Crítica | Elis

Andreia Horta é Elis.
Andreia Horta é Elis.

Em certa altura do filme, Elis Regina (1945-1982) se apresenta na Europa. No mesmo palco que as Supremes, de Diana Ross. Durante coletiva de imprensa, chama os milicos brasileiros de gorilas. “Sem querer ofender os gorilas”, sorri. A declaração chega aos militares daqui. A cantora é coagida. Seu filho é ameaçado. É forçada a cantar diante das forças armadas para evitar algo pior. Colegas artistas viram as costas. O público a vaia. O chargista Henfil (1944-1988), do Pasquim, faz um desenho comparando-a aos nazistas. Vem a decadência – pessoal – da estrela.

A série de acontecimentos descrita acima é apenas uma das batalhas enfrentadas pela gaúcha que deteve a maior voz da música popular brasileira. À frente de seu tempo, Elis rompeu barreiras. Não podia e não foi esposa submissa. Lidou com o marido mulherengo, o produtor Ronaldo Boscoli (1928-1994). Quando o bebê começa a chorar enquanto ela escuta uma canção via fones de ouvido, estudando, ele reclama. Pergunta quando ela será uma mãe de verdade. Sem titubear, ela emenda: “e quando você será um pai?”.

Pode ser que o filme romantize alguns fatos. Exagere talvez. Não estávamos lá para saber. No entanto, a abordagem se faz importante quando levanta temas atuais, de âmbito nacional: as relações familiares, entre gêneros, o conceito de família e os papeis da mulher e do homem na sociedade.

Cinebiografia das mais aguardas, a obra dirigida por Hugo Prata vai da chegada de Elis ao Rio de Janeiro, seu primeiro encontro com Miele (Lucio Mauro Filho) e Boscoli (Gustavo Machado), quando tinha cerca de vinte anos, o segundo casamento – com César Camargo Mariano (Caco Ciocler, em bela atuação minimalista) até sua morte. A ascensão, o auge e a queda.

eliscaco

Assim como outros filmes de ficção sobre grandes nomes da música brasileira, a exemplos de “Tim Maia” (2014), “Somos Tão Jovens” (2013) e “Cazuza – O Tempo Não Para” (2004), sofre com o ritmo irregular. Nesses trabalhos, a personalidade dos artistas se transforma meio aos solavancos. Do nada temos o Tim Maia expert em soul. Praticamente do nada vemos a Elis firme, forte, poderosa, e depois alcoólatra, angustiada, triste.

“Tim Maia” ainda precisava lidar com interpretações de diferentes artistas para um mesmo personagem. Em “Somos Tão Jovens” e “Cazuza” vimos jovens atores se esforçando ao máximo para encarnar seus ídolos na tela. Em “Elis” a diferença está na presença de Andreia Horta (da novela “Liberdade, Liberdade”).

Com momentos dignos da atuação de Marion Cotillard em “Piaf” (2007) – e Hugo Prata utiliza o contra luz em cima do palco costumeiro daquele e outros filmes parecidos -, a mineira de Juiz de Fora personifica a “Pimentinha” nos trejeitos, no olhar penetrante, no jeito meio moleque. É dublada nas canções. Mas encanta, hipnotiza e nos faz crer na presença da cantora.

Todos os filmes citados acima têm em comum a força das canções. Que supera quaisquer irregularidades cinematográficas. Até por que, em quesito cinebiografia, nosso cinema vive sua infância. E mesmo assim demonstra evolução admirável.

“Elis” traz outro recado: dos julgamentos precoces. “Cada um sabe onde seu calo aperta”, diz o ditado. Quando ela é crucificada por Henfil e a plateia, vemos uma situação que tem acontecido repetidamente de uns anos pra cá. Especialmente nas redes sociais. Quando nos sentimos vigilantes dos outros. Impiedosos. E reputações são destruídas sem ao menos darmos chance do contra argumento. Não poucas vezes por motivações banais. Outras por posições políticas. Elis tentou proteger seu filho. Henfil sentiu-se traído pela colega por que viu o próprio irmão ser torturado pelos militares. Quem estava certo? Por nos propiciar a reflexão, o filme merece nossa atenção.

Obs: Filme visto no 44º Festival de Cinema de Gramado.


 

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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