lembrei as palavras do grande crítico norte-americano Roger Ebert, de que certos filmes nos pegam de jeito, nos envolvem, ficam na memória, independente de suas qualidades e/ou defeitos. Rendi-me. E percebi o quão importante para o público local era ver sua história contada na tela.

Além, claro, de admirar o cuidado dos figurinos, da ambientação, e o elenco experiente com Rosi Campos, Jackson Antunes, Neusa Borges, Anselmo Vasconcelos, Germano Pereira, um surpreendente Luciano Szafir fazendo às vezes de vilão. E a também catarinense Lise Souza dando uma aura que mistura ingenuidade e garra á protagonista, ainda que tenha mais que os 14 anos de Anita quando ela se casou na vida real, segundo os registros. Por vezes indefesa, há lampejos da mulher guerreira que surgiria pouco tempo depois.

Mesmo mostrando uma figura do século XIX, “Anita” é um importante manifesto em prol das mulheres, Inclusive nos dias que correm.

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Obs: O filme, rodado durante 18 meses e cuja equipe reuniu cerca de 500 profissionais, estreia em cidades de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul.

Obs 2: Visto no 44º Festival de Cinema de Gramado.


 

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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