Festival de Gramado | Sonia Braga encanta e Aquarius é ovacionado

Foto: Paula Cristina Cagnani Fernandes/CineZen.
Foto: Paula Cristina Cagnani Fernandes/CineZen.

A imagem de Sonia Braga em sua página do Facebook, cerca de um ano atrás, no topo de um edifício em Nova York, com seu lindo sorriso e o roteiro de ”Aquarius” nas mãos,  transbordando de felicidade, era um anúncio de que algo muito especial se aproximava da maior estrela de cinema brasileiro. Quando completou 65 anos, anunciou profeticamente: ”e isso é só o começo”. Não poderia estar mais certa.

“Aquarius” é mesmo um filme extraordinário, uma obra prima, e ainda traz Sonia Braga num papel feito sob medida para seu imenso talento e versatilidade. Com uma notável carreira cinematográfica na qual se destacam suas perfeitas  interpretações de grandes heroínas da literatura nacional ”A Moreninha”, “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, ”A Dama Do Lotação”, “Gabriela, Cravo e Canela”, ”Tieta do Agreste”, ”Memórias Póstumas”, Sonia disse na coletiva da imprensa do Festival de Cinema de Gramado que não se sentia afastada do cinema nacional, e que sua suposta ”volta” se deu com “Tieta”, em 1996. ”Onde quer que eu vá, sinto-me representante do cinema brasileiro”. Só que passaram-se longos vinte anos para ela ser, em suas palavras, “resgatada de Marte” para novamente desfrutar de um sucesso do quilate de ”Dona Flor”, “Eu te Amo” ou “O Beijo da Mulher-Aranha”, que lhe estabeleceram o status de rainha das bilheterias e grande atriz.  Em “Aquarius”, sua  interpretação de uma mulher admirável, Clara, é tão forte e impressionante que lhe rendeu uma enxurrada de elogios no Festival de Cannes em maio – incomparável, magnífica, sublime, extraordinária – são alguns deles.

Era a favorita da crítica para o prêmio de atriz; dizem que só não ganhou porque ela já tinha sido ”premiada” ao se tornar o centro das atenções, além do fato de o filme ter tido um sucesso estrondoso. Não precisavam de prêmios. Mas “Aquarius” e Sonia desde então têm sido aclamados e premiados por onde passam – melhor filme nos Festivais de Sydney, Polônia e Lima, onde ela foi a melhor atriz.

Perguntada se considerava esse o seu trabalho mais complexo, Sonia disse que outros papéis também haviam exigido muito dela, de modos diferentes. Que cena havia sido mais difícil? Nenhuma em particular, talvez somente aquela na qual  precisa tocar piano e cantar, embora rapidamente. O que lhe causou literalmente medo foi o método ”Kleber Mendonça Filho” de dirigir. Ele gosta de ensaio, coisa que ela até então ”morria de medo”. No entanto, com Kleber Sonia venceu esse obstáculo e passou a apreciá-los. Kleber também gosta de usar ”não atores” em suas obras, obtendo resultados formidáveis. O  grande cineasta pernambucano, reverenciado pelo New York Times por “O Som ao Redor”, pertence ao grupo seleto de diretores que escrevem e também dirigem, tais como Woody Allen, Pedro Almodóvar, Blake Edwards e Ingmar Bergman. Perguntei-lhe se quando escreve o roteiro de um filme, ele já imagina como o irá filmar. Ele disse que é exatamente assim que trabalha.

Foto: Paula Cristina Cagnani Fernandes/CineZen.
Foto: Paula Cristina Cagnani Fernandes/CineZen.

”Aquarius” foi concebido  com perfeição, acompanhando a vida de Clara, uma jornalista/crítica musical aposentada, que venceu um câncer, e  viaja no tempo através de seus arquivos e recordações. Como numa ópera em três partes, seu drama é ser a última residente em um prédio antigo e charmoso – Aquarius – cujos apartamentos restantes foram todos comprados por uma multinacional que quer derrubá-lo para erguer um arranha-céu em seu lugar. Uma vez que Aquarius é o porto seguro e referência para Clara, ela vai lutar corajosamente. Seus valores, sua determinação e caráter evocam uma  luta política. A interpretação de Sonia é um dos grandes trunfos do filme e tão magnética, forte e destemida, que Sonia e Clara tornam-se uma só.. Ela sofre sozinha em família,  diverte-se com as amigas, pulsa com sensualidade numa idade mais tenra. E vai à guerra, se precisar. Os silêncios de Clara nos tocam profundamente..Com apenas um olhar, Sonia consegue dizer o que mil palavras não conseguiriam. Kleber sabia disso. Em outros momentos, o diálogo jorra.

