Festival de Gramado | Feminismo – intencional ou não – é destaque

Carolina Dieckmann na coletiva de "O Silêncio do Céu" (Foto: Paula Azenha/CineZen).
Carolina Dieckmann na coletiva de “O Silêncio do Céu” (Foto: Paula Azenha/CineZen).

A mostra competitiva de longas do 44º Festival de Cinema de Gramado não tem uma diretora mulher representada. Algo a ser refletido. Por outro lado, também é interessante destacar que, ao menos em quatro produções exibidas na programação, a questão de gênero, principalmente a violência, é abordada. De maneira coerente, sincera. Todos esses filmes possuem, em comum, protagonistas mulheres.

Na coletiva de imprensa de “O Silêncio do Céu”,  Carolina Dieckmann foi perguntada sobre a cena em que sua personagem sofre um estupro. “Apesar da discussão de violência de gênero estar em destaque no país, o filme foi rodado antes. Mas é importante quando uma obra consegue criar esse diálogo com a população. Tratar de algo que tem sido debatido”, disse a atriz, cuja interpretação intensa arrancou elogios de público e imprensa.

Se no longa do diretor Marcos Dutra a abordagem foi uma coincidência com o debate atual que toma conta da mídia e redes sociais, por outro lado o curta-metragem “Lúcida”, de Fabio Rodrigo põe o dedo na ferida intencionalmente.

Já a cinebiografia “Elis” mostra quando a cantora brasileira foi coagida por militares. Além disso, é o retrato de uma mulher forte, a frente de seu tempo, cuja angústia surge da falta de liberdade em poder se expressar e agir como quer. Vale lembrar que ela foi julgada e boicotada por muitos colegas artistas e não teve, durante um bom tempo, a chance de explicar sua situação. Cada um sabe quando o calo dói.

“Aquarius”, que abriu o festival, traz Sonia Braga no papel de Clara, jornalista e crítica musical que enfrenta a pressão de uma construtora. Ela vive sozinha em um prédio. Não quer vender seu apartamento, fruto de tantas lembranças. Os demais foram vendidos. Os empresários querem levantar um novo edifício no local. Clara teve câncer, perdeu uma mama, lida com o preconceito de homens.

São mulheres diferentes. Cada uma enfrenta situações das mais diversas e que ocorrem diariamente na vida real. Com a intenção ou não, os filmes levantam questões relevantes. Debatem os gêneros. Apresentam mulheres que servem de inspiração ou reflexo para tantas outras. Mães, idosas, solteiras, garotas. Mostram que o cinema brasileiro está antenado. Que a curadoria do festival acertou, até agora, no ponto. Até por que o meio audiovisual continua sendo machista. Mas, no Brasil, ainda bem, não faltam mulheres que transcendem e transformam.

 

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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