Sonia nos faz refletir, sorrir, rir, chorar. Uma interpretação arrebatadora cheia de nuances, matizes, sutilezas, mostrando uma maturidade artística digna de Oscar. O filme tem uma estrutura elaborada com perfeição, dosando equilibradamente drama, comédia, suspense, música esplendorosa de Taiguara, Maria Bethânia, Roberto Carlos, Queen e Villa-Lobos alternada com silêncios perturbadores. Outras de suas inúmeras qualidades incluem um elenco de apoio primoroso que inclui Humberto Carrão, Maeve Jinkings e Irandhir Santos, diálogos brilhantes, reconstituição de época impecável, bela fotografia e direção de arte gerando imagens ora líricas, ora perturbadoras, enigmáticas, que levam a um desfecho inesperado e avassalador.

Na abertura do Festival de Gramado, Sonia Braga surgiu deslumbrante ao caminhar no tapete vermelho. Super simpática e simples, estava elegante num longo preto com discretas transparências, que ela mesma desenhou. Jóias discretas e uma trança a deixavam ainda mais glamurosa. A multidão a saudava gritando seu nome; ela acenava e sorria feliz. Eu estava lá porque, na condição de grande fã de Sonia e dono de um belo arquivo sobre a estrela, fui considerado um ótimo consultor pelo crítico  Rubens Ewald Filho, curador do festival, para colaborar com a equipe de produção na homenagem que o festival queria prestar a ela por sua ilustre carreira, durante a entrega do troféu Oscarito. Quando La Braga me avistou no red carpet, bem brincalhona, disparou: “Waldemar!” E me levou para perto do Kleber e a equipe de “Aquarius” para me apresentar:

“Gente, esse é o Waldemar!”  Já dentro do cinema, ela foi ovacionada ao receber seu prêmio das mãos do amigo/diretor Bruno Barreto. Discursou lindamente, encantando o público. Sou amigo de Soninha há anos e sempre mantenho contato com ela. Na coletiva, ao entrar e me ver, parou para me abraçar e dar um beijo. Adorou minha camiseta com o poster de “Aquarius”.

Ao mencionar a admiração que tinha por Dina Sfat, com quem trabalhou na novela ”Fogo Sobre Terra”, em mil novecentos e setenta e…” – e eu completei, “74”, ela disparou, ”o Waldemar sabe tudo”, e caiu na risada, todos os jornalistas também. Perguntei a ela se ela havia encontrado em Clara a personagem com quem tanto havia sonhado nos últimos tempos, com a idade dela, os mesmos anseios, pensamentos, objetivos, sonhos, sensualidade. Extremamente feliz, ela disse sim, que sonhava novamente com um personagem assim, e falando na sua língua. ”As palavras de Clara são as minhas palavras!”

O muito aguardado “Aquarius” finalmente estreia no Brasil, em meio a um turbulento momento político. As expectativas são enormes, e o público percebe pela repercussão das exibições no exterior e nos festivais que elas estão todas confirmadas. As próximas paradas dessa trajetória cheia de brilho são o Festivais de Nova York e Toronto, que são as primeiras portas para o Oscar. Que ele venha para Sonia e para “Aquarius” como a coroação de uma obra prima.

Foto: Paula Cristina Cagnani Fernandes/CineZen.
Foto: Paula Cristina Cagnani Fernandes/CineZen.

 

Waldemar Lopes é artista plástico, engenheiro mecânico, professor, cinéfilo. Anualmente realiza em Santos uma palestra beneficente sobre o Oscar, que se tornou tradicional na cidade. Também já realizou encontros sobre cinema para a Universidade Católica de Santos, Universidade Monte Serrat, Secretaria de Cultura de Santos e Rotary. Escreve para o CineZen e o 50 Anos de Cinema.

One thought on “Festival de Gramado | Sonia Braga encanta e Aquarius é ovacionado

  1. Não poderia ser diferente!!! Um texto rico em seus comentários!!! Wal sabe tudo sobre a vida glamorosa de Sônia Braga! Fã incondicional e amigo da grande musa!!! Parabéns Wal e sucesso para Sônia e Aquarius!

